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A debreagem e embreagem na Linguística


No discurso, encontramos três categorias enunciativas que são: pessoