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Enunciação sob a ótica de Benveniste


Você verá que tão importante como a ótica de Bakhtin sobre a enunciação, é o ponto de vista de Benveniste que será de fundamental importância quanto ao conjunto de teorias a serem percorridas nesta reflexão. Emile Benveniste apesar de preso à tradição estruturalista e de apostar na unicidade do sujeito locutor, contribuiu para a difusão e importância dos estudos enunciativos, destacando-se por considerar que na enunciação a subjetividade da linguagem se funde na ação do próprio ato de linguagem, sendo este individual, mas que convoca o “outro/tu” para dentro da enunciação.

Cada enunciação é um ato que serve o propósito direto de unir o ouvinte ao locutor por algum laço de sentimento, social ou de outro tipo. Uma vez mais, a linguagem, nesta função, manifesta-se-nos, não como um instrumento de reflexão, mas como um modo de ação, afirma Benveniste.

Esse autor afirma que a enunciação coloca em funcionamento a língua por um ato individual de utilização, por parte de um locutor que mobiliza a língua por sua conta: é o ato mesmo de produzir um enunciado. A enunciação se caracteriza pela realização vocal da língua, supõe a conversão individual da língua em discurso (a semantização da língua) e apresenta caracteres formais próprios a partir da manifestação individual que ela atualiza.

Entenda que tal mobilização e apropriação da língua são, para o locutor, a obrigatoriedade de referir pelo discurso e para o outro: “a referência é parte integrante da enunciação”, enfatiza Benveniste. A emergência dos índices de pessoa (EU/TU) só se produz por meio da enunciação. Como diz o autor, o presente é propriamente a origem do tempo.

A enunciação cria entidades na rede de indivíduos em relação ao “aqui-agora do locutor. Emile Benveniste (1989) ao tratar a enunciação e seu aparelho formal, aponta primeiramente, como caráter introdutório, a preocupação em definir “emprego das formas na língua” como a origem (linguístico-descritiva) da remissão do locutor no dizer. Benveniste buscou conduzir seu estudo aprofundando a investigação enunciativa sobre a apropriação da língua pelo locutor, colocando-a em funcionamento por um ato individual.

Acerca do funcionamento enunciativo ressaltam-se três aspectos importantes:

a) Realização vocal da língua, na qual, os sons emitidos procedem de atos individuais com relação à produção nativa e são interferidos pela diversidade das situações, nas quais a enunciação é produzida.

b) Semantização da língua, que conduz à teoria do signo e a análise da significância.

c) Os caracteres formais da enunciação, a apropriação da língua pelo locutor através da correferenciação e no consenso pragmático.

Segundo Benveniste, a enunciação provém de um próprio ato individual de linguagem.

Nesse ato individual se introduz o locutor, a língua e a enunciação, de modo que é na realização individual que a enunciação se define como um processo de apropriação, onde o locutor se “apodera” do aparelho formal da língua e enuncia de seu lugar de locutor. Segundo Benveniste, o locutor assume a língua, na qual este implanta “o outro” diante de si.

Podemos compreender então que a situação de toda a enunciação é uma alocução que postula um alocutário, ou seja:

A condição mesma dessa mobilização e dessa apropriação da língua é, para o locutor, a necessidade de correferir identicamente, no consenso pragmático que faz de cada locutor um colocutor. A referência é parte integrante da enunciação, afirma Benveniste.

Benveniste destaca que a presença do locutor na enunciação de seu discurso como um centro de referência se dá uma vez que o locutor assume a língua na qual ele, ao implantar o outro diante de si, parte da condição de movimento e posse da língua, resultando na necessidade da correferenciação para que se constitua um colocutor.

Segundo a ótica de Benveniste, a linguística considera que a relação discursiva da enunciação dá-se com os receptores reais ou imaginários, individuais ou coletivos, baseando-se no quadro figurativo da enunciação, uma vez que ela pode ser encarada como:

I. enunciação como interrogação, a qual é constituída para promover resposta;

II. enunciação como intimação, a qual procede claramente ordem, asserção que visa comunicar uma certeza, podendo ser denominada como quadro figurativo da enunciação, aponta Benveniste.

Ainda sobre essas considerações, Benveniste trata como um caso de “monólogo” aquilo que define como um diálogo feito de linguagem interior entre um locutor e um ouvinte, no qual acontece a predominância do eu-locutor, e posteriormente do eu-ouvinte. Ou seja, um diálogo interiorizado, em que, segundo Benveniste, é necessário invocar a frequência e a utilidade prática da comunicação entre os indivíduos para então ter a noção de diálogo e originar diversas variedades.

Dentro da perspectiva linguística:

Cada enunciação é um ato que serve o propósito direto de unir o ouvinte ao locutor por algum laço de sentimento, social ou de outro tipo. Uma vez mais, a linguagem, nesta função, manifesta-se não como um instrumento de reflexão, mas como um modo de ação, afirma Malinowski.

Quanto ao que se refere à subjetividade na linguagem, Benveniste se defronta com dilemas das considerações semióticas e semânticas, nos quais se entrelaçam o locutor e a língua, definindo a subjetividade na linguagem como uma condição da mobilização e da apropriação que o locutor faz da língua ao utilizá-la. Benveniste considera fundamental a presença de locutores para elaboração integrante da enunciação, sendo estes locutores destacados por uma temporalidade que se faz como um quadro inato do pensamento, o que pode ser compreendido mais explicitamente em seu trabalho, “O aparelho formal da enunciação”:

O presente formal não faz sentido se não explicitar o presente inerente à enunciação, que se renova a cada produção de discurso, e a partir deste presente contínuo, coextensivo a nossa própria presença, imprime na consciência o sentimento de uma continuidade que denominam “tempo”; continuidade e temporalidade que se engendram no presente incessante da enunciação, que é o presente do próprio ser e que se delimita, por referência interna, entre o que vai se tornar presente e o que já não o é mais, afirma Benveniste.