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A escuta secreta muito antes de Snowden

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 2013

Foto: Will Assunção/JUP

No início era apenas um rádio. O ano era 2003 e, embora não houvesse um consenso sobre o que estava ocorrendo naquele momento, a coisa acontecia. Pessoas escutavam conversas de telefone em Jussiape através de rádios sintonizados em alguma estação que cruzava o sinal com a rede telefônica e oferecia ao ouvinte um banquete secreto. Este era o motivo para as tevês serem desligadas e o silêncio, quase que absoluto, ser instaurado pelas casas cidade afora. Até onde a gente sabe, o ex-agente da CIA, Edward Snowden, que recebeu asilo político da Rússia e entrou para a lista reduzida ao prêmio de direitos humanos Sakharov, oferecido anualmente pelo Parlamento Europeu, na categoria Liberdade de Pensamento, não tem absolutamente nada a ver com o que assombrava os que padeciam de algum arremate no município baiano de Jussiape, na Chapada Diamantina, no estado da Bahia.

Mesmo repassando ao repórter Glenn Greenwald, do jornal The Guardian, cópias de arquivos sigilosos da CIA e da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos [NSA], ele não é o foco desta reportagem. Apesar de o tema abordado aqui ser de natureza siamesa, já que o corajoso agente revelou como a Inteligência norte-americana monitora cidadãos e governantes de vários países, incluindo o Brasil. No nosso caso, quem monitorava os cidadãos jussiapenses era a própria população.

Regado a confidências, queixas e muitas risadas, acredita-se que a falha na telecomunicação tenha sido apenas temporária, durando pouco mais de um ano e meio. Nesse tempo, mais de 137 conversas foram ouvidas, 37 foram gravadas e outras 14 transcritas. Todas elas colhidas em um simples aparelho de rádio adquirido em uma quitanda da cidade.

O Snowden jussiapense pediu para que sua verdadeira identidade não fosse divulgada, conservando seu anonimato e instaurando duvidas torturantes em leitores que queiram descobrir quem sempre esteve por detrás da espionagem ladina. Ouvia-se de tudo, disse o espião radiofônico. Houve relatos de casos amorosos envolvendo figuras da cidade, que marcavam encontros ao som de sussurros erotizados. E até romances extraconjugais. Pular a cerca sempre foi um costume preservado em Jussiape. Brigas entre namorados eram muito comuns, palavrões e tantos outros xingamentos reinavam nos diálogos grampeados.

Na época, procurou saber o que estava sobrevindo das redes da região, mas o retorno sempre foi o de respostas evasivas e até confirmações de que isso era praticamente impossível de acontecer. “Deve ter acontecido uma ou outra vez, mas não tem como acontecer repetitivamente”, era a resposta recebida por um dos ouvintes que levou a mixórdia tecnológica como passatempo.

Os protagonistas dos colóquios foram reservados, se bem que havia muita conversa fiada que servia de base para a gente saber que havia muita gente apegada ao telefone e que não tinha o que fazer, lembra o jussiapense que dedicava tardes inteiras ao seu novo ofício. Gente que não desgrudava do telefone e apenas sabia fofocar para os parentes de fora, especialmente para os de São Paulo, como havia se registrado nos últimos dias na pacata Jussiape.

A prática de bisbilhotar a conversa alheia se tornou tão popular entre a população que muitos jovens da cidade se reuniam apenas para saber qual era a mais nova entre seus amigos que tinham ouvido o último diálogo captado do aparelho telefônico. Logo depois, as pessoas do outro lado, as que eram vítimas da escuta se sentiram comprometidas, pois haviam sido, de certa forma, grampeadas, após constatar que a suas privacidades foram violadas. E com toda razão.

Enfurecidos, muitos deles gritaram aos quatro cantos do vale onde fica a cidade, ameaçaram os espiões de plantão, mas nada disso adiantou muito. Só depois de alguns meses, os responsáveis pela falha do sistema de telecomunicação reparam o defeito e o melhor programa da história da cidade, transmitido pelo rádio, foi interrompido.

Graças, principalmente, ao nosso Snowden, ficamos sabendo o quanto estamos vulneráveis num teste real da nossa segurança e privacidade, até então, foco de debate restrito às mesas de cineastas e reuniões de governos. O espião aposentado recebeu a reportagem usando uma camisa de colarinho discreto, bermuda e chinelos. A figura faz jus ao apelido que recebeu.

O principal personagem da trama diz que, se por ventura, o episódio tornar a se repetir na cidade, ele estará pronto para retornar ao seu antigo posto esquecido. Para o observador de arcanos foi mesmo uma surpresa acordar e saber que podia ouvir segredos confidenciados a uma linha telefônica.