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Enunciação sob a ótica de Guimarães


Você acompanhou as concepções de enunciação sustentadas pelos já comentados autores, Bakhtin, Benveniste e Ducrot, que são reconhecidamente grandes responsáveis pela evolução dos estudos da teoria enunciativa, uma vez que proporcionaram (cada um a sua maneira) a possibilidade de observarmos a teoria da enunciação sob várias óticas, consequentemente, tornando-a um aspecto decisivo para a investigação da linguagem na perspectiva do discurso.

Sendo a teoria da enunciação reconhecida através de vários pontos de vista, ela se fará presente nos estudos de Guimarães de maneira redefinida e ampliada em sua teoria da semântica do acontecimento.

Esta área de estudo caminha em total compatibilidade com os pressupostos da análise do discurso francesa. Segundo Guimarães, na sua semântica do acontecimento, a linguagem é conceituada a partir de sua relação com o real (a linguagem fala de algo), e “não há como pensar uma semântica linguística sem levar em conta que o que se diz é incontornavelmente construído na linguagem”, pontua Guimarães. Sendo assim, a linguagem é considerada como histórica ao falar de algo que é constituído na própria linguagem em si. A semântica do acontecimento pode ser compreendida como o lugar de observação do sentido – o enunciado –, isto é, do acontecimento do dizer.

Enquanto Benveniste define o sentido da unidade linguística como sendo fruto de um movimento integrativo – que dá o sentido da unidade na relação da parte (elemento) com o todo (enunciado) – sem ir além do enunciado, ao contrário, Guimarães afirma a passagem do enunciado para o texto (enunciação) ou ainda para o acontecimento enunciativo fora da segmentalidade, ou seja:

“Não há como considerar que uma forma funciona em um enunciado, sem considerar que ela funciona num texto, e em que medida ela é constitutiva do sentido do texto”, afirma Guimarães.

Em relação ao conceito de enunciação, a semântica do acontecimento a define como um espaço possível de uma formação histórica do sentido, partindo da perspectiva de que se trata de um acontecimento de linguagem, em que se estabelece a relação do sujeito com a língua. Ao contrário de Benveniste, que afirma que a enunciação é a língua funcionando através do locutor e ao contrário também de Ducrot, que conceitua a enunciação como o aparecimento de um enunciado.

Partindo da afirmação de que a enunciação trata-se de um acontecimento de linguagem, este acontecimento pode ser compreendido, segundo a semântica do acontecimento, a partir da língua e do sujeito que se relacionam pelo funcionamento da língua toda vez que algo é enunciado. Considere-se que o sujeito é um ser afetado pelo simbólico e inserido num mundo constituído através do simbólico.

O acontecimento, segundo Guimarães, não se trata de um fato no tempo, ele temporaliza, ou seja, coloca sua própria temporalidade. Ao contrário de Benveniste, Guimarães considera que não é o sujeito quem temporaliza e sim o acontecimento que é constituído pela temporalidade e toma o sujeito. A temporalidade se forma a partir de uma futuridade, considerando que a teoria afirma que o futuro é próprio do acontecimento, desta forma, compreende-se o fato do acontecimento de linguagem projetar em si um futuro.

Portanto, é possível a compreensão de que não há acontecimento de linguagem sem uma futuridade, uma vez que, sem esta nada é interpretável, pois a futuridade existe no acontecimento devido à existência da memória enunciativa (um passado) que promove o significar, ou seja, ao mesmo tempo em que é próprio da temporalidade o futuro, esta possui também uma rememoração de enunciações que pode ser considerada como uma nova temporalização, assim como a futuridade, que, dessa forma, constitui o presente proporcionando o espaço dos sentidos, ou seja: “O acontecimento é sempre uma nova temporalização, um novo espaço de conviviabilidade de tempos, sem a qual não há sentido, não há acontecimento de linguagem, não há enunciação”, reitera Guimarães.

A teoria da semântica do acontecimento considera que o locutor se divide no acontecimento por enunciar enquanto sujeito. Para a análise de discurso de linha francesa, sujeito é aquele que enuncia na região do interdiscurso, memória de sentidos que é estruturada pelo esquecimento. Porém, Guimarães ressalta que é importante não confundir o conceito que cada uma das teorias atribui ao elemento sujeito, pois cada qual o conceitua a partir de realidades teóricas distintas, como interdiscurso (conceito utilizado pela AD), e acontecimento, compreendido como o espaço de temporalização, rememoração fragmentada de enunciações tidas como passado, na perspectiva da semântica do acontecimento.

Esta caracterização da temporalidade do acontecimento não coincide, portanto, com o tempo do ego que diz eu, que chamo aqui locutor. A configuração do Locutor no acontecimento é a origem do dizer e assim da temporalidade. Diria que Benveniste limitou-se a tratar desta representação.

Deste modo a temporalidade do acontecimento da enunciação traz sempre esta disparidade temporal entre o tempo do acontecimento e a representação da temporalidade pelo Locutor. Esta disparidade significa diretamente a inacessibilidade do Locutor àquilo que enuncia. O Locutor não está onde a enunciação significa sua unidade (tempo do Locutor). Assim o Locutor está dividido no acontecimento. E está dividido porque falar, enunciar, pelo funcionamento da língua no acontecimento, é falar enquanto sujeito.

Para caracterizar este aspecto recorro, neste ponto, à posição da análise do discurso para a qual o sujeito que enuncia é sujeito porque fala de uma região do interdiscurso, entendendo-se este como uma memória de sentidos.

Memória que se estrutura pelo esquecimento de que já significa, pontua Orlandi. Ser sujeito de seu dizer, ser sujeito, é falar de uma posição do sujeito, aponta Guimarães.

