Header Ads

LightBlog

O fascismo do Coronel Traquete Quaresma


De antemão, aviso-te, caro leitor, serei eu um personagem observador, invisível e mui próximo do protagonista, o que me possibilitará serpentear pelos cenários obtusos deste quadro de acontecimentos. Comecemos pelo nome que, talvez, seja o mais trágico de seus pesares: Traquete. Coronel Sérvio Traquete Quaresma. Não te assustes, caro leitor, este é o nome do pobre diabo; do protagonista desta história mofada de caprichos e orgulho; rancor, medo e preconceitos carregados por um fascista frustrado.

Não se sabe ao certo como ele havia se tornado fascista ou se já nascera um. A única coisa que se sabe é que havia se derivado das agitações da Europa no início do século 20. O mais provável é que Traquete ganhara destaque na própria vida influenciado pelos primeiros movimentos que surgiram na Itália, antecedendo a Primeira Guerra Mundial. Fazia oposição ferrenha ao socialismo, ao comunismo e à democracia liberal.

Mas, não se deixe enganar, este homem esquálido, pele e osso, coberto de uma cor pálida, desbotada, nascera neste recanto do país. Seus pais eram descendentes de negros vindos da África, no período da escravidão no Brasil. Crescera no interior da Bahia, em uma dessas cidades históricas que herdaram de Minas Gerais a cultura e a riqueza. Corria pelas vielas, atrás de um vintém e outro, para sobreviver aos tempos difíceis. Estudou até quanto pôde, passou os últimos anos do colégio, mas não chegou a frequentar a academia, o que causara tamanha frustração diante de seus partidários.

Nas reuniões promovidas pela alta cúpula do partido, seus colegas exibiam sempre orgulhosos os anéis de formatura; além de mencionar, contando as mesmas histórias, as experiências vividas na faculdade. Naqueles momentos Traquete permanecera mudo, pois não havia outra opção a não ser se manter em absoluto silêncio; não frequentara sequer um dia o ambiente pertencente aos nobres ateneus.

Anos mais tarde exerceria o mais ilustre cargo fascista que fora possível em vida: se tornaria coronel em seu país de origem. Tornara-se um representante do radicalismo político autoritário. Seu grupo partidário era formado por fascistas de todos os lugares do mundo, e procuravam unificar o Brasil através de um Estado totalitário. Este foi um de seus discursos proferidos no dia do próprio casamento em que exaltou os princípios fascistas.

Traquete passara a vida dedicando-se a incluir na população a veneração ao Estado, a devoção a um líder – um ditador de extrema direita que fora seu candidato – forte, com ênfase ao militarismo. Traquete Quaresma sempre via na violência, na guerra e no imperialismo meios para alcançar os objetivos de seu partido ultraconservador. Na noite que fora lhe concebido a patente de coronel, dia de ufanismo para ele e muita glória, afirmara que as raças consideradas superiores deveriam obter espaço, deslocando ou eliminando aquelas consideradas inferiores, seguindo o exímio exemplo do nazismo do seu ídolo maior, Adolf Hitler.

O tempo não polpa ninguém, nem mesmo homens rígidos e à prova de grandes transformações pelo mundo. A ampulheta da vida havia sido cruel com o coronel Sérvio Traquete Quaresma. Não chegara à presidência nem mesmo a ser líder do partido ou sequer mero ídolo dos correligionários, ou da massa que sempre apoiara seus ideais. O tempo passou sem oferecê-lo fama e grandes sucessos, ora intrínsecos à vaidade e a soberba. Não alcançara elogios de outrem de sua época. Era, incontestavelmente, uma figura apagada. Agora, ele não passava de um velho militar aposentado que desfrutava dos filhos e da pouca energia em sua mansão no alto do Latrão, bairro de classe média alta que trazia em si certo sossego.

Mas o que seria o homem sem a sua própria história? Mesmo sendo um homem do porte e gênero do coronel Traquete? Por passar todos esses anos no encalço, como um fantasma observador, assistindo aos patéticos momentos do milico partidário conservador, ousei a descrever os elementos do seu fascismo em dez momentos característicos. São eles:

1- Traquete nunca aceitara sua condição de afrodescendente, mesmo tendo os cabelos grossos e crespos, uma família composta de negros, ainda que negros pardos; sua pele é que era um verdadeiro enigma: a melanina talvez estragada por um câncer que sempre escondera; quiçá uma mutação, não sei! Seu corpo reagira de forma misteriosa deixando uma couraça em seu corpo de cor marrom pálida. Não admitia ele, de forma nenhuma, ter genes de negro.

