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Despertar e ser quem essencialmente você é requer desapego

Foto: Ygor Reis/JUP

Eu me vi obrigado a dizer não a algumas pessoas que ocupavam o lugar de amigos e negar a continuar seguindo aqueles mesmos velhos passos de um caminho muito conhecido por mim – já fazia algum tempo que a comodidade tentava com algum custo pousar sobre meu corpo. Optei pelo intrincado gesto de alegar com verdade, ainda que dirigida apenas ao meu consciente, sobre o que eu realmente achava de toda aquela gente que me cercava, mas que não contribuía verdadeiramente para a minha felicidade; ao passo que escolhi de igual modo expor minha indiferença sobre o som que aquelas risadas ressoavam e de como a noite chegava ao fim.

Parti também de um lugar que sempre acreditei que fosse me oferecer a eternidade como legado. Recusei o convite, sem o menor constrangimento, de ser como mais um que procura a felicidade no pairar da normalidade. Finalmente, alguma partícula, molécula, ou filete de energia fluida se despertou dentro de mim e me fez sentir o que já estava predeterminado em meu destino: um caminho arriscado pelo desconhecido em uma travessia que me exporia à pura essência do meu espírito, ao desconforto iminente de ter que me deparar cara a cara com a vida, sem alternativa de rota de fuga, e o pior, fora da minha zona de conforto.

Despertar e ser quem essencialmente você é, requer desapego daquilo que sempre esteve ao seu (ao meu) alcance. Mas que projetado como simulacro, em realidade, não contribuía para a sua (minha) existência, não o (me) tornava verdadeiramente feliz, apenas contornava alguns anseios – chegando à sofreguidão – dos mais íntimos aos levianos: pessoas, lugares, sentimentos, coisas. A falsa ideia de felicidade é facilmente vendida pela ilusão de que nós mesmos produzimos a curto e em longo prazo. A facilidade em acreditar que a felicidade reside geralmente em outro terreno, e não em nós mesmos, nos torna escravos de fantasmas criados pela nossa própria mente.

É sempre muito difícil tentar explicar a nossa própria vida para qualquer pessoa que seja, e isso acontece pelo simples fato de que apenas nós, e mais ninguém, a vivemos. Porque saímos do antigo emprego, porque não mais estamos ao lado de alguém do passado por quem sempre aparentamos ter grande afinidade e chances de chegar à velhice, o porquê trocamos de bairro ou de amigos; por que não mais frequentamos os antigos lugares de sempre etc. É que chega um momento em que você precisa parar, ver onde está, decidi para onde quer ir e deixar certas coisas para trás. É necessário sentir cortar da própria pele o que não serve mais ou nunca serviu. Às vezes, não há outro caminho senão o “do romper” com aquilo que sempre tivemos vontade de que fosse verdade, mas, de fato, nunca havia passado de um querer intenso e repleto de impaciência e desespero.

Despertar o meu espírito foi, talvez, o que eu fiz de mais libertador na vida, e isso pôde ser percebido por meio de pequenos gestos. O primeiro ato foi partir para onde eu pudesse perder minhas vistas no horizonte: escolhi o verão como a estação da minha jornada pela Ilha da Magia, lugar onde eu poderia renascer bento dos mais puros sentimentos; por lá descobri que:

Um. Nosso verdadeiro lar não necessariamente é o lugar onde nascemos, mas qualquer parte do planeta ou ponto do universo. O que pode incluir Bali, Floripa ou Poughkeepsie. Este provavelmente foi o verdadeiro motivo para eu passar meses longe da minha antiga vida. E eu gostei. Não havia sensação melhor do que poder comprar pão fresco todo fim de tarde enquanto a brisa morna do mar encobria meu corpo; de planejar o meu dia seguinte; de voltar da praia ao anoitecer sem se preocupar em perder o jantar ou, ainda, de ter que dar satisfação a minha mãe toda vez que eu saísse de casa. Eu perdi totalmente o medo de atravessar os céus e os mares e viajar se tornou uma grande necessidade do meu espírito. Havia em mim o desejo de fazer parte, de alguma forma, de outros cantos do mundo.