Observe que em relação à redefinição da teoria enunciativa e seus conceitos, é notória a distinção que Guimarães expõe em comparação com Ducrot ao conceituar “sujeito”. Enquanto Ducrot considera sujeito como uma figura psicofisiológica, não sendo um personagem da enunciação, Guimarães o redefine como sendo uma figura política constituída pelos espaços da enunciação que é incluída entre as demais figuras existentes da enunciação.

Você deve entender como espaço de enunciação o funcionamento das línguas que são “habitadas” por falantes que se dividem entre os direitos e os modos de dizer. Assim se ressalta que esses espaços de enunciação são constituídos pela contradição de uma normatividade com suas rupturas, ou seja, trata-se de um espaço político que é dividido em formas desiguais que disputam a palavra no acontecimento de linguagem.

É válido ressaltar que o espaço da enunciação é concebido como crucial na conceituação da enunciação, sendo esta uma prática política e não individual/subjetiva, uma vez que a semântica do acontecimento considera que esse espaço enunciativo se divide entre línguas e falantes, conforme Guimarães: “enunciar é estar na língua em funcionamento. E a língua não funciona no tempo, mas pelas relações semiológicas que tem. A língua funciona no acontecimento, pelo acontecimento, e não pela assunção de um indivíduo”, ressalta Guimarães.

Referente à disputa da palavra, podemos compreender que a teoria da semântica enunciativa considera que ela se dá em cenas enunciativas, que são modos próprios de ingressar a palavra nas relações entre figuras da enunciação e as formas linguísticas, ou seja, cenas enunciativas: “São lugares constituídos pelos dizeres e não pessoas donas de seu dizer. Assim, estuda-la é necessariamente considerar o próprio modo de constituição desses lugares pelo funcionamento da língua”, afirma Guimarães.

Observe que adotar a palavra é colocar-se no lugar de quem enuncia, ou seja, o lugar do locutor que pode ser definido como o responsável pela enunciação, ele representa o “eu” na enunciação em que ocorre o enunciado. Já o alocutário é representado pelo “tu” no discurso a partir do próprio locutor, ainda podemos diferenciar, com base em Guimarães, os dois papéis de locutor: L que é a fonte do dizer e o Lp que é o locutor enquanto-pessoa-no-mundo, este deve ser caracterizado socialmente e historicamente.

Portanto, podemos compreender que a teoria da semântica do acontecimento estuda a enunciação formatando sua temporalidade entre línguas e falantes, dentro de um espaço denominado espaço da enunciação, de modo a considerar que o sentido das expressões linguísticas não refere a verdade, mas o significado do enunciado que se dá através do acontecimento enunciativo em que funciona.

Em síntese, Guimarães, assim como Ducrot, distancia-se da visão de Benveniste, que concebe a enunciação como uma atividade do locutor em produzir um enunciado e que considera o sujeito da enunciação como uno, único e onipotente em relação ao seu próprio dizer e à língua da qual esse sujeito se apropria para dizer algo. Ele mantém que no enunciado há a representação de diferentes papéis do locutor. “As personagens se constroem à medida que se representam uma diante da outra”, afirma Guimarães.

O autor explicita que a dupla falante/ouvinte apenas caracteriza os agentes físico-fisiológicos de falar e ouvir, de modo que não dizem respeito ao linguístico e, portanto, não se incluem como objeto da semântica. Entretanto, as figuras/personagens da enunciação linguisticamente consideradas são: locutor/alocutário e enunciador/destinatário.

O locutor é aquele que se representa como eu na enunciação, representando-se, internamente ao discurso, como responsável pela enunciação em que ocorre o enunciado. O locutor é uma figura constituída internamente ao discurso e marcada no texto pelas formas do paradigma do eu. O alocutário é o tu do discurso, representado enquanto correlato do locutor pelo próprio locutor. Na representação do locutor, podemos distinguir dois papéis, L e Lp. O locutor L é aquele que simplesmente se representa como fonte do dizer. O locutor Lp é o locutor-enquanto-pessoa-no-mundo. O locutor-enquanto-pessoa-no-mundo deve ser caracterizado sócio-historicamente, e isso já se constitui em um deslocamento que o autor faz em relação a Ducrot, para quem o Lp é apenas mais uma figura representativa das funções enunciativas que ele descreve. Respectivamente ao locutor L, há o alocutário AL e, ao locutor-enquanto-pessoa-no-mundo, há o alocutário-enquanto-pessoa (ALp), afirma Guimarães.

Há ainda o nível da relação entre enunciador e destinatário para fechar o quadro polifônico da enunciação. O enunciador é a posição do sujeito que estabelece a perspectiva da enunciação. O destinatário é o correlato constituído segundo a perspectiva do enunciador. Suponhamos aqui que no meio de uma conversa alguém diga: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Em tal enunciado representa-se um L que fala da perspectiva do senso comum e que, inclusive, mobiliza essa perspectiva como argumento para o que diz. Assim L, nesse caso, fala de uma perspectiva genérico-coletiva, e esta enunciação representa um enunciador genérico-coletivo.

Ao contrário de Benveniste, Guimarães não exclui o enunciado proverbial do funcionamento enunciativo, nem dialógico, nem muito menos lhe sonega o locutor. Guimarães procura caracterizar uma cena enunciativa no texto, que cruza as representações da enunciação (L, Lp, E), e como essas representações relacionam-se com as de alocutário e destinatário, representando a alteridade na enunciação. As categorias de análise mencionadas pelo autor são inspiradas na teoria polifônica da enunciação de Ducrot, mas ele enfatiza seu afastamento quanto ao apego à posição estruturalista manifestado por Ducrot. Para o autor, a enunciação constitui historicamente as regularidades da língua, que estão sempre abertas ao efeito do episódio enunciativo.