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Conceitos de texto e contexto – a intertextualidade como meio de produção textual


Imagine a disposição das letras M H no teclado do computador e na atividade de alfabetização de uma criança e o alinhamento das letras M H cada uma delas em uma porta no interior do restaurante. Dadas as ocorrências, em qual delas nós temos uma situação verdadeira de comunicação? Com certeza, você precisou apenas de um segundo para responder que a segunda situação forma um contexto comunicativo.

Afinal, qualquer brasileiro (ou conhecedor da nossa cultura) identificará as letras alinhadas em portas distintas em um restaurante como indicadoras de banheiros, respectivamente, (M) para mulheres e (H) para homens. Temos, portanto, uma situação comunicativa, cujo sentido depende do contexto específico e da interação entre os interlocutores; no caso, o dono do restaurante que escolheu tal forma para indicar o banheiro e o cliente do restaurante, usuário do banheiro. Podemos considerar, então, que as letras M e H formam um texto.

Enfim, podemos concluir que texto constitui-se de uma letra, uma frase ou conjunto de período. O texto não precisa ser grande e pode ter qualquer extensão, desde que seja um todo unificado e cumpra uma função comunicativa. Em situação de comunicação, o que falamos, ouvimos, escrevemos e lemos são sempre textos.

Assim, o texto é expressão. Além disso, porque em cada situação comunicativa nós temos um propósito, o texto exerce uma função, isto é, tem uma serventia. A notícia serve para informar um fato recente e relevante à sociedade; um recado, para lembrar ou pedir algo combinado; uma receita culinária, para orientar; e assim por diante.

O absolutamente evidente é que falamos sempre em um lugar, onde acontece determinado evento social, e com a finalidade de, intervindo na condução desse evento, executar qualquer ato de linguagem: expor, defender ou refutar um ponto de vista, fazer um comentário, dar uma justificativa, uma ordem, fazer o relato de um fato, convencer, expressar um sentimento, apresentar um plano, uma pessoa, um lugar, fazer uma proposta, ressaltar as qualidades de um produto, pedir ou oferecer ajuda, fazer um desabafo, defender-se, protestar, reivindicar, dar um parecer, sintetizar uma ideia, expor uma teoria; enfim, fazemos o dia todo e todos os dias, inúmeras ações de linguagem, cada uma, parte constitutiva de uma situação social qualquer.

Todo texto é instituído de intenção, uma vez que recorremos a ele com um objetivo específico. Produzimos – fala, escrita – com a intenção de fazer algo e o sucesso da comunicação está na identificação dessa intenção por parte do interlocutor (o outro, com quem falamos ou para quem escrevemos). No percurso da interação – entre nós e o outro – damos instrução necessária para que o outro faça, com eficácia, essa identificação. Consequentemente, todo texto é expressão de atividade social e comunicativa, não existindo fora das inter-relações pessoais. Qualquer texto está ancorado em um contexto social concreto.

O texto, como expressão de uma atividade social de comunicação, envolve um parceiro, um interlocutor, porque construímos nossa expressão com o outro, a dois. Esforçamo-nos, sem ter muita consciência disso, para o texto ser relevante, supondo ser da necessidade, do interesse ou do gosto do outro. Na concepção de Antunes, o texto é construído como uma resposta ao que supomos ser a pergunta do outro.

A estudiosa brasileira Koch, em sua obra sobre texto, defende a posição de que:

a) produção textual é uma atividade verbal, a serviço de fins sociais e, portanto, inserida em contextos mais complexos de atividade;

b) trata-se de uma atividade consciente, criativa, que compreende o desenvolvimento de estratégias concretas de ação e a escolha de meios adequados à realização dos objetivos; isto é, trata-se de uma atividade intencional que o falante, de conformidade com as condições sob as quais o texto é produzido, empreende, tentando dar a entender seus propósitos ao destinatário através da manifestação verbal;

c) é uma atividade interacional, visto que os interactantes, de maneiras diversas, se acham envolvidos na atividade de produção textual.

