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Enunciação sob a ótica de Ducrot

Ainda dentro da perspectiva dos estudos enunciativos, Ducrot elabora o Esboço de uma Teoria Polifônica da Enunciação, partindo da influência de Bakhtin acerca do dialogismo e da polifonia da linguagem (categorizados por Bakhtin principalmente em textos literários). Nos textos há várias vozes que falam ao mesmo tempo sem uma desvencilhar-se das outras. Para Ducrot, o mesmo que acontece na literatura popular, carnavalesca, analisada sob a perspectiva dialógica e polifônica de Bakhtin, acontece de modo generalizado na linguagem, a partir do princípio de que, em cada ato de enunciação, se apresenta um autor/locutor que agrega para si várias vozes implícitas distintas, ocultas no engendramento linguístico, mas que convocam as enunciações e enunciadores anteriores.

Compreenda que os estudos de Ducrot na perspectiva da semântica enunciativa/argumentativa, ponderam a existência de uma cadeia de vozes que compõe, de forma implícita, a enunciação, contestando assim o pressuposto da unicidade do sujeito falante, que Benveniste considera, sustentando que cada enunciado possui, um e somente um autor, afirma Ducrot.

Podemos então notar que a teoria contestadora em relação à unicidade do sujeito é uma das fontes da ampliação/evolução dos estudos enunciativos, uma vez que o acontecimento enunciativo-discursivo efetiva-se através de diferentes gêneros textuais e discursivos, configurando a voz do outro em uma rede polifônica.

Ducrot também reflete sobre o estilo indireto livre e ressalta que este não se aplica a enunciados isolados, voltando-se novamente à teoria bakhtiniana, em relação à literatura, a qual Bakhtin intitula como uma disciplina “pragmático-semântica ou pragmático-linguística. Essa visão está vinculada ao pressuposto da ação humana em sua totalidade, destacando como objeto de estudo o uso da linguagem, que acaba por ordenar a razão de certas palavras em determinadas ocasiões serem constituídas de eficácia: os atos de fala performativos, por exemplo, um padre, durante a cerimônia de casamento, enuncia: “eu vos declaro marido e mulher” e assim o sujeito que entrou solteiro na igreja, sai dela casado.

Ducrot se preocupa com o uso linguístico do ato de fala a partir do próprio enunciado, ou seja, como aparecem os efeitos da enunciação, considerando que para que isso aconteça de forma teoricamente sustentável, faz-se necessário explicitar a diferença entre enunciado e frase, através de uma teoria polifônica.

Ducrot define frase como o objeto teórico pertencente não ao linguista e sim, em especifico, à gramática, enquanto o enunciado para ele é a ocorrência de uma frase em diferentes ocasiões, podendo-se considerar que uma mesma frase pode ser manifestada por uma única pessoa em circunstâncias distintas e também por duas pessoas diferentes. Daí é possível compreender a existência de duas ocorrências de uma mesma frase, enquanto, estrutura lexical e sintática (supostamente subjacente), já que no discurso podem ser consideradas como uma ocorrência contínua de enunciados.

Desse modo, é possível compreender os efeitos de sentido reais da situação enunciativa, ou seja, uma hipótese interna que permite a explicação, concluindo que o enunciado é parte da enunciação.

Os provérbios, por exemplo, são enunciados que podem circular em diferentes enunciações e, portanto, ditos por enunciadores diferentes que produzem sentidos diferentes. Imagine o enunciado proverbial “Quem não chora não mama” dito por diferentes locutores:

- uma criança com fome;
- um aluno “cavando” nota com o professor;
- um mendigo pedindo dinheiro na rua;
- uma empregada requerendo aumento de salário;
- um funcionário querendo sair mais cedo do trabalho etc.

Ainda referente à distinção de frase e enunciado, Ducrot destaca que a Enunciação pode ser compreendida em três aspectos:

I. a enunciação como atividade psicofisiológica, ou seja, as influências sociais;

II. a enunciação como um segmento de discurso, isto é, o enunciado;

III. a enunciação como aparecimento momentâneo de um enunciado, aparecimento esse que constatamos Ducrot  designar como um acontecimento histórico, podendo entende-lo como algo que passa a existir a partir do momento em que acontece.

O que nos leva a compreender que a enunciação refere-se ao aparecimento de um enunciado. Ducrot ressalta que não é possível afirmar a definição oposta de frase e enunciado com a distinção de enunciação, sem antes explicitar a diferença entre a “significação” e o “sentido”. Conforme a teoria polifônica, a significação está para a frase, assim como o sentido está para a caracterização semântica do enunciado, pois conforme a concepção polifônica, entende-se que a significação pode ser o “algo” que o sujeito falante procura transmitir em uma construção que ocorre em uma situação de discurso. Enquanto o sentido é compreendido como um conjunto de indicações sobre a enunciação, ou seja, podemos considerar o sentido ser o “algo” ou alguma coisa que se comunica ao interlocutor, reconhecendo o fato de que o sujeito falante realiza o ato para transmitir um saber ao interlocutor, levando-se em consideração que o(s) sentido(s) em um enunciado é/são passível(is) de interpretação(ões), sendo, portanto, denominado(s) como descrição(ões) pragmática(s).

Ducrot critica o postulado da “unicidade do sujeito na enunciação”, que defende a existência de um único autor/sujeito responsável pelo que é dito no enunciado.