Dois. A parte mais importante de sua bagagem está dentro de você, então não crie nenhuma brecha para a apreensão tomar conta de você se, mais tarde ou mais cedo, perceber que ao longo do tempo sua mala estiver mais vazia, suas roupas não forem mais de grife ou se, finalmente, você tiver mais livros e histórias do que dinheiro na sua conta. Este pode ser o sinal de que você esteja evoluindo e que com o saldo bancário que você tem pode muito bem viver sem a ânsia de trocar sua vida pelo trabalho. Antes de arrumar minhas malas e pegar um avião que pousaria no meio da tarde na Ilha, eu fiz uma pilha com peças de roupas que eu tinha certeza que não mais usaria. O resultado foi um castelo feito com itens de meu obsoleto guarda-roupa.

Dei de presente minha jaqueta preferida de couro sintético preto, além de uma calça skatista a meu amigo que dividiria a casa comigo. Eu tinha certeza que aquelas peças ficariam muito melhor nele do que em mim. Naquele instante, senti um grande alívio ao saber que Ygor Reis, um amigo que a cada dia se transformava em um irmão, possuía apenas algumas poucas roupas que classificava por “gosto muito” e “gosto”. Nada de “novas”, “nunca usei” ou “apropriadas para um jantar”.

Não sei dizer ao certo o porquê, mas saber disso me deixou muito feliz naquele momento e me inspirou a fazer o mesmo a partir de então. Mas o que completou minha sensação de euforia ao reinventar meu novo guarda-roupa foi perceber que os manezinhos (como os nativos são chamados em Florianópolis) se vestem para irem a um restaurante badalado da mesma forma que vão à praia mais próxima de casa.

Três. Comer bem é tão importante quanto ver o pôr do sol. O sol tem um papel importante na vida dos florianopolitanos, uma vez que eles esperam o ano todo para aproveitar o verão. Pelo menos é o que todo mundo diz por lá. Ao retornar de viagem, durante meu embarque, pude entender o motivo da veneração pelos meses mais quentes do ano. Já passava das seis horas da manhã e o sol ainda se esforçava para romper o escuro da noite e irradiar com raios vermelhos-alaranjados, tomando o horizonte entre os morros cobertos de verde, que se sobressaía no aeroporto Hercílio Luz. Era como se a natureza estivesse-me preguntando: “entende agora o porquê deles esperaram por oito meses?”.

No entanto, apesar de ter apreciado muito o crepúsculo, se houve algo de que eu não me arrependo de ter feito durante minha estadia na cidade foi ter comido tudo o que estava ao meu alcance: saladas, hambúrgueres com queijos fedidos pelos quais mantenho uma estranha paixão gourmet, drinks e shakes, comida japonesa, italiana e tailandesa. Pratos dos mais baratos e simples, aos mais requintados. Eu comi sem a menor culpa, argumentando mentalmente que cada centavo gasto em cada restaurante diferente era uma espécie de investimento hedonista que meu espírito carecia, afinal eu estava sentindo prazer ao devorar todos aqueles pratos.

Quatro. Amigos são o passaporte para a eternidade. Pense bem, reveja sua vida e se volte para cada dia que você já viveu, dos melhores momentos aos piores, e tente imaginar como eles seriam sem todas essas pessoas que sempre estiveram conosco; ou mesmo aquelas que sumiram sem dar a menor explicação, ou pedir licença para desaparecerem. Ao menos comigo, a resposta sempre me vem à cabeça: a vida não teria a mesma graça sem elas. Eu constatei que a equação da nossa existência consiste em compartilhar para ser mais, mais feliz e mais bem sucedido.

Cinco. Ri da própria vida e não levar nada tão a sério. Ri, por mais que seja dramático o seu problema, até porque, às vezes, você não pode fazer muito a não ser torcer para que dê tudo certo e termine bem. Aprendi a não perder nenhum instante da vida. Eu não podia perder tempo só porque as coisas não iam lá muito bem das pernas ou pelo simples fato delas não saírem exatamente como eu planejei. Experimentei pegar o que havia de bom naquele momento – mesmo em condições difíceis – e aproveitá-lo, assim quando tudo passasse e já tivesse sido resolvido eu não teria tantas angústias guardadas em mim a ponto de ser mais leve do que eu jamais experimentei ser.