Outro aspecto importante sobre o texto é o tema, ou seja, o núcleo semântico, que dá ao texto continuidade e unidade. O texto não é um conjunto aleatório de palavras ou de frases; ao contrário, é composto de sentenças interconectadas. O texto depende, também, de situações fora da língua, como o contexto, o objetivo do produtor, do interlocutor etc.

Podemos dizer que o texto se constrói com base em uma interação comunicativa, diante de uma manifestação linguística, pela atuação conjunta de uma rede de fatores de ordem situacional, sociocultural e interacional, capazes de construir determinado sentido. Desse modo, o sentido não está no texto, mas se constrói a partir dele. É possível dizer que o sentido é encontrado no contexto.

Conforme Roncarati “o sentido é uma construção sociointeracional, pois só surge após colaboração entre leitor e texto”. Partindo do pressuposto de que um texto não é uma mera soma de frases, o que o diferencia de um não texto é a sua textualidade, que se manifesta em diferentes graus. Os sete fatores de textualidade são:

1. a coesão: a relação de encadeamento de partes e de unidades;
2. a coerência: o sentido atribuído por um interlocutor;
3. a intencionalidade: o que o autor quer do leitor;
4. a aceitabilidade: o que o leitor espera;
5. a informatividade: os dados novos;
6. a situacionalidade: os atores e o lugar da comunicação e
7. a intertextualidade: a referência a outros textos.

Enquanto a coesão e a coerência formam os fatores linguísticos da textualidade, a intencionalidade, a aceitabilidade, a informatividade, a situacionalidade e a intertextualidade formam os fatores pragmáticos.

A organização interna do texto envolve dois fatores: a coerência no aspecto semântico; e a coesão, no aspecto formal. A coesão faz referência às ligações que se estabelecem entre os elementos da superfície textual: organização das frases, períodos e parágrafos do texto, tendo influência na organização das ideias.

Coesão é o processo de encadeamento das ideias no texto, por meio de elementos gramaticais (conectivos) que estabelecem esse nexo entre as ideias. Diferente do processo de coerência, a coesão dispõe de marcas linguísticas de referência, substituição, repetição etc.

Platão e Fiorin (2001) apresentam uma classificação dos mecanismos de coesão segundo a função dos conectivos envolvidos. Retomada de termos ou antecipação e encadeamento de segmentos no texto são os mecanismos utilizados quando é necessário retomar algo que já foi dito.

Os termos que retomam o dito se chamam anafóricos. Por exemplo: As crianças são o espelho de uma educação. Elas nos oferecem os parâmetros para uma reflexão social. O pronome pessoal “elas” é um anafórico, pois retoma crianças.

Os termos catafóricos antecipam ou anunciam um fato ainda por ser apresentado. Por exemplo: O professor disse isto: vale a pena pesquisar os estudos da linguística textual. O pronome demonstrativo “isto” anuncia a informação seguinte.

O encadeamento de segmentos textuais é feito por conectivos responsáveis pelas relações lógicas de causa, finalidade, conclusão, contradição, condição etc. As conjunções ou locuções conjuntivas estabelecem essas relações. Veja um exemplo para uma delas: A crise econômica é uma realidade, mas a economia do Brasil continua aquecida. A conjunção “mas” estabelece uma relação lógica de contradição entre as ideias apresentadas no enunciado, uma vez que a crise, pressupostamente, deveria mexer com a economia do país.