2- Visava o monopólio do poder político por meio do terror, da política parlamentar, da guerra, dos acordos obscuros; não media esforços junto ao seu partido para criar um novo regime que destruiria a democracia no país. Era de extrema direita e nunca escondera a ninguém. Para ele, o pobre era pobre porque passava as horas do dia vadiando, sem querer trabalhar, dar o duro, sem conquistar um tostão com o suor dos seus próprios esforços. Portanto, sentia nojo de quem era menos favorecido do que ele. Posicionava-se como superior a qualquer cidadão que não ostentasse uma conta tão numerosa quanto, ou superior, a sua.

3- Ele sempre fora um homem religioso, e ninguém podia negar o contrário. Era um homem moldado à moral religiosa do seu tempo. Seguia os mandamentos bíblicos, a palavra de Cristo, até o ponto em que lhe fosse conveniente. A Igreja servia de base para norteá-lo sobre como todos deviam se comportar. Ia, religiosamente, todos os domingos à missa em qualquer igreja onde encontrasse gente que o bajulasse. Mesmo sem nunca ter tido a façanha de ler a Bíblia, dizia conter naquele livro verdades inquestionáveis. E sua esposa, outro ser surpreendentemente tresloucado, concordava com tudo o que saíra de sua boca. Era uma tragédia espartana.

4- Matinha uma família afundada no mais trágico desenrolar do destino; Todavia, era a perfeição aos seus olhos, imaculados, nobres, repletos de prestígios. Fazia o que estava ao seu alcance para esconder que sempre os sustentaram, mesmo depois de adultos. Um deles nunca gostara de esforços; acreditava que trabalhar era coisa sem valia. Passava os dias na frente do seu próprio mundo, construído a partir das peças que o seu pai lhe oferecia. O outro era tão medíocre que a porta ganhara mais atenção dos pássaros que rondavam a varanda da casa do militar.

5- O totalitarismo era o próprio espelho da sua alma. Não havia sinal de alternativas quaisquer. A intolerância à diferença era crucial ao seu modo de vida. O que fugia aos padrões adotados e impostos pelo coronel aposentado, não servia de modelo ao próximo e a sua família; coitado!, iria morrer sem amigos. Os que chamavam de amigos não passavam, deveras, de meros bajuladores, abutres sociais de olho, sobretudo, em obter vantagens pela sua posição financeira, outrora política-militar.

6- A mentira, sua fiel escudeira. Usara-lhe para tudo o que um dia desejou conquistar. A confiança de seus partidários, a amizade conveniente, um novo negócio, um casamento arranjado para seu filho: uma verdadeira causa perdida. O único descompasso deste ponto é que ele nunca tivera dom para interpretar; portanto, não demorava muito para a verdade vir à tona, e deixá-lo desnudo. Feito isto, era o momento de usar a força, a violência, o medo e o terror. Se a mentira era sua melhor amiga, a violência era a sua amante.

7- Disciplina, exemplo maior de virilidade, moral, espírito guerreiro; Traquete Quaresma sempre se vangloriava por acordar às cinco da manhã para tomar seu suco de chuchu e ler os jornais para ver como a oposição estava errada e o país caminhava na direção certa com o seu partido no poder. Como observador, narrar isto me provoca náusea, acompanhar a vida deste obtuso homem é o mais perverso castigo que o destino já me dera. Se já contam sete, só me restam três para eu voltar a minha forma humana e abandonar esta incumbência.

8- Irracionalidade. Este era uma das características mais presentes no coronel. Via de um único pensamento; Traquete era movido por uma lógica irracional, sem sentido, mas presente em toda a sua vida. Ele era movido pela emoção sem razão.

9- Era a favor violência policial contra qualquer ato popular: seja uma manifestação pacífica ou um protesto acalorado. Planejara um aparato policial que impediria, controlaria e reprimiria a dissidência e a oposição, mesmo usando o terror organizado; por graça divina seus planos não chegaram a se tornar realidade.

10- Defendia a ideia da criação de um “líder”, investido com um carisma sagrado, que comandaria, dirigiria e coordenaria as atividades do partido e do regime no país; como observador eu posso afirmar que era dessa forma a política doméstica em seu lar. Incentivava seus filhos, esposa e familiares a lhe adorarem, admirarem, sem direito a contestá-lo. Do canto da sala, invisível, sem poder ser notado, observava como patética era aquela cena.