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Conceitos de concepções diacrônica e sincrônica da língua

Encontramos aqui outra prioridade nos estudos linguísticos: a prioridade dos estudos sincrônicos em relação aos estudos diacrônicos, distinção essa estabelecida por Saussure.

Por estudo diacrônico entende-se a análise de uma língua em seu processo de transformações históricas, ou seja, o estudo de uma língua por meio de sua evolução histórica. Assim foram os estudos da linguística histórica ou comparativa, do século 19, como já dissemos.

Para Saussure, a linguística deveria centrar suas atenções na descrição de um estado de língua, ignorando as transformações que a antecederam e as que se sucederão.
O estudo sincrônico é o estudo de uma língua em um determinado período, como se fosse estática, ignorando suas transformações em função do tempo e tudo que as causam.

Um estudo diacrônico e um estudo sincrônico exemplificam o que foi mencionado
anteriormente sobre dois pontos de vista diferentes a respeito de um mesmo objeto.

Nos dois casos estamos falando de análise linguística, ou análise de fenômenos linguísticos. Fiorin ilustra bem essa diferença entre estudo diacrônico e sincrônico apresentando o seguinte exemplo:

Tome-se a palavra “comer” da língua portuguesa: Em uma análise sincrônica, verifica-se que o “com” é um elemento linguístico que se define em relação a outros elementos linguísticos do português brasileiro.

Assim, ao se constatar que esse elemento aparece em outros contextos como “comilança”, “comida”, “comeu”, verifica-se que ele se define como uma radical. Entendendo-se por radical aquele elemento da estrutura das palavras cognatas que expressa um significado comum.

Em uma análise diacrônica, verifica-se que o verbo “comer” resulta da combinação do verbo comer em latim “edere”, em que ed é o radical e cum é o prefixo, que significa companhia. Assim: cum + edere > cumedere > comer, na língua portuguesa.

Disso conclui-se que, do ponto de vista da análise diacrônica, o “com” de “comer” é um prefixo, segundo Fiorin. Em resumo, no estudo sincrônico o elemento linguístico (“com”, no exemplo apresentado) está sendo definido na relação que ele estabelece com os outros elementos da língua naquele estado de língua, ou naquele estado em que a língua se apresenta, naquele dado ponto fixado no tempo.

No estudo diacrônico, o elemento linguístico (o mesmo “com”) está sendo definido em relação aos elementos linguísticos que o antecederam ou sucederam em diferentes pontos na linha do tempo.

Um estado absoluto define-se pela ausência de transformações, e como, apesar de tudo, a língua se transforma, por pouco que seja, estudar um estado de língua vem a ser, praticamente, desdenhar as transformações pouco importantes, do mesmo modo que os matemáticos desprezam as quantidades infinitesimais em certas operações, tal como no cálculo de logaritmos, aponta Saussure.

Ainda, para deixar bem claros esses dois conceitos, podemos pensar em outro exemplo, como é a palavra “você”. Ela pode ser analisada em relação aos outros elementos do estado de língua atual (sincronia) ou a partir de suas transformações (diacronia) vindo de “vossa mercê”, passando por “vossemecê” e “vosmecê” até chegar em “você”.

Reflita sobre esse exemplo para perceber que – na forma atual – “você” é usado pelos falantes para se dirigir à pessoa com quem falam em situações de informalidade ou que exprimem informalidade entre o falante e seu interlocutor. A análise sincrônica considera esse uso.

Por outro lado, analisando “você” de um ponto de vista diacrônico, verificamos que as formas que o antecederam eram usadas em situações mais formais, naquelas situações em que exprimem um distanciamento formal entre o falante e seu interlocutor. Isso explica o fato de este pronome ser usado com verbos conjugados na terceira pessoa (como pedem os pronomes de tratamento), e não na segunda pessoa.

O estudo sincrônico caracteriza-se, assim, como a análise de um estado da língua em
determinado momento no tempo, seja esse tempo o presente ou o passado. Esse é o estudo que deve ser priorizado na linguística.

Mas é preciso pensar que ser prioritário não significa ser exclusivo, o que explica o fato de a linguística ter continuado com seus estudos históricos também. Aliás, convém ressaltar que os estudos da linguística histórica podem auxiliar nas análises dos usos que os falantes fazem da língua em um estado particular.

Vejamos as considerações de Saussure em relação à sincronia e à diacronia. Ele afirma que sincronia está relacionada ao eixo das simultaneidades e que diacronia, ao eixo das sucessividades.

Segundo Carvalho, no eixo das simultaneidades, o linguista deve estudar as relações entre os fenômenos existentes ao mesmo tempo num determinado momento do sistema linguístico, que pode ser tanto no presente como no passado. Por outro lado, situando-se no eixo das sucessividades, o linguista tem como objeto de estudo a relação entre um dado fenômeno e outros fenômenos anteriores ou posteriores, que o precederam ou lhe sucederam.

E mais: quando pensamos nos aspectos estáticos da língua, estamos nos referindo ao que é sincrônico. Quando pensamos nos aspectos dinâmicos da língua, relacionados à sua evolução, estamos nos referindo ao que é diacrônico.

Uma coisa interessante para pensarmos é que a diacronia tem relação direta com a fala. Afirma Saussure que “tudo quanto seja diacrônico na língua, não o é senão pela fala”. Ou seja, é pela fala, por tudo que acontece em uma comunidade quando os indivíduos se comunicam por meio da fala, que as modificações da língua vão se estabelecendo e, portanto, vão entrando em uso pela coletividade, passando de um grupo social a outro.

A sincronia opera a partir de uma única perspectiva: a dos falantes, segundo Saussuere a possibilidade e a orientação para a descrição de um estado de língua, sem recorrer às suas transformações históricas, está intimamente relacionada à concepção da linguística conforme a visão de Saussure de que toda língua, num certo tempo, constitui um sistema integrado de relações; ou, em outras palavras, toda língua é um “sistema de relações”, afirma Lyons.

Podemos ilustrar a definição de sistema utilizando a metáfora de um relógio. Se um relógio for desmontado, encontram-se as várias peças que formam seu mecanismo. Essas peças soltas estão constituindo um “conjunto de peças de relógio”. Para que esse conjunto de peças forme o mecanismo de um relógio propriamente dito e funcione como tal, há necessidade de se organizar essas peças, umas em relação com as outras, de acordo com um esquema muito bem definido.

Basta uma única peça fora do lugar e todo o funcionamento do relógio se altera. Sistema, portanto, é um conjunto organizado de elementos que interagem. A interação é fruto da relação que se estabelece entre os vários elementos.