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Gramáticas: a natureza das regras do sistema da língua e das regras da língua padrão


Tendo em vista ser amplo o conceito de linguagem, uma vez que abarca tanto a humana quanto a animal e tanto a verbal (que tem por base a palavra) quanto a não verbal (gesto, dança, entre outras formas de expressão), torna-se importante ressaltar que a linguística propõe-se a estudar a linguagem verbal humana.

Tal estudo opõe-se aos estudos da gramática tradicional, na medida em que aquela tem por objetivo descrever os mecanismos de funcionamento e uso da língua sem a preocupação de estabelecer um padrão, enquanto esta estabelece padrões e descreve os desvios deles, considerando-os erros. A primeira tem por objetivo descrever e explicar os padrões sonoros, gramaticais e lexicais em uso, sem avaliar esse uso em relação a outro padrão, o que é feito pela segunda.

Ao contrário do que se defende pelo senso comum, a linguística não é uma ciência que se opõe à gramática. Ela é a “ciência mãe”, da qual se originaram outras vertentes, inclusive novos olhares para os estudos relacionados à gramática. A(s) gramática(s) da língua: a normativa, a descritiva e a internalizada.

Passemos, então, a conceituar a gramática, a fim de desmascarar o conceito que se arraigou na sociedade, o qual compartilhamos muitas vezes sem nos darmos conta e tampouco sabermos o porquê.

Para tanto, torna-se necessária a questão: afinal,o que é gramática? Se procurarmos responder a essa questão, chegaremos à resposta de que se trata de um “conjunto de regras”. É com base nesse princípio que Possenti entende a gramática sob três perspectivas: As três definições correspondem, respectivamente, às gramáticas normativa, descritiva e internalizada:

a) conjunto de regras que devem ser seguidas;
b) conjunto de regras que são seguidas;
c) conjunto de regras que o falante da língua domina.

A primeira definição corresponde à visão que normalmente temos da gramática, ou seja, de um conjunto de normas prescritas para o “bem falar e bem escrever” do indivíduo. Nessa perspectiva, a gramática é como uma “receita” que deve ser seguida e jamais questionada e/ou modificada. Aquele que não faz uso dessa gramática fica à margem da sociedade. Por isso, essa gramática é denominada normativa ou prescritiva.

Para exemplificar, se alguém disser “nóis vai lá amanhã”, sob o ponto de vista dessa gramática prescritiva, é considerado um sujeito que não conhece a gramática da língua portuguesa por não seguir o padrão de concordância do verbo “vamos” com o sujeito “nós”. Se fosse visto de outro ponto de vista (como veremos mais à frente), esse indivíduo não ficaria marginalizado, apenas haveria adequação do uso da gramática ao contexto social, tendo em vista a situação comunicativa.

Daí a definição de gramática como algo que “deve ser seguido”, sob esse ponto de vista normativo, prescritivo, em que há o “certo” em oposição ao “errado”.
A segunda definição de gramática diz respeito a um conjunto de regras que são descritas a partir da língua falada por um grupo, isto é, trata-se da preocupação do linguista em identificar e descrever regras que são seguidas pelos falantes no uso efetivo da língua. Portanto, essa noção de gramática está ligada à realidade e, consequentemente, à naturalidade do uso da língua e não à artificialidade imposta pela prescrição de uso dessa língua.

Por exemplo, a gramática normativa (ou prescritiva) do português institui uma forma verbal correspondente a cada pessoa do discurso. Assim, o correto seria “eu amo”, “tu amas”, “ele ama”, “nós amamos”, “vós amais”, “eles amam”. Essa prescrição não admite que os falantes tenham uma variação dessa norma e utilizem as formas “eu amo”, “tu/você ama”, “ele ama”, “nós/a gente ama”, “vocês ama”, “eles ama”. No entanto, no português falado no dia a dia, é o que encontramos.

Os linguistas que se preocupam com a variedade de uso da língua, chamados de sociolinguistas, pesquisaram e identificaram essa “economia” na conjugação dos verbos no português não padrão, em que vemos a redução das seis formas previstas pela norma padrão em apenas duas. Esse fato leva à caracterização dessa língua falada como mais enxuta que a outra. Trata-se de constatação feita a partir de investigações na sociedade, no caso, a brasileira, que utiliza o mesmo código, ou seja, a língua portuguesa. É a análise desse tipo de fenômeno a que se propõe a gramática descritiva.

