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Trago comigo a melhor e a pior versão de mim

Foto: Editoria de Arte da Jussi Up Press/Will Assunção

Ao chegar aos 30 anos, percebi que a maturidade da vida adulta não trouxe nenhuma doçura, tampouco uma visão mais romanesca acerca do tempo. O ceticismo adquirido nos dias vividos permaneceu intacto e inabalável. O meu tom realista e insólito segue firme ao tratar das efemérides que acometem o meu dia a dia.

O período balzaquiano é sem sombras de dúvida o momento em que nós – seres humanos – nos deparamos, outra vez, com uma solidão iminente. Sorte a minha tê-la como melhor amiga na infância e adolescência.

É nesse tempo – o qual nos deparamos com o fato de não mais sermos tão jovens – que muita coisa deixa de fazer sentido, e outras passam, então, a ser primordiais. Percebemos que é inevitável a perda de certo brilho nos episódios que nos cercam, antes presente nos dias quando éramos jovens. Afinal, já não estamos dispostos a tantas coisas.

Mas, por outro lado, agora sabemos, de fato, o que realmente importa. E quem importa. Ao ver outros jovens pela rua (ou no feed do Instagram) é que eu notei que o meu tempo de juventude se foi. E agora chegou a vez deles cometerem erros, aprenderem a apanhar da vida e saborearem o gosto da imaturidade e do ineditismo cintilante que os primeiros anos da vida trazem.

É nesta hora que pisamos o pé no freio, instantes antes de cometer qualquer ato, que, aos 20, seria uma banalidade qualquer. Entretanto, com o passar dos anos adquirimos a consciência de que ser adulto requer prudência e equilíbrio, e elencamos sentimentos importantes nessa fase da vida, como empatia, paz e resiliência. De toda forma, nos tornamos mais seletos e pragmáticos também.

Quem diria?, a Geração Y envelheceu! E ganhou idade sob o filtro dos anos 90 e 00. De lá para cá, brotaram outros propósitos, e sonhos como o de ganhar as ruas de Londres ou Nova York se transformaram em planos menos urgentes.

Tive muito poder com muito pouca idade. E isso, talvez, projetou uma imagem de arrogante para pessoas que mal me conheciam. Cometi bastante imaturidade – inerente a jovens desajustados e sadios de mente-, mas não mudei em essência. Eu fui um jovem ganancioso entre velhos que dominavam o monopólio do poder.

Apaixonei como jovens do meu temo. Cometi loucuras. Chorei. Ri. Gargalhei. Enfim, vivi. Mas, hoje, há em mim um sentimento que pode ser traduzido com maestria nos versos de Hier Encore, canção do músico francês Charles Aznavour.

Ontem ainda eu tinha vinte anos
Mas perdi meu tempo a cometer loucuras
Que não me deixa, no fundo nada e realmente concreto
Além de algumas rugas na fronte e o medo do tédio
Porque meus amores morreram antes de existir
Meus amigos partiram e não mais retornarão
Por minha culpa eu criei o vazio em torno a mim
E gastei minha vida e meus anos de juventude

Pode ser apenas uma fase, mas também há o risco de ser uma fissura do existencialismo presente em mim. Só mesmo o tempo dirá. Eu tenho consciência de que trago comigo a melhor e a pior versão de mim. É possível que nossos defeitos nos mantenham sendo quem nós, verdadeiramente, somos.

As paixões, ainda que desgastadas e em frangalhos, persistem na memória e no peito. Assim como o amor, que, desta vez com uma roupagem mais maturada, se revela tenro e envolto de sobriedade. A vida (ou nós?) passa a ter menos pressa.

A batuta com a qual regemos a nossa própria vida titubeia sempre para o lado da loucura, mas, no fim das contas, prezamos pela infalibilidade da racionalidade. É assim que eu, ao chegar aos 30, lido comigo mesmo e com o mundo.