Header Ads

LightBlog

Você foi o meu bobo favorito

Antes de ler mais uma palavra, vá até o último parágrafo e leia atentamente cada linha contida nele.

Eu sabia perfeitamente tragar um Marlboro, enquanto você tossia incomodado ao sentir a fumaça invadir os seus pulmões. Eu te olhava com desejo e com o desdém de quem roubou o doce de uma criança perdida em um parque nos primeiros dias do inverno. Certamente ninguém nunca nos aprovaria como o par que éramos.

Assim como uma noite fria encoberta de nuvens, nós não agradávamos a todos. Mas formávamos uma grande dupla: naquele tempo não passávamos de personagens caricatos, dotados tanto de vícios quanto de virtudes, escrevendo com a nossa própria vida uma história não convencional.

Gosto de acreditar que a maior vantagem em ter te conhecido seja a de ter vivido um amor que nasceu desprovido da pretensão de durar. E, talvez, este seja o maior trunfo da nossa curta trajetória: as descobertas e desventuras da juventude, tratadas com o alívio de fantasias tangíveis.

Enquanto eu fazia a pior versão de um looser que sempre teve poucos amigos na escola e se tornou um existencialista que ouve rock e é considerado diferente; você era o atleta inteligente e bobo, moderadamente impopular, que dominava as aulas de ciências e matemática. Eu era o cara politicamente incorreto que se apaixonou pelo idiota educado e gentil que despedaçou meu coração. Droga!, você não sabe por quanto tempo isso doeu em mim. A vida não foi fácil nos meses seguintes a sua partida.


Em uma das sequências mais legais de tudo do que vivemos juntos, eu poderia citar as milhões de vezes que ouvíamos Alex Turner, deitados e olhando para o céu em um terreno baldio, e eu descrevia o modo como eu odiava a sua voz toda vez que você supunha que iria morrer – mesmo depois de eu entrar na brincadeira e tentar imaginar como seria recebida a notícia da minha morte em meio aos nossos amigos e pelas pessoas naquela pequena cidade.

Em outra cena, eu me recordo de contornar as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul, enquanto compartilhava com você uma lista das coisas que eu faria antes de morrer. Embora tudo que nos cercasse naquela época fosse apagado, como um dia nublado e sem graça, suspeito que esse cenário tenha sido estrategicamente escolhido pelo destino, como forma de deixar as coisas mais nostálgicas, sabendo da possibilidade de em um futuro eu escrever essas memórias.

Por descuido meu, acabei vendo uma fotografia sua de quando passávamos tardes inteiras devorando chocolate – o que reforçou um olhar vintage sobre um passado não tão distante, quando na verdade tem sido uma trama atemporal.

Eu não sei se mereço ser visto como uma alternativa moderna a Holden Caulfield, inebriado de uma ingenuidade e romantização do mundo. Mas eu era uma personagem que, embora durão e independente, protagonizava naquele instante as minhas próprias dores de estimação.

Ir até a seção de filmes indies e escolher um título de 2010 me fez lembrar que um dia eu já fui o tipo de jovem pronto a desafiar quem estivesse ao contrário do que eu acreditava. Este, talvez, seja o único motivo para que eu esteja escrevendo uma carta que jamais será enviada. Ou, talvez, para usar como desculpa para fechar os olhos e buscar o gosto do cigarro que tanto te incomodava.

Este texto deve ser lido ao som da playlist, composta por canções de Alex Turner, que se encontra logo abaixo. Acredito que esta seja a forma mais fácil e sensível do leitor se ambientar e aproximar da sensação que eu, o autor, vivi em cada linha escrita, aproximando-o do contexto.