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Eu vivi o ‘Oracular Spectacular’, do MGMT

O ano de 2007 foi apenas mais um para quem era jovem e estava ansioso para viver. A necessidade incontida de todos nós de se autoafirmar em uma era em que a imagem foi hipervalorizada, a ascensão das redes sociais – especialmente a do Twitter e Facebook – que se impunha, a partir de então, como a mais nova parte integrante do perfil social de cada indivíduo e o início da vida adulta ainda incerta, tendo como trilha sonora de fundo as canções do Oracular Spectacular, do MGMT.

O MGMT fez parte de um novo movimento musical engajado pela originalidade do projeto, que seguia uma direção ainda totalmente desconhecida, ao fundir o rock alternativo com variantes de gêneros como o new wave, marcado, sobretudo, pelo uso de sintetizadores. O Oracular Spectacular traz, nas palavras de Emily Bootle, uma euforia abstrata e nostálgica por coisas que não necessariamente aconteceram com pensamentos muito reais e um sentimento em torno desse negócio de ser jovem, humano e, no fundo, a existência do espaço-tempo.

É notável que o sucesso do Oracular Spectacular se deu em parte por conta do disco manifestar uma noção caricatural do futuro. Basta prestar atenção nas referências frequentes ao rock progressivo e à psicodelia dos anos 1970, que fazem o álbum soar como uma versão vintage e em ficção científica do futuro. Sua sonoridade alterna entre ser futurista de verdade e uma versão anacrônica (ou retrô) do futuro: esta última na forma de guitarras e a primeira com o uso de sintetizadores. Essa pegada retrô fazia parecer que você era o futuro, como se estivesse lendo 1984 ou De Volta para o Futuro. Mas não é um futuro metálico nem distópico — é gostoso como uma hidromassagem e te faz sentir coisas boas, explica Bootle. É como se você caísse de paraquedas sem se ferir no meio da sua própria juventude.



Outro detalhe que ajudou bastante a alavancar a sensação causada pelo Oracular Spectacular é o fato de o disco ter sido lançado em meio à adolescência de muita gente – inclusive da minha. Oracular Spectacular é cheio daquela expressão juvenil que acertou em cheio a galera que chegava à puberdade em meio a seriados como Skins, drogas leves e confusão intensa. O álbum captura o sentimento de uma geração, otimista e aterrorizada, que refletia sobre seu lugar num futuro desconhecido. O disco inteiro engloba essa mistura de euforia, liberdade, depressão e restrições que vem junto com a transição da infância para a maturidade, pontua Bootle.

É bem possível que nós vivemos a aventura de ficar meio bêbados antes da formatura do ensino médio, quando nem sequer existiam filtros do Instagram — mas só o carro de um dos pais de algum dos nossos colegas dispostos a subir o morro para aproveitar a noite, enquanto olhávamos as luzes da cidade do alto, com a distinta sensação de que o tempo estava passando.

De qualquer forma, Kids foi um hino que conferiu um significado único a cada um de nós, e nos fazia sentir como se estivéssemos acabado de subir ao palco de um grande festival de música. Seu refrão cheio de “duh, duh, duh, duh, duuh, duh-duh, duh, duh, duuuuh, duuuuuuuuuuh” era cantado aos berros em qualquer festa — um call to arms diferente de tudo que já tínhamos ouvido. Era algo deliciosamente imaturo. Com sua batida incessante, repetitiva e agressiva, a melodia sintetizada de “Kids” nos levou adolescência adentro e adicionou um toque de rebeldia a toda e qualquer situação — os gritinhos de fundo reproduzindo nossas emoções turbulentas, a faixa toda era um grito contínuo de empolgação e frustração, lembra Bootle.

Não era só Kids que batia forte para os millennials daquela época: a juventude é o tema central do álbum — vazando de tudo que é canto e letra, com o produto final se assemelhando a um borrão de tinta colorida num A4. Kids foi o terceiro e último single do álbum, e também o mais conhecido, capturando toda sua essência jovem e bem-humorada, ainda que intensamente nostálgicas, naquilo que se tornou um dos maiores refrões dos anos 2000. Mas não se trata da mais interessante ou melhor composta faixa de Oracular Spectacular para Emily Bootle.

Na opinião de Bootle, o restante apresenta energia e brilho semelhantes: Time to Pretend, possivelmente a faixa mais poderosa do disco, é uma abordagem sarcástica dos fantásticos sonhos dos jovens e ingênuos — I'll move to Paris, shoot some heroin and fuck with the stars/You man the island and the cocaine and the elegant cars; The Youth surge mais reservada e melancólica; 4th Dimensional Transition é viajandona e empolgante; já Electric Feel tem um andamento bacana e uma melodia quase hesitante que acaba chamando atenção pela sua confiança, antes de quebrar tudo com sua ferocidade. É uma pedrada das mais pedradas, levando o disco perfeitamente até Kids, rumo a uma pegada mais pantanosa de synths psicodélicos.

O emocionado e catártico disco do MGMT — ainda que lhe falte refinamento — saiu em uma época significativa demais para ser esquecido, finca Bootle. E por mais que Oracular Spectacular seja um fruto claro de sua época, trata-se de uma época em que a fusão de eletropop e rock alternativo rendeu demais.

Oracular Spectacular era o tipo de som que ouvi tarde da noite, no repeat, em alguns dos meses mais cruciais da minha vida. Eu também ouvi tentando desenhar o futuro, cantando uníssono e delirante sempre na companhia de pessoas especiais. Era uma época sensível, de muitas emoções. Mas o som eletrônico animado de Oracular Spectactular não destoava destes discos mais emotivos. Ele os complementava, na verdade. Era um olhar para o futuro sem tirar os olhos do passado.

Kids nos lembrava de sermos inconsequentes. O disco representou a juventude da época de minha juventude e sempre será importante pra mim e para minha geração, mas trata-se de um disco que sempre será capaz de representar outra época ou mesmo outra dimensão. É um disco sobre deixar rolar, mergulhando de cabeça em uma experiência – seja ela hoje ou há dez anos, na sua juventude ou no seu futuro, conclui Bootle.