Há gramáticas que, ao descreverem o sistema linguístico, propõem, ainda, a “forma correta”. Essas gramáticas, além de descritivas, são normativas também. Uma gramática que seja apenas descritiva não tem a pretensão de julgar o “certo” e o “errado”. Aliás, essa noção de erro é de caráter muito mais social que linguístico, uma vez que sua definição tem por base a norma instituída pela classe de prestígio (que é determinada pelo poder econômico).

Seguindo o raciocínio proposto inicialmente, a terceira definição de gramática está relacionada ao conhecimento internalizado que o falante tem da língua. Esse conhecimento está relacionado ao léxico e à organização sintático-semântica dos enunciados, tanto para a produção quanto para a identificação de formas linguisticamente aceitas pelo grupo social.

Exemplificando, se alguém disser “dufens vornasam mo léu”, essa estrutura não será gramaticalmente reconhecida pelo falante, sobretudo em sua organização fonética e semântica. Sintaticamente, até poderíamos dizer que corresponde à ordem SVC de nossa língua, ou seja, que “dufens” é o sujeito, “vornasam”, o verbo e “mo léu” é o complemento. Todavia, se tivéssemos, então, “nuvens formam-se no céu”, esta seria uma oração, digamos, “plenamente” reconhecida do ponto de vista gramatical pelo falante de língua portuguesa.

OUTRAS GRAMÁTICAS
Além dos tipos de gramática apresentados, Travaglia propõe outros três tipos, com base na explicitação da estrutura e do mecanismo de funcionamento da língua.

São eles:

Gramática implícita: a competência linguística internalizada do falante, que é implícita porque este não tem consciência dela. É também denominada gramática inconsciente e, por possibilitar o uso automático da língua — além de estar diretamente relacionada com o que se chama no ensino de gramática e no trabalho escolar com a gramática —, também é chamada de gramática de uso.

Gramática explícita ou teórica: todos os estudos que buscam, por meio de uma atividade metalinguística sobre a língua, explicitar sua estrutura, constituição e funcionamento.

Gramática reflexiva: gramática em explicitação. Trata-se de uma gramática voltada mais ao processo que ao produto do ato linguístico. São atividades de observação e reflexão que buscam constituição e funcionamento da língua. Essa gramática parte das evidências linguísticas para tentar dizer como é a gramática implícita do falante, que é a gramática da língua.

Travaglia relaciona esses tipos de gramática (explícita ou teórica, reflexiva e implícita) à distinção entre atividades linguísticas, atividades epilinguísticas e atividades metalinguísticas.

Travaglia chama a atenção para a existência ainda de outros tipos de gramática, que são definidos tanto por seus objetos de estudo quanto por seus escopos. São elas:

Gramática contrastiva ou transferencial – útil para mostrar diferenças e semelhanças entre as variedades linguísticas, uma vez que descreve e compara duas línguas ao mesmo tempo.

Gramática geral – uma gramática de previsão de possibilidades gerais por comparar o maior número possível de línguas, a fim de reconhecer todos os fatos linguísticos realizáveis, bem como as condições em que se realizarão.

Gramática universal – gramática que investiga as características comuns a todas as línguas do mundo. Nem sempre se distinguem gramática geral e gramática universal.

Veja alguns exemplos de universais linguísticos:
1. todas as línguas têm vogais;
2. todas as línguas têm dupla articulação;
3. todas as línguas têm categorias pronominais envolvendo pelo menos três pessoas e dois números.

Gramática histórica – estuda o desenvolvimento de um idioma, isto é, estuda a origem e a evolução de uma língua por meio do acompanhamento de suas fases desde seu aparecimento até o momento atual.

Gramática comparada – estuda uma sequência de fases evolutivas de várias línguas, a fim de, normalmente, buscar pontos comuns. Foram esses estudos que estabeleceram famílias de línguas e também propiciaram o descobrimento de parentescos entre línguas aparentemente distantes, como o Latim e o Sânscrito.