Header Ads

LightBlog

Quando a sutil frieza agride minha sensibilidade existencialista

Era meia noite e os ponteiros de um velho relógio cubano conseguiam soar mais alto do que os meus próprios pensamentos em uma noite quente e úmida na maior cidade do Brasil. Embora eu conseguisse ouvir o ronco do meu estômago, era o barulho dos ponteiros que mais me incomodava – ou então, talvez, era a angústia que vinha àquele apartamento por eu não conseguir entender o porquê algumas pessoas desistem tão facilmente de tudo. Do ponto de vista poético, aquela madrugada silenciosa possuía uma beleza inspiradora. A fome por um pedaço de queijo era o que me sustentava parado, diante de uma geladeira reluzente e vazia. Ao passo em que meus olhos repousavam perdidos em um ponto qualquer daquela eternidade, eu tentava entender o quanto podia custar para alguém não deixar o outro partir sem motivos.

Nenhuma ligação ou mensagem surgia naquela noite para que eu pudesse usar como desculpa para pegar o meu casaco e sair ao encontro de alguém que já devia estar na minha cama há horas. A verdade é que não havia motivos para o meu telefone tocar. E eu sabia disso por conta de simples particularidades que compunham um existencialista perdido entre tanta gente acostumada com a frieza sutil de perder o que um dia resistiu a acreditar.

No entanto, eu não havia perdido a coragem de procurar o outro por medo de, talvez, ouvir não. Diferente das pessoas que cruzaram o meu caminho neste labirinto de concreto e que de repente somem após nenhuma das partes saber o que de fato ocorreu, eu nunca acreditei que fosse me custar um braço me encontrar cara a cara para tentar entender o que o outro sentia. Afinal, o que havia acontecido de bom sempre foi motivo suficiente para tentar outras vezes. Ou, então, saber, por ora, que nós havíamos chegado ao fim de um ciclo. Além de ter cultivado o bom senso de ter o cuidado ao interpretar sinais aleatórios vindos do próximo. Precisamos nos permitir mais para que a dúvida não seja o único critério ao decidirmos deixar tudo para trás.

A noite se arrastava e eu só conseguia me enxergar naquele assoalho branco desbotado, ainda com a esperança de o improvável acontecer e eu, enfim, poder ouvir uma voz me chamar do lado de fora, como se alguém estivesse esbaforido, ávido para me encontrar e contar uma boa notícia. Contrariando minha mais ínfima esperança, eu já sabia o que estava prestes a acontecer: este pensamento logo se dissiparia e eu daria minha última conferida no celular antes de apagar na cama. Segundos antes de me perder no sono, um pensamento opaco brotaria da profundidade da minha mente.

Foi então que, ao acordar e ver pela janela todas aquelas pessoas e suas histórias entrelaçadas através de fios invisíveis, enquanto a brisa fria da manhã batia em meu rosto, eu percebi que me distancio da descrição estereotipada sobre o tipo de gente que eu sou. Eu reunia em mim todas as características de um estranho à vida, menos a de frio e, consensualmente, a de insensível. Mas é que ninguém consegue perceber o quanto nossa sensibilidade é mal interpretada e invariavelmente não se dá conta do quão pode ser difícil se relacionar com o mundo a nossa volta. Mesmo quem está por perto, muitas vezes não consegue imaginar o quão custoso que é “incomodar” alguém quando eu simplesmente quero falar qualquer coisa, desde um “estou com saudade” ou “você checou meus e-mails e viu como nossa foto ficou legal?”.

Seja por isso que talvez eu tenha dificuldade em entender as pessoas que se desprendem da gente sem se importar com a beleza de uma despedida sincera. Ou, então, sob outra hipótese, não conhecem o verdadeiro valor do relacionamento. Há também a chance de covardia. Afinal, qual ideia se encontra na intenção de querer fazer história a dois e logo depois sumir? Há rituais que ganham significados importantes na vida das pessoas. Um ato simbólico é também um ato mágico pela sua capacidade de se transformar em realidade. Mas a sensibilidade jamais pode ser confundida com frieza – no entanto, até pode, às vezes, ser confundida com a estranheza de viver nestes tempos.