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Educação à distância ou a distância?


Existe uma polêmica em torno do uso da crase nessa expressão adverbial. Os gramáticos mais tradicionalistas afirmam que não ocorre crase, dado a palavra distância não se encontrar determinada por um artigo, sendo a vogal a apenas uma preposição. Outros gramáticos, que dão ênfase ao uso da língua, defendem a ocorrência de crase, a qual atua como um elemento importante de clareza e desambiguação do discurso.

Diversas gramáticas e dicionários atestam o uso de ambas as expressões como corretas e sinônimas, sendo já utilizada a expressão à distância, com acento grave, em livros, jornais e outras publicações. No entanto, há ainda uma divergência ao tratar do assunto; vejamos:

Há quem defenda que diante da palavra distância, emprega-se crase se a mesma estiver especificada. Observe os exemplos:

a) As caixas amplificadoras de som estavam à distância de 200m do público.
b) O detetive vigiava o suspeito a distância.

No primeiro exemplo usa-se crase, pois a palavra distância está especificada (200 m). Já no segundo exemplo a expressão apresenta-se sem crase porque não há especificação da distância.

Logo, a dúvida sobre a frase apresentada neste artigo (Educação a distância ou Educação à distância), pelo código padrão, não pode ter o acento indicador de crase, pois não há especificação, então o correto é: Educação a distância.

MAS!...
Para Pasquale Cipro Neto, o que há em “ensino a/à distância” é uma expressão adverbial formada com substantivo feminino, tal qual “à vontade” (em “ficar à vontade”, por exemplo), “às claras” (em “falar às claras”), “à farta” (em “comer à farta”), “à risca” (em “seguir à risca”) ou “à solta” (em “estar à solta”).

Nesses casos, as explicações para o emprego do acento indicador de crase variam. Há quem se apoie no fato de que nas expressões adverbiais masculinas ocorre “ao” ou “aos”, como se vê em “ao acaso” (em “caminhar ao acaso”, por exemplo), “ao léu” (“em deixar ao léu”) ou “aos trancos e barrancos” (em “fazer tudo aos trancos e barrancos”).

Pois bem, se ocorre “ao” (ou “aos”) nas expressões adverbiais masculinas, antes das femininas ocorrerá “à” ou “às”, dizem os que se apoiam nesse fato. Aí vêm os advogados do diabo e dizem que, em “a esmo”, por exemplo, não se usa “ao” (ninguém caminha “ao” esmo), o que também ocorre em “a salvo” (ninguém está “ao” salvo). Isso seria argumento suficiente para provar que nem sempre há contração (“a” + “a” ou “a” + “o”) na introdução das locuções adverbiais (femininas ou masculinas).

Diz-se também que, quando não se especifica a distância, não ocorre artigo, o que justificaria a opção por “Fiquei a distância” ou “Observo tudo a distância”, por exemplo.

Eis que entra em ação o fator mais importante de toda essa história: o uso (o uso registrado no padrão escrito formal culto, no caso). Basta uma mínima olhadela num bom guia de uso ou num bom manual para que se veja que não faltam exemplos de “a distância” e de “à distância”, em casos como “manter-se a/à distância”, “ficar a/à distância” etc.

Alguns autores chegam a afirmar (corretamente) que, quando existe risco de ambiguidade, o acento grave se torna obrigatório. O Houaiss dá este exemplo: “A sentinela vigia à distância”. Nesse caso, a falta do acento realmente tornaria ambígua a construção (“vigia de longe” ou “vigia aquela medida ou trecho”?).

Vamos deixar claro, pois: o acento indicador de crase (acento grave) é opcional na expressão adverbial feminina “a/à distância”, como atestam os diversos exemplos clássicos e modernos e as abonações de gramáticas, guias de uso, manuais e dicionários (Houaiss, Aurélio etc.).

Não se confunda “a/à distância” com “à distância de”. Nesse caso, há unanimidade no uso do acento grave: “Via-a sempre à distância de uma estrela” (o exemplo é de “O Amanuense Belmiro”, de Ciro dos Anjos, citado por Domingos P. Cegalla).

Nesses casos, cai-se no que é padrão, ou seja, no uso do acento grave nas locuções adverbiais femininas introduzidas por locuções prepositivas femininas (“Estamos à beira de um ataque de nervos”, “Ele vive à custa dos pais”, “Estava à espera de boas notícias”, “Esse poeta estava à frente do seu tempo” etc.).