Quanto ao processo de desenvolvimento de um texto, os conectivos determinam os seguintes processos lógicos:

1. gradação: é marcada por uma direção dos argumentos para uma determinada conclusão. O argumento mais forte será enfatizado por conectivos do tipo: até mesmo, inclusive, no mínimo etc. Por exemplo: Todos os brasileiros estão preocupados com a crise econômica, inclusive os jovens que ainda aguardam uma oportunidade de emprego;

2. conjunção argumentativa: determina uma relação lógica em que os conectivos devem ligar argumentos em favor de uma mesma conclusão. Utilizam-se conectivos do tipo e, também, ainda, mas também, além disso etc. Por exemplo: Uma série de questionamentos fazem parte das discussões sobre a política de preservação do meio ambiente em nosso país. Muito se discute, mas pouco se propõe. Além disso, é repugnante observar como alguns governantes enriquecem por conta do desmatamento na Amazônia;

3. disjunção argumentativa: determina uma relação lógica em que os conectivos enfatizam conclusões opostas. Utilizam-se conectivos como ou, ou então, caso contrário etc. Por exemplo: É preciso reconhecer a urgência de uma política para a preservação do meio ambiente, caso contrário, problemas como o desmatamento se agravarão;

4. conclusão: estabelecida entre dois enunciados. Utilizam-se conectivos do tipo logo, portanto, pois etc. Por exemplo: O meio ambiente é uma questão mundial, portanto é imprescindível que o país tenha uma política para a sua preservação;

5. explicação ou justificativa sobre a informação anunciada: utilizam-se conectivos como porque, já que, pois etc. Por exemplo: A preservação do meio ambiente é condição para a sobrevida das próximas gerações, porque garantirá o uso de elementos de primeira necessidade como a água;

6. contrajunção: é a relação lógica marcada pela contraposição entre as ideias. Utilizam-se conectivos do tipo mas, porém, entretanto etc. Por exemplo: A sociedade se preocupa com a preservação do meio ambiente, porém ainda é minoria os que se educam para a preservação;

7. argumento decisivo: é apresentado para indicar um acréscimo de informação para enfatizar um argumento contrário. Utilizam-se conectivos como aliás, além do mais, além de tudo etc. Por exemplo: São tantos os discursos vazios sobre a preservação do meio ambiente. Além do mais, em quais políticos a sociedade pode confiar diante dos escândalos que os envolvem?

8. generalização ou ampliação da informação: utilizam-se conectivos do tipo de fato, realmente, aliás etc. Por exemplo: A sociedade pede providências políticas para a preservação do meio ambiente; de fato a urgência se justifica pela qualidade de vida que está totalmente comprometida.

A coerência relaciona-se ao sentido do texto. Manifesta-se na construção de sentido da unidade textual e implica uma continuidade de sentidos entre as ideias presentes no texto. A partir dos estudos recentes de Koch e Travaglia, a coerência é entendida como o estabelecimento do sentido no texto, construído pelas relações semânticas e pragmáticas entre os elementos de um enunciado linguístico.

Ao se escolher um tema, é necessário encadear as informações, de maneira que não haja contradição entre tema e informação. O sujeito que produz o texto precisa garantir ao seu leitor ou receptor essa lógica. Há um contrato de entendimento entre quem elabora e quem lê o texto para que haja interpretabilidade. Portanto, a coerência é construída pelo leitor, à medida que o texto faz sentido para ele.

Segundo Dubois, o aspecto pragmático da linguagem diz respeito às características de sua utilização: motivação do falante, reações do interlocutor, registros de fala (formal ou informal) etc. Platão e Fiorin apresentam diferentes níveis de coerência:

Coerência narrativa é a que ocorre quando se respeitam as implicações lógicas existentes entre as partes da narrativa. Assim, por exemplo, para que uma personagem realize uma ação, é preciso que ela tenha capacidade, ou seja, saiba e possa fazê-la.

Isso quer dizer que a realização de uma ação pressupõe um poder e um saber, na narrativa; o que é posterior depende do que é anterior. Constitui, portanto,
incoerência narrativa relatar uma ação realizada por um sujeito que não tem condições de executá-la.

Veja-se, por exemplo, esse texto de uma redação de vestibular:

“Lá dentro havia uma fumaça espessa que não deixava que víssemos ninguém.
Meu colega foi à cozinha, deixando-me sozinho. Fiquei encostado na parede da sala, observando as pessoas que lá estavam. Na festa, havia pessoas de todos os tipos: ruivas, brancas, pretas, amarelas, altas, baixas etc.”.

