Header Ads

LightBlog

A tenda dos milagres

Foto: Will Assunção/JUP

Em 2013, a Praça 9 de Julho, em Jussiape, na região da Chapada Diamantina (BA), se tornou palco de um evento promovido por pastores evangélicos que prometiam a cura de enfermidades para as quais a ciência ainda não havia encontrado respostas satisfatórias – como a AIDS – além de propagandear sessões de exorcismo, realizadas por pastores que, segundo o anúncio, possuíam o dom divino de expulsar os mais temidos demônios.

Uma tenda de lona – que lembrava a de um circo – foi armada no meio da praça, onde se reuniam diariamente aproximadamente 300 pessoas, atraídas pela promessa do “impossível”. Evangélicos de diversas igrejas da cidade e região e curiosos movidos pelo sensacionalismo do espetáculo se encontravam para presenciar “manifestações milagrosas”, que iam muito além de simples exorcismos, mas contavam com sucessórios e inacreditáveis episódios em que o que atraía o público era, principalmente, a ejeção de objetos estranhos – parafusos, agulhas e pregos – dos corpos dos fiéis e expostos ao público. O ato era celebrado como milagre ao vivo.

Até o fim do evento religioso, que pedia a colaboração em dinheiro ou em doações de insumos materiais aos frequentadores, pastores e pregadores, além de cantores de música gospel, se apresentavam diante dos fiéis com a promessa categórica de que a vida de quem se “entregasse a Jesus” iria mudar drasticamente.

Foto: Will Assunção/JUP

Durante várias noites dos meses de fevereiro e março, os convidados acompanharam depoimentos e pregações de passagens vividas por “homens santos” que, de acordo os responsáveis pelo recolhimento das doações, teriam recebido do próprio Deus o dom de realizar ações que iam além do entendimento humano. “Eu vi duas pessoas portadores do vírus HIV, mãe e filho, se curarem”, disse um dos pastores sob a tenda.

Houve também quem correu sobre um tapete após realizar uma cirurgia de risco na coluna e, influenciada pelo temor dos pregadores, se considerou curada. Histórias de pessoas que pararam de tomar remédio ou que, naquele instante, obtiveram o diagnóstico de cura, em nome da fé, não faltaram.

Até lideres políticos e autoridades municipais participaram do encontro de pregadores. Gilberto Freitas, à época, prefeito de Jussiape, e sua esposa Eliene Aguiar, também à época, secretária municipal, subiram, acompanhado de vereadores, a um palco improvisado, que ficou montado em frente ao prédio da Prefeitura Municipal. Por sua vez, antes de se despedirem da cidade, os organizadores do evento prometeram livrar a cidade do Mal que havia pairado sobre a população de Jussiape.