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Contraposição entre a visão tradicional e a visão linguística

Vamos observar as diferenças entre a visão tradicional e a linguística no processo de identificação e análise das diversas maneiras como falantes fazem uso de uma língua viva. Restringir o ensino de línguas à gramática normativa equivale a ignorar todas essas variedades de uso da língua e afirmar que apenas uma variedade é a correta e válida, aquela que, em geral, não é dominada pela maioria dos alunos e por seu grupo social.

Por variedades linguísticas entendemos os diferentes usos que os falantes fazem da língua viva, ou seja, as diferentes maneiras de se dizer uma mesma coisa. As variedades linguísticas ocorrem em função da situação de uso da língua, do espaço geográfico em que se encontra o falante e da sociedade da qual ele faz parte e do tempo.

Variedades linguísticas situacionais (também chamadas variedades diafásicas, de uso ou, ainda, estilísticas) correspondem ao uso que os falantes fazem da língua em diferentes situações sociais comunicativas.

Assim, empregamos uma variedade mais formal em situações mais formais, bem como uma variedade mais informal em situações mais informais. Nesse sentido, podemos dizer que as variedades linguísticas situacionais existem também em função dos indivíduos com quem nos comunicamos (interlocutores).

Nesse tipo de variedade linguística, levamos em conta um mesmo falante e procuramos entender o que o leva a se comunicar de diferentes maneiras nos diferentes contextos pelos quais circula. Por exemplo: você fala com sua mãe exatamente da mesma forma como fala com seu chefe no escritório? Ou você conta um filme a alguém, em uma roda de conversa, da mesma forma como relataria o filme em uma situação de sala de aula, sob avaliação de um professor? Você conversa com amigos, com pessoas recém-conhecidas, com seu dentista ou com seus familiares da mesma maneira? Cada situação de comunicação requer do falante um estilo diferente, sempre relacionado ao grau de formalidade ou informalidade que a situação exige.

Segundo Alkmin, a noção de situação (...) tem um alcance restrito, reduzindo-se, praticamente, à consideração da cena em que ocorrem as interações verbais. É útil e produtivo entender situação de uma perspectiva mais abrangente, a saber, como o contexto social global de uma comunidade, com suas marcas históricas e culturais próprias. (...) nos contextos ritualísticos e religiosos que, tomados como pontos de partida, sugerem o estudo de variedades e usos linguísticos especiais.

Estudar esses diferentes jeitos de falar das pessoas é algo relativamente novo nos estudos da ciência linguística. Isso não era preocupação dessa ciência, uma vez que o foco sempre recaia nos estudos sincrônicos da língua, em busca de uma competência do falante caracterizada como ideal, perfeita.

Quem introduziu estudos voltados para “como” e “onde” um falante usa as estruturas da língua e, portanto, em quais situações ele muda sua forma de usar a língua, foi Dell Hymes, linguista norteamericano que, nos anos 60, desafiou Chomsky e afirmou que diferentes falantes usam a língua a partir de diferentes comandos e que estes têm relação direta com o contexto em que se encontram os falantes.

Em função da necessidade, um falante faz adequações ao usar a língua, sempre relacionadas às características da situação de comunicação, aos seus interlocutores, ao propósito comunicativo e, certamente, ao contexto no qual a comunicação acontece.

Os estudos de Dell Hymes foram muito importantes para a ciência linguística, pois a partir deles é que conceitos como “comunidade linguística” começam a ser discutidos e passam a estabelecer novas metodologias de pesquisa sobre o uso da língua em situações orais reais.

Variedades linguísticas regionais (também chamadas geográficas ou diatópicas) são aquelas que permitem identificar um falante de uma região ou de outra do país: a diferença observada na pronúncia dos falantes gaúchos ou mineiros, ou a diferença observada na fala de paulistas e de cariocas, por exemplo. Essas diferenças aparecem não só em termos sonoros, mas também em termos do léxico utilizado.

Um exemplo bastante conhecido refere-se àquilo que conhecemos por “mandioca”, em São Paulo, mas que é conhecida como “aipim” ou “macaxeira” em outros estados do país. Também há o exemplo do uso das palavras “jerimum” e “abóbora” se referindo à mesma coisa. No caso da língua portuguesa, esse tipo de variedade linguística ainda nos permite fazer distinções entre o português utilizado no Brasil, em Portugal, na África ou na Ásia.

Vale ressaltar que as variedades linguísticas geográficas da língua portuguesa aqui em nosso país se devem ao fato de a população, no período da colonização e da expansão geográfica do Brasil, ter tido contato com diferentes colonizadores e falantes de outras línguas e, dessa forma, terem se fortalecido as diferentes maneiras de uso da língua.

A variação linguística geográfica ocorre a partir de diferentes planos, como já dissemos em parágrafos anteriores: no plano lexical, no plano fonético ou fonológico e no plano gramatical. Vejamos alguns exemplos dessas diferenças a seguir.

Variedades linguísticas socias (também chamadas diastráticas) são aquelas que permitem distinguir falantes de níveis socioeconômicos ou níveis de instrução e de conhecimento da língua diferentes.

Essas variedades estão diretamente relacionadas ao ambiente sociocultural dos falantes. Como resultado delas, temos os chamados socioletos ou dialetos sociais.

O estudo dessas e outras variedades linguísticas e suas implicações teóricas é aprofundado em uma área específica dos estudos linguísticos, denominada sociolinguística. Esse ramo da ciência linguística se dedica ao estudo de diferentes fatores relacionados às variedades linguísticas sociais, como os ligados às classes sociais, ao grau de escolaridade do falante, à faixa etária, ao sexo, à origem étnica, dentre outros.

Afirma ainda Alkmin que “as variedades linguísticas utilizadas pelos participantes das situações devem corresponder às expectativas sociais convencionais”. Dessa forma, quando o falante ignora as convenções sociais sobre a língua, pode até ser punido por seus interlocutores, como, por exemplo, uma punição gestual do tipo ‘franzir de sobrancelhas’ ou ‘negação com o balanço de cabeça’.

Uma vez estudadas as variedades linguísticas, cabe perguntar: como tais estudos estão relacionados à norma padrão da língua? Como os linguistas têm discutido o uso da norma padrão e da não-padrão? Em que sentido essa discussão se relaciona ao que ocorre com as variedades linguísticas?

Retomando o que afirma Perini sobre gramática e normatividade em contextos de ensino da língua, a gramática normativa tem seu foco de atenção e análise direcionado para a chamada língua padrão.

Na mesma direção, encontramos o que afirma Mendonça, ao tratar do distanciamento que se observa entre a linguística e o ensino de línguas: (...) a gramática (normativa) aí tem um caráter prescritivo e discriminatório: para a gramática é errado todo uso da linguagem que esteja fora dos padrões linguísticos estabelecidos como ideais. (...) estudar gramática é estudar as regras que regulam a “norma culta”, é saber o que pode ser dito e o que não pode – que costuma ser visto quase como sinônimo do que pode ser escrito e do que não pode. Ensinar gramática, nessa concepção, é ensinar língua, que, por sua vez, é ensinar norma culta, o que significa desprezar outras variedades – não só por ignorá-las, mas por considerá-las inferiores, diz Mendonça.