Nesse caso, há uma incoerência, pois a personagem não podia ver e viu.

Coerência argumentativa diz respeito às relações de implicação ou adequação que se estabelecem entre certos pressupostos ou afirmações explícitas, colocadas no texto e as conclusões que se tira deles.

Se, por exemplo, o texto disser que o descontrole orçamentário é a causa da inflação e que esta é o problema mais grave do país, será contraditório se concluir que o governo deve aumentar os gastos públicos para aquecer a economia. Coerência figurativa diz respeito à combinatória de figuras para manifestar um dado tema ou à compatibilidade de figuras entre si. Na frase “Os peixes durante a gravidez ficam agressivos”, há uma
incompatibilidade flagrante entre as figuras peixe e gravidez.

Coerência temporal é aquela que respeita as leis da sucessividade dos eventos ou apresenta uma compatibilidade entre os enunciados do texto, do ponto de vista da localização no tempo. O período “Maria pôs o arroz no fogo, depois o escolheu” é incoerente, pois subverte a sucessividade dos eventos do processo de preparo do arroz: primeiro, escolher; depois, pôr no fogo.

Coerência espacial diz respeito à compatibilidade entre os enunciados do ponto de vista da localização no espaço. Seria incoerente dizer Embaixo do único lustre, colocado bem nomeio do teto, um grupo de pessoas conversava animadamente. Quando ela entrou, todos pararam de falar e olharam para ela. Ela não se importou e foi também postar-se embaixo do lustre num dos cantos do salão, pois, se o único lustre era o meio do salão, não poderia ser num dos cantos.

Coerência no nível da linguagem é a compatibilidade, do ponto de vista da variante linguística escolhida, no nível do léxico e das estruturas sintáticas utilizados no texto: é incoerente colocar expressões chulas ou da linguagem informal em um texto caracterizado pela norma culta.

Atribuir um conceito de verdade aos fatos é uma questão de coerência, porém, é imprescindível considerar que a verdade só pode ser avaliada no discurso. Por exemplo, o que garantirá o sucesso da arguição de um advogado, ao apresentar a defesa para o delito de um suposto cliente, é a relação de compatibilidade e não contradição dos argumentos; os recursos retóricos garantem uma “verdade” no contexto desse discurso: o cliente pode ter cometido o delito, mas será absolvido pelo poder de persuasão de seu advogado. A coerência que se estabelece pela compatibilidade, adequação e não contradição é intratextual.

Há também situações em que o estabelecimento de uma “verdade” implica adequação do texto com fatos exteriores a ele: dados retirados da cultura de uma sociedade, informações científicas etc. O processo é de coerência extratextual.

A organização e inter-relação de ideias envolvem também aspectos externos ao texto.

Tais aspectos afetam a produção e a recepção de textos e são eles:

Intencionalidade: concerne ao empenho do produtor em construir um texto coerente, coeso e capaz de satisfazer os objetivos que tem em mente numa determinada situação comunicativa. A meta pode ser informar, impressionar, alarmar, convencer, persuadir, ou defender etc., e é ela que vai orientar a confecção do texto.

Aceitabilidade: o outro lado da moeda da intencionalidade (que envolve o produtor) é a aceitabilidade, que diz respeito à expectativa do recebedor do texto. O leitor espera que o conjunto de ocorrências com que se defronta seja um texto coerente, coeso, útil e relevante, capaz de levá-lo a adquirir conhecimentos ou a cooperar com objetivos do produtor.

Situacionalidade: refere-se ao lugar e ao momento da comunicação. Todos os dados situacionais interferem na produção e recepção do texto; diz respeito aos elementos responsáveis pela pertinência e relevância do texto quanto ao contexto em que ocorre. É a adequação do texto à situação sociocomunicativa.

Intertextualidade: é o diálogo entre textos para aumentar o poder de argumentação. Inúmeros textos só fazem sentido quando entendidos em relação a outros textos, que funcionam como contexto.