Aprofundemos, então, a definição de “sujeito”, por Ducrot, em suas propriedades categoriais específicas:

a) Sujeito dotado de toda atividade psicofisiológica, ou seja, formação de julgamentos, escolha de palavras e utilização gramatical.

b) Sujeito tomado como autor do enunciado, aquele que ordena, pergunta, afirma etc.

c) Sujeito definido através da designação que recebe pelas marcas de primeira pessoa, isto é, quando o sujeito é EU, aquele que produz o enunciado (concepção do discurso relatado direto). Em relação ao termo “sujeito” definido por Ducrot é possível constatarmos duas distinções de personagens: locutor e enunciador:

a) Locutor (L): o ser responsável pela enunciação, (referente ao pronome eu como marca de primeira pessoa), embora um único enunciado possa apresentar dois locutores distintos evidenciados pela marca de primeira pessoa, como por exemplo: “João me disse: eu virei”.

b) Enunciador (E): é o sujeito dos atos ilocutórios fundamentais, como na afirmação, recusa, pergunta, incitação, exclamação, ou seja, enunciador é o sujeito ao qual é atribuído os diversos pontos de vista que se dão pelas palavras.

Aplicando essa tese de vários sujeitos em textos literários, Ducrot ressalta: “direi que o enunciador está para o locutor assim como a personagem está para o autor”, pontua Ducrot. Em síntese, Ducrot desenvolve mais sistematicamente a teoria polifônica da enunciação, sendo este passo significativo no sentido de romper com a unicidade do sujeito falante. Ele conduz uma reflexão crítica sobre a postura tradicional de algumas linhas teóricas da linguística que concebem a linguagem como monológica e o sujeito como unicentrado. Conforme Ducrot sua teoria polifônica da linguagem desconstrói o postulado teórico acerca do sujeito unicentrado. Ele estabelece a distinção entre os conceitos de frase (objeto teórico) e enunciado (fato empírico observável no mundo). A descrição do conceito de enunciação tem três acepções:

- Enunciação – atividade.

- Enunciação – produto.

- Enunciação – acontecimento.

É com a última concepção (mais completa) que Ducrot se coaduna em sua teoria. Dentro dessa perspectiva, conforme o autor, sobre os conceitos de sentido e significado, o sentido diz respeito à enunciação e o significado diz respeito à frase. Na enunciação, o sentido tem natureza instrucional a partir das “variáveis argumentativas”.

Note que a concepção polifônica do sentido mostra como o enunciado assinala, em sua enunciação, a sobreposição de diferentes vozes. Para Ducrot, tal qual uma cena de teatro em que se configuram diferentes personagens que dialogam entre si, há uma apresentação de diferentes vozes, de vários pontos de vista, e o locutor tem como função provocar seu aparecimento e mostra-los dentro do enunciado: a estes diferentes pontos de vista o autor vai chamar de enunciadores. Ducrot aponta três diferentes funções enunciativas para melhor identificar a multiplicidade de vozes presentes na enunciação:

- O sujeito empírico – SE: que é o autor efetivo, agente da reprodução de discursos já escutados ou lidos. O ser empírico que preenche o lugar de sujeito.

- O locutor – L: que é o responsável presumido pelo enunciado a quem se atribui a responsabilidade pelo mesmo, responsável, inclusive pelo ato praticado e não pelo conteúdo proposicional. (marcas em primeira pessoa);

- O locutor – Lp: que é o locutor-enquanto-pessoa-no-mundo, aquele que serve de suporte para determinadas predicações;

- Os enunciadores – E1, E2,...: que são os vários pontos de vista que podem ser percebidos em um mesmo enunciado.

Apagada a mediação do sujeito empírico na enunciação, as figuras enunciativas (SE, L, E1, E2...) dão lugar à multiplicidade de sujeitos. Dessa forma, podemos compreender que os tipos de locutor exemplificados acima acabam por evidenciar a primeira forma de polifonia, uma vez que prova a existência de mais de um sujeito no enunciado.

Pense, a título de ilustração, no funcionamento enunciativo da ironia: através da definição de enunciador e locutor poderíamos entender a origem da ironia como uma forma de antítese em que, de maneira esquematizada dir-se-ia A para levar a entender não A. Mas para Ducrot, a ironia trata-se do locutor fazer ouvir” um discurso, porém fazer ouvir este como um discurso sustentável do outro. Consideramos então o fenômeno linguístico da ironia como mais uma forma de se evidenciar a existência da polifonia na enunciação, uma vez que se dá de forma implícita a voz do outro no enunciado de um locutor, pois, segundo Ducrot, assumindo a responsabilidade de um conteúdo, não se assume a responsabilidade da asserção deste conteúdo, não se faz desta asserção o fim pretendido de sua própria fala, (o que implica a impossibilidade, definidora, para mim, da pressuposição, de encadear com os pressupostos).

Feitas todas estas reflexões, correlacionaremos a elas as contribuições Guimarães que redefinem e ampliam o fenômeno da enunciação, no seio da semântica do acontecimento. Para Guimarães, a Teoria Polifônica da Enunciação sustenta de forma significativa a existência de vários sujeitos em um mesmo enunciado. Ele discorda da linguística estrutural que considera a existência da unicidade do sujeito, simplificando a enunciação como um elemento reduzido da língua e desconsiderando a pluralidade de sujeitos no enunciado, a pressuposição e outros fatores determinantes no funcionamento enunciativo.