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As teorias enunciativas e a AD


A análise de discurso francesa também considera esta categoria teórica em lugar especial. Quando analisamos um discurso, partimos da interpretação que se estabelece mais centralizadamente, mas sem deixar de ver outros lugares de interpretação possíveis, pois todo enunciado, ou toda sequência de enunciados é linguisticamente descritível como uma cadeia (léxico-sintaticamente determinada) de pontos à deriva possíveis, que oferecem lugar à interpretação. A AD entende os conceitos de enunciação e enunciado, conforme sintetiza Ferreira, da seguinte maneira:

Enunciação
Processo de reformulação de um enunciado através do qual ele é posto em funcionamento, surgindo como uma de suas possíveis formas de atualização.

Os processos de enunciação consistem em uma série de determinações sucessivas, pelas quais o enunciado se constitui pouco a pouco e que têm como característica colocar o “dito” e, em consequência, rejeitar o não-dito, pontua Ferreira.

Enunciado
Unidade constitutiva do discurso que nunca se repete da mesma maneira (ver paráfrase e polissemia), já que a sua função enunciativa muda de acordo com as condições de produção. É a partir dos enunciados, portanto, que podemos identificar as diferentes posições assumidas pelo sujeito no discurso, afirma Ferreira.

Outro par conceitual de grande importância na AD e que se compatibiliza com a posição teórica da semântica do acontecimento enunciativo (de Guimarães) é o par história/historicidade. Vejamos as definições para estes conceitos, a partir do que sintetiza Ferreira:

História:
Produção de sentidos que se define por sua relação com a linguagem. A história organiza-se a partir das relações com o poder e está ligada não à cronologia, mas às práticas sociais. Para a AD, todo o fato ou acontecimento histórico significa, precisa ser interpretado, e é pelo discurso que a história deixa de ser apenas evolução, afirma Ferreira.

Historicidade:
Modo como a história se inscreve no discurso, sendo a historicidade entendida como a relação constitutiva entre linguagem e história. Para o analista do discurso, não interessa o rastreamento de dados históricos em um texto, mas a compreensão de como os sentidos são produzidos. A esse trabalho dos sentidos no texto e à inscrição da história na linguagem é que se dá o nome de historicidade, pontua Ferreira.

Veja que para a AD, a questão da enunciação pode ser recolocada (em termos diferentes dos de E. Benveniste) assim como a da interpretação. O discurso é dispersão de sentidos, porque é efeito de sentido entre sujeitos. Não existe no discurso univocidade de sentido, ou sentido literal, assim como não existe na língua e no sujeito do inconsciente, estruturado pela língua, a completude que se espera e se busca.

Conforme Orlandi, o discurso tomado como objeto de estudo na AD deve ser entendido como um processo que se dá sobre a língua, como base, na contingência de uma memória (interdiscurso) e de uma atualidade (o acontecimento, movimento da sua produção material). Ou, em outras palavras, o encontro de uma estrutura com o seu acontecimento – a língua e a organização estrutural-ideológica do interdiscurso com o acontecimento enunciativo-discursivo – desencadeador da ruptura/do novo, abertura para a evidência da falta, do lapso e do investimento ideológico do sujeito que se inscreve e se dispersa no discurso, enunciando e sendo enunciado, a partir do que já foi dito e colocando a possibilidade, sobre o mesmo, de outros dizeres.

Segundo Orlandi, a AD articula o linguístico ao sócio-histórico-ideológico, pondo a linguagem na relação com os modos de produção social. Como já citamos anteriormente, “não há discurso sem sujeito, nem sujeito sem ideologia”. Há, entre os diferentes modos de produção social, um modo de produção social especifico que é o simbólico. Há, pois, práticas simbólicas significando (produzindo) o real. A materialidade do simbólico assim concebido é o discurso, pontua Orlandi.

É importante colocar ainda que Orlandi em seu texto Tipologia do discurso e regras conversacionais, faz uma reflexão acerca de algumas posturas linguísticas e enfatiza sua crítica àquilo que ela denomina de “tropeços da linguística”. E quais seriam esses tropeços? Conforme a autora postula:

1. A centralização polarizada, seja na hegemonia do EU ou na tirania do TU, que trata insuficientemente a questão da subjetividade.

2. A abordagem que atribui à linguagem o papel de representação informativa, verdadeira e transparente do mundo.

A autora sustenta que, quanto à hegemonia do EU e/ou a tirania do TU, “Não é só de Benveniste essa posição, ela pode ser vista através de toda a teoria da enunciação”. Já sobre o segundo “tropeço”, é um problema que persegue a tradição linguística (análise de conteúdo) e especialmente se destaca na perspectiva da semântica formal. A AD busca superar estes e outros problemas/lacunas na investigação acerca da linguagem, do sujeito e dos sentidos.

Podemos resumir a AD em três proposições:
1. Ela realiza o fechamento de um espaço discursivo no próprio momento da análise;

2. Ela supõe um procedimento linguístico de determinação das relações inerentes ao texto onde se deve operar a materialidade linguística; e

3. Ela produz no discurso uma relação do linguístico com o exterior da língua – há duas instâncias que são a garantia de todos os dizeres: a paráfrase é a base da reprodução (o mesmo) e a polissemia (como o novo sobre o mesmo, a ressignificação).