Informatividade: refere-se ao grau de previsibilidade (expectativa) da informação presente no texto. É importante para o produtor saber com que conhecimentos do recebedor ele pode contar e que, portanto, não precisa explicitar no seu texto. Esses conhecimentos podem advir do contexto imediato ou podem preexistir ao ato comunicativo. O interesse do leitor/ouvinte pelo texto vai depender do grau de informatividade de que é portador. Esse fator de textualidade trata da medida na qual as ocorrências de um texto são esperadas ou não, conhecidas ou não, no plano conceitual e no formal.

Os fatores de textualidade manifestam-se no texto da seguinte forma:

Coerência: o texto tem unidade de sentido e se desenvolve em torno de um mesmo tema: a publicidade na TV, delimitado por uma perspectiva, a de que a publicidade apela para os efeitos mágicos dos produtos que apresenta. O título aponta para esse tema e o início do texto sintetiza o tema. A perspectiva de que a publicidade é criadora de sonhos utópicos continua na apresentação detalhada de alguns objetos em que esse poder mágico pode acontecer: o chiclete, o adoçante, o guaraná. Os efeitos que provocam no consumidor são: transportar, pela levitação, para esferas cósmicas; fazer surgir do nada; provocar visões.

Tal encanto não está nos produtos, mas na relação imaginária que a publicidade fabrica entre a mercadoria e seu consumidor. O consumidor, apesar de não levar os comerciais “ao pé da letra”, compra satisfeito a alucinação. O tema, enfim, perpassa todo o texto, mantendo a coerência.

Coesão: entre outros usos da língua, encontramos no texto:

a) simultaneidade temporal entre o que o consumidor imagina e o que a publicidade faz em relação a isso: “Enquanto o consumidor imagina que é um ser racional, dotado de juízo e de bom senso, a publicidade na TV abandona progressivamente essa ilusão”.

b) equivalência nas relações entre as palavras imaginar e iludir-se: “o consumidor imagina que é um ser racional” e “a TV abandona essa ilusão”.

c) a pergunta retórica “Seria o tal refrigerante uma versão comercial das beberagens do Santo Daime?”, feita com propósito de interessar o leitor, sem esperar obter, portanto, resposta, que, na verdade, já é sabida.

d) uso de linguagem contundente, cheia de certeza: “É claro que ninguém há de acreditar. Ninguém leva”.

e) uso da gíria “é a maior viagem, bicho”, que revela que o autor conhece a questão do mundo alucinógeno.

Situacionalidade: o texto aborda uma questão do mundo real, do cotidiano das pessoas, expostas aos muitos apelos do consumo de mercadorias. Insere-se no domínio do jornalismo formador de opinião, cujo objetivo é deixar os leitores mais críticos e conscientes frente a determinadas questões da vida. Os leitores previstos são os leitores da revista, identificados como pertencentes, em geral, a uma classe, no mínimo, medianamente letrada e crítica.

Essa condição dos possíveis leitores e a própria exigência discursiva da revista levam o texto a ter certo nível de formalidade, fora da oralidade cotidiana (coloquial), e com abordagem do problema mais elaborada, com seleção vocabular mais especializada e distante do comum.

Intencionalidade: pode ser relacionada ao propósito da comunicação. O texto tem claramente o objetivo de esclarecer e de advertir ao leitor consumidor em relação à cilada dos anúncios publicitários, que atribuem ao produto anunciado poderes mágicos e alucinantes. O autor reforça essa pretensão de advertência quando explicita que, pelo viés alucinógeno, a publicidade deixa de lado sua função cívica, que é “a de informar o comprador para que ele exerça o seu direito de escolha consciente na hora da compra”, prometendo “o transe, a felicidade etérea, irreal e imaterial, que nada tem a ver com as propriedades físicas (ou químicas) do produto”.

