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Não matarás!


Era domingo, e Hermeto já estava atrasado para a missa fazia 15 minutos. Olhou para o relógio ao mesmo tempo em que via a praça movimentada pela molecada na mais selvagem vadiagem, dizia o velho a quem encontrasse pelo caminho da igreja ao tentar descrever a mocidade que sempre estava por ali. Hermeto se arrastava insistindo em fitar com um dos olhos, que ainda lhe servia em vida, seu antigo relógio de pulso prateado de fundo verde, como se os ponteiros fossem se mover a seu favor toda vez que ele alocasse um pouco da atenção para o pequeno aparelho.

_ É uma juventude... sei lá!, balbuciava consigo mesmo ao subir as escadarias da Matriz, reprovando com a fronte retesada aqueles ainda muitos jovens, recém-formados na puberdade, que formavam pequenos círculos no jardim no centro da cidade.

Adentrou a igreja ao fazer o sinal da Cruz, reparando os lados adjacentes e sorrindo de forma condescendente como estratégia de convencimento com o propósito de fazer alguém ceder algum lugar para um velho que já passara dos 70 anos fazia algum tempo. Sem muito esforço nos músculos faciais e malabarismo de simpatia, encontrou um assento onde pudesse repousar seu corpo já cansado, e soltou uma baforada de fazer dobrar os lábios, fruto da respiração ofegante de um homem que reconhecia a própria velhice.

_ A igreja está cheia hoje, pensou consigo, ainda olhando para o altar e tentando se lembrar do que teria que fazer na manhã do dia seguinte. Pegou-se em um momento, ao se despertar de pensamentos soltos, justamente quando o padre falava, no sermão do domingo, de uma nova consciência juvenil.

_ Está muito quente. Será que vai chover hoje?, perguntou Hermeto a uma velha amiga que estava sentada ao seu lado.

_ Abafado!, respondeu o velho sem dar tempo à senhora de abrir a boca e respondê-lo.

O padre convidou a todos a ficarem de pé, e Hermeto faz um esforço para permanecer ereto e fechar os olhos em seguida. O Pai Nosso começava a ser entoado por vozes que vinham de todos os lados, e ele acompanhava rezando ainda em voz alta, até chegar o momento de dizer Amém. Antes de começar a Ave Maria, Hermeto, dessa vez, se perdeu, e já não se lembrava de como era o caminho daquele conjunto de palavras.

_ Eu sempre me esqueço, mas eu estou na missa!, repetia mentalmente, se isentando de qualquer culpa cristã.

[...]

_ Ele está no meio de nós!, sublinhou as palavras soltas, ainda recém-saídas da boca do padre no alto do altar. O pároco permitiu que todos voltassem a se sentar, e Hermeto aliviado por ter ficado tanto tempo esforçando seus joelhos, agradeceu a Deus. Olhou para o velho relógio, deduzindo que faltava pouco tempo para a missa terminar. Direcionou olhares para o fundo da igreja, e tirou suas próprias conclusões de que no domingo passado a igreja estava mais vazia.

_ É... Hoje deu mais gente!, falava em voz alta, enquanto ajeitava seus óculos de vista amarelados nas laterais. A missa parece ter tido seu último minuto, e logo ele se apressou a dizer a um conhecido, que havia cruzado por acaso, o quanto a missa estava de seu agrado naquele domingo.

_ A missa estava foi boa hoje. Pena que a juventude não dá valor. Eu canso de chamar os meninos, mas não adianta, lamentava.

_ Essa rapaziadazinha só quer saber de..., é... de... de ficar na rua, padre!, disse Hermeto ao avistar o pároco a três metros de distância de onde estava.

_ A missa estava muito bonita hoje, gostei, disse com o rosto de satisfação ao ver o padre fazer um sinal de aprovação com a cabeça, ao mesmo tempo em que agradecia o elogio vindo de alguém simples, mas de tradições. Tentou pensar em algo mais elaborado para dizer, mas nada saiu de sua boca. No entanto, a atenção do líder religioso foi tomada por outras falas e movimentos, e logo Hermeto foi deixado de lado.

Hermeto se contentou ao ter cumprido seu papel de cidadão cristão católico, e logo encontrou conforto na ideia de voltar para casa. Procurou a esposa entre os fiéis que lotam a pequena capela, e a encontrou depois de poucos minutos. Os dois caminharam rumo à saída, e ela aproveitou a ocasião para perguntar:

_ Hoje mais cedo, eu notei que a cozinha não trazia um bom cheiro, vindo do nosso quintal, disse a esposa de Hermeto.

_ O que deve ter sido?, perguntou em seguida, ainda envolta de uma ingenuidade graciosa.

_ Né nada! É aqueles desgraçados que eu dei veneno. Um monte de ladrão, não sei de onde vem tanta porqueira de uma vez. Matei tudo!, disse Hermeto, resmungando sem nenhum peso na consciência ao narrar como havia matado cerca de oito gatos de uma única vez.
_ Esses gatos nan-não pode ver o cheiro de carne, que eles vêm tudo para cima de gente... Ah, esses corno me paga!, completou o velho tremendo de raiva. Não ouviu mais nada de sua esposa que acompanhou a passos lentos no caminho de casa.

Hermeto se sentia daquele jeito, atormentado por uma ira que se apossava de si, toda vez em que algum animal invadia seu território. O grande quintal de sua casa era uma espécie de depósito, onde guardava as mais velhas tralhas e quinquilharias que conseguiu acumular ao longo dos anos, além de ostentar tantas outras gaiolas enormes que ganhavam vida com dezenas de calopsitas. O velho Hermeto se orgulhava de ter extinguido do seu bairro a raça que atormentava a sua paz. Vez ou outra, quando Hermeto via um gato passeando pelo teto de alguma casa na sua rua, voltava sempre o pensamento para um tempo em que pôs o fim nas sete vidas de oito gatos.


Tudo nesta história é ficção, exceto o que não é!