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Quem são os bravos do lado oposto?

Tenho notado com certa frequência, seja nas redes sociais, nas estampas das camisas ou mesmo nas letras de músicas, acompanhadas por um violão, um comportamento próprio de uma geração que nasceu entre o fim da década de 1970 e início dos anos 1990. Em especial os que se tornaram adultos recentemente, nos últimos oito ou sete anos. Esta parcela da Geração Y tem se mostrado meio infeliz, descontente com o cenário em que vive e, muitas vezes, sente a sensação de desajuste social.

O quadro pintado por esse bocado de “novos adultos” se reflete na velocidade que o mundo vem se transformando na pós-modernidade – uma fissura profunda e agônica da modernidade. Nas vigentes relações coletivas impostas pelas novas tecnologias, no mercado de trabalho – a incessante cobrança em ser o melhor no que se faz – e um olhar inconformado para o próprio indivíduo dentro de um eu angustiado.

Sem grande rigor, as expressões adotadas retratam jovens perdidos em seus próprios meios, frutos de uma classe média confortável em que sempre esperam, mas são cobrados pelas vitórias mundo afora, parte de um processo considerado natural de um desdobramento prenunciado.

Mas o que vem contra a maré é que justamente nem todos os jovens da Geração Y, principalmente, um fragmento composto por gente que passa a enxergar o mundo com outros olhos, estão dispostos a seguir os mesmos passos dos seus antecessores. A ambição deixa de ser uma característica intrínseca ao sucesso profissional, e não mais possuem a disposição necessária para enfrentar eventuais sacrifícios, logo eles são deixados de lado com certa facilidade. Só conseguem, a partir de então, avistar à frente um desejo de imensidão doce e de serenidade, típica de uma geração que ainda não sabe lidar com as recentes frustrações da vida.

De modo impreciso, seria este o perfil psicológico de todos aqueles que vêm do “lado oposto”, portadores de um mal-estar genuíno. E, então, só lhes restam enfrentar este mundo repleto de imprecisões. Em outras palavras, tudo se torna uma questão individual, de força pessoal, diante dos desafios da longa jornada. Conseguintemente, são levados a ser questionados sobre os seus sonhos e as expectativas que se erguem sobre eles. E é neste começo de século que ninguém conseguiu melhor reportar esses desencontros do que a banda Los Hermanos.

Diante de um exército de competidores, de uma multidão que ruma às exigências do presente, nem todos desejam ser um “vencedor” como versa em uma das canções dos Hermanos, que foi capaz de captar com sensibilidade o estado de espírito de parte dessa geração: “olha lá, quem acha que perder é ser menor na vida; olha lá, quem sempre quer vitória; e perde a glória de chorar; eu que já não quero mais ser um vencedor [...]”.

Ao se depararem com anseios e dilemas comuns à vida de qualquer mortal, eles tentam escapar buscando uma realidade mais aceitável, uma fuga que pode ser explicada em “sei do incômodo e ela tem razão, quando vem dizer, que eu preciso, sim, de todo o cuidado”. Acompanhado de uma análise angustiante e retrospectiva da própria vida: “e se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria?”.

Entretanto, a principal e mais marcante particularidade desse grupo é a condição de solitário. A falta de companhia ou os desencontros promovidos pelo destino, o azedume na tentativa de consertar todos os destroços podem ser facilmente vistos em “sei que a tua solidão me dói; e que é difícil ser feliz; mas do que somos todos nós; você supõe o céu...”. Em contrapartida, a despeito desse sentimento, a geração Los Hermanos venera a solidão de uma forma peculiar. Eles fazem parte do “Bloco do Eu Sozinho” [nome do segundo álbum da banda].

Faz-se necessário se sentir só para, muitas vezes, se sentir melhor e bem consigo mesmo. Em suma, existe a intenção de quietude em cada ser em se renovar, de encontrar a própria paz [como expressa uma canção de Marcelo Camelo em carreira solo]: “solidão, foge que eu te encontro que eu já tenho asa”.

Os Hermanos conseguem estabelecer um diálogo com cada personagem deste universo, recriando com o ouvinte uma conversa informal, de esquina, repleta de conselhos que, muitas vezes, exige um espaço de cumplicidade. “De onde vem a calma daquele cara? Ele não sabe ser melhor, viu? Como não entende de ser valente?”, narra mansamente Marcelo Camelo sobre uma terceira pessoa, “de onde vem o jeito tão sem defeito? Que esse rapaz consegue fingir; olha esse sorriso tão indeciso; tá se exibindo pra solidão; não vão embora daqui; eu sou o que vocês são; não solta da minha mão”.

A canção dos Hermanos é, sobretudo, feita para aqueles que primam por ir contra a corrente, para quem não segue a manada; geralmente uma personagem visivelmente abatida, que já beira a desistência de remar para conquistar seu almejado lugar na vida, como explicita em “pois é, não deu; deixa assim como está, sereno; pois é de Deus; tudo aquilo que não se pode ver; e ao amanhã a gente não diz; e ao coração que teima em bater; avisa que é de se entregar o viver”.

Há em suas composições certo sentimento de “comunidade” que separa em uma linha tênue quem não pertence a este círculo: “pra nós todo amor do mundo, pra eles o outro lado”. O mais curioso é que a euforia coletiva alcançada nos shows da banda era sempre resultado da experiência de cada indivíduo que estava ali presente.

O heroísmo do “próprio eu” cantado por Camelo se desprende da lógica que o mundo inteiro vive e é protagonizado por uma melancolia de quem sente ter perdido algo, como em “eu não vou mudar, não; eu vou ficar são; mesmo se for só; não vou ceder; Deus vai dar aval sim; o mal vai ter fim; e no final, assim, calado; eu sei que vou ser coroado; rei de mim”.

O amor, a carta magna dos Hermanos, é a rosa dos ventos dessa porção espalhada pelos quatro cantos do mundo. É o sentimento que norteia essa legião de perdidos, “veja você, onde é que o barco foi desaguar; a gente só queria um amor; Deus parece às vezes se esquecer; ai, não fala isso, por favor; esse é só o começo do fim da nossa vida”, traduz essa ligação existencial. E, de volta, a questão da fuga como única opção, “a gente corre pra se esconder; e se amar, se amar até o fim; sem saber que o fim já vai chegar”. O amor, então, arrebata todo o mal que existe, sendo o maior e mais nobre sentimento que esses jovens podem erguer dentro de si, “diz, quem é maior que o amor? Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora”.

Se apenas foi uma época, uma sensação, um encontro espontâneo da “comunidade” com o seu arauto, a geração do malmequer nunca teve, enquanto o Los Hermanos existiu, um porta-voz tão sensível que conseguiu reunir e abraçar todos aqueles que se sentiram perdidos.