Informatividade: o autor não foge de ideias óbvias e utiliza metaforicamente o universo dos alucinógenos para caracterizar como a publicidade apresenta os produtos; a publicidade oferece “o transe, a felicidade etérea, irreal e imaterial”. A novidade maior do texto está em diminuir o poder da publicidade: atenuar o “gozo alucinado” atribuído socialmente à publicidade; e em tirar do foco seus poderes mágicos e encantatórios. O leitor (também consumidor) precisa ser informado para fazer escolhas (compras) de forma consciente.

Intertextualidade: no âmbito da intertextualidade ampla, o texto está conforme as regularidades dos textos opinativos. Além disso, todo o conhecimento pressuposto ou implícito faz parte do nosso repertório de saberes, resultantes de nossas experiências anteriores. Por exemplo, o autor supõe que podemos entender por que o “guaraná em lata provoca visões amazônicas” ou quais são os “portais eletrônicos do imenso festim psicodélico”. Ou seja, já conhecemos muito do que é dito no texto, implicando a inevitável condição de intertextualidade da linguagem.

No âmbito da intertextualidade restrita, destacamos a referência feita ao refrigerante, como “uma versão comercial das beberagens do Santo Daime”, ou seja, há referência a outro texto, no caso, um anúncio publicitário do chá Santo Daime, considerado alucinógeno.

Aceitabilidade: devido ao conhecimento do leitor sobre a revista, o tipo de leitor dela, a função comunicativa de um artigo de opinião, o leitor espera um ponto de vista sobre uma questão controvertida, argumentos consistentes, percurso e unidade temática. Enfim, o leitor prepara-se para aceitar o texto, considerando seu conhecimento sobre a língua, o tema, o tipo de texto, a interação.

A construção e a compreensão do sentido do texto resultam de vários sistemas de conhecimento, tratados no próximo tópico. No momento, para apresentação, os quatro grandes conjuntos de conhecimentos:

a) conhecimento linguístico, que abrange o léxico e a gramática;

b) conhecimento de mundo (ou enciclopédico), que inclui os protótipos, esquemas, ou os modelos de eventos e episódios em vigor nos grupos a que pertencemos;

c) conhecimento de modelos globais de texto, que inclui as regularidades de construção dos tipos e gêneros;

d) conhecimento sociointeracional, que trata do saber acerca da realização social das ações verbais ou de como as pessoas devem se comportar para interagir em diferentes situações sociais.

Intertextualidade implícita
Entendemos por intertextualidade implícita aquela que recorre ao sentido figurado, em um texto, não permitindo que o leitor depreenda seu sentido de imediato. Ela ocorre quando introduzimos, no próprio texto, intertexto alheio, sem qualquer menção explícita da fonte, com o objetivo quer de seguir-lhe a orientação argumentativa, quer de contrariá-lo, colocá-lo em questão, de ridicularizá-lo ou argumentar em sentido contrário. Ocorre também intertextualidade das semelhanças, que é identificada pela presença de paráfrases e conhecida também por captação.

A intertextualidade das diferenças é chamada também de subversão, que consiste em enunciados irônicos ou parodísticos. Nesse sentido, é esperado que o leitor conheça o texto fonte para poder entender o texto atual, pois quando não há reconhecimento do texto original na memória discursiva, perde-se o sentido da intertextualidade no texto atual. Os intertextos mais fáceis de serem reconhecidos são os que usam ditos populares, músicas populares, provérbios, pois fazem partes da cultura popular.

Já nos textos literários, jornalísticos, publicitários, políticos, bordões de programas humorísticos e outros, “o reconhecimento do intertexto é menos garantido, visto que depende da amplitude dos conhecimentos que o interlocutor tem representado em sua memória”, afirma Koch, Bentes e Cavalcante.

A não depreensão do texto fonte, nesses casos, empobrece a leitura ou praticamente impossibilita a construção de sentidos intencionados pelo produtor do texto. Os exemplos mais frequentes de intertextualidade, tanto explícita quanto implícita, citados, é a Canção do exílio, do autor Gonçalves Dias, que tem servido de intertexto a uma série de outros textos (Casimiro de Abreu, Murilo Mendes, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade).

