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As consternações trazidas pelo grande creme e azul

TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 2012

Meu corpo estava suspenso pelo resto de energia acumulada de uma noite bem sucedida. Meus dedos congelados acompanhavam meu rosto pálido, que denunciava a baixa temperatura dominante numa cidade onde o tempo costumeiramente muda sem previsões. O gorro do casaco cobria, junto ao cabelo, meus olhos que ardiam por causa da forte corrente de ar frio. Naquele instante, desejava que os minutos se transformassem em segundos e o grande creme com azul cruzasse logo o meu caminho.

...alguns pedidos estranhamente são atendidos de forma misteriosa.

Deveria ser o momento em que meu corpo agradeceria por meio de sinais emitidos pelo cérebro por ter encontrado um lugar que me protegesse do frio exaustivo que fazia lá fora. Mas esta cena não aconteceu. Meu corpo tombou numa das penúltimas bancadas do ônibus pelo cansaço seguido de uma reação desconfortável sentida pelas minhas narinas: o ambiente estava completamente infestado de um odor aterrorizante de urina. A impressão que eu tive era de que todo o carro estava imundo e, talvez, não passasse de uma mera impressão.

As poltronas fediam a mofo, no entanto, não havia outra escolha: era uma via de mão única. Nenhuma outra companhia, senão a Novo Horizonte, se atrevia a se aventurar pelas estradas do interior baiano. A imagem da velha e histórica [pelo menos na vida de muitos brasileiros] companhia rodoviária estava associada a uma verdadeira odisseia preenchida de sofrimento, lamúrias e consternações.

Depois do tempo perdido estacionado, o ônibus decidiu seguir viagem e eu consegui adormecer graças ao balanço, frio e exaustão. Mas não por muito tempo, já que uma mão acompanhada de uma voz seca me tirara do encontro com meu inconsciente. Era o cobrador a serviço da companhia; eu tinha que provar que estava de posse de um bilhete. No instante, só tive disposição para pensar como o setor de marketing daquela empresa era inexistente ou, em última instância, ineficiente.

O sol atravessava a janela quando meus olhos abriram e eu pude perceber que algumas cidades já haviam passado por mim despercebidas. Eu estava em Brumado e o ônibus se encontrava quase vazio. A experiência de tantas outras viagens aliada ao instinto me dizia que eu deveria averiguar o que estava acontecendo, e qual era a causa da evacuação. Descobri o seguinte, por algum motivo não divulgado, todos os passageiros teriam que trocar de carro. O processo de baldeação pode ser comparado ao purgatório quando se tem em vista uma viagem com a grande creme e azul.

Sem nenhum aviso, explicação ou a mínima satisfação, todos os passageiros que seguiriam viagem aguardaram apaticamente em pé, junto ao montante de malas, outro ônibus que deveria chegar a qualquer momento nos próximos 30 minutos. Finalmente o gigante empoeirado chegou para trazer, ironicamente, alegria a alguns rostos consternados pelo tirocínio.

Abafado, o calor que fazia era o mais notável contraste da temperatura do começo do dia. Sem ar condicionado, o vento quente em nosso rosto criava um cenário hollywoodiano. Cabelos esvoaçantes e o espírito aventureiro era o escopo do roteiro de um filme não fictício. Até chegar meu destino final, a cidade de Jussiape, onde desembarcaria, eu poderia anotar as constantes falhas no serviço para enviar à empresa (mas como?) ou simplesmente usar como tema de debate na minha pós-graduação de comunicação e marketing empresarial.

A prestação de serviço são atividades nas quais os clientes interagem com funcionários, equipamentos, instalações e procedimentos da empresa prestadora. Portanto, o sucesso da companhia que disponibilizar quaisquer serviços no mercado dependerá de resultados que garantam a satisfação dos consumidores. A tradicional companhia rodoviária Novo Horizonte, talvez, mantenha seus serviços atrelados à insatisfação pela inexistência de concorrência. E com isso quem sempre sai perdendo é o consumidor, que muitas vezes nem possui consciência dos seus próprios direitos.

Até o fim da viagem, a realidade se embaralhava com pensamentos submergidos do meu inconsciente, em um revezamento inconstante, e o meu cansaço, por mais inacreditável que possa parecer, dispersou um pouco naquelas poltronas imundas e pegajosas. Quando, finalmente, coloquei meus pés fora do ônibus, um alívio se abateu sobre o meu corpo e o meu pulmão foi invadido por ar puro, pondo fim a um aterrorizante pesadelo mercadológico.