Intertextualidade genérica
A intertextualidade intergenérica ou híbrida é definida como gênero que exerce a função de outro. Revela a capacidade de operação e maleabilidade que dá aos gêneros enorme capacidade de adaptação e ausência de rigidez. Como modelo cognitivo de contexto que contém parâmetros relevantes da interação comunicativa e do contexto social: É bastante comum, todavia, que, no lugar próprio de determinada prática
social ou cena enunciativa se apresente(m) gênero(s) pertencentes a outras molduras comunicativas, evidentemente com o objetivo de produzir determinados efeitos de sentido. Para tanto, o produtor do texto conta com o conhecimento prévio dos seus ouvintes/leitores a respeito dos gêneros em questão, pontua Koch, Bentes e Cavalcante.

As estratégias de manipulação da intertextualidade intergenérica ocorrem pela seleção e troca de palavras que compõem a estrutura de um dado texto; para tanto, os recursos de formatação genérica desenvolvem um conjunto de expectativas em relação ao conteúdo da narrativa e em relação a sua forma. Essa concepção de intertextualidade intergenérica mostra o fenômeno da intertextualidade não apenas em suas características estruturais ou estilísticas, mas, sobretudo, é revelado como um elemento primordial para o encadeamento da leitura. Partindo dessa premissa, entende-se que os sentidos expostos na superfície textual só serão, de fato, compreendidos, se os interlocutores tiverem previamente armazenados em sua memória discursiva o conhecimento dos textos originais.

As relações intertextuais existem para dar unidade aos textos, para estabelecer seus limites e, também, para mostrar como esses textos estão ordenados. A intertextualidade genérica, na verdade, nos mostra como os textos se constituem de modo heterogêneo, como são abertos e dinâmicos, passíveis de modificações sempre.

Intertextualidade tipológica
A intertextualidade lato sensu determina, assim como a intertextualidade stricto sensu, o grau de explicitação e a natureza do intertexto utilizado na composição textual. O leitor deve compreender que os gêneros são formados por sequências diferenciadas denominadas tipos textuais, considerando que a noção de gênero não se confunde com a noção de tipo. Partindo dessa premissa, uma narrativa ou uma descrição diferem uma da outra e também de outras narrativas e outras descrições. As sequências reconhecidas como descritivas, por exemplo, compartilham um certo número de características do conjunto – uma sensação familiar que incita o leitor a reconhecê-las como sequências descritivas mais ou menos típicas, mais ou menos canônicas.

Ademais, verifica-se teoricamente que os tipos são agrupados como narrativos, descritivos, argumentativos, expositivos ou injuntivos; dessa maneira, é enfatizado que os gêneros textuais são constituídos por dois ou mais tipos. Portanto, a presença de vários tipos textuais em um dado gênero é denominada de heterogeneidade tipológica.

A intertextualidade lato sensu, entretanto, não é vista de forma tão aparente, pois é preciso que haja uma remissão discursiva a outras vozes textuais, ainda que de forma indireta para que ela ocorra. Dessa forma, esse tipo de intertextualidade (tipológica) irá configurar-se a partir da noção de intertexto como componente textual natural. Para que esse intertexto seja evidenciado pelos interlocutores torna-se, portanto, necessário um desempenho discursivo maior, uma vez que, à relação intertextual não subjaz uma remissão a textos que fazem parte da memória cognitiva cultural e socialmente partilhada.


A intertextualidade lato sensu apresenta fragmentos textuais de diferentes naturezas de uma forma bem menos evidenciável. Intertextualidade tipológica decorre do fato de se poder depreender, entre tipos textuais – narrativas, descritivas, expositivas etc. – um conjunto de características comuns, em termos de estruturação, seleção lexical, uso de tempos verbais, advérbios (de tempo, lugar, modo etc.) e outros elementos que permitem reconhecê-las como pertencentes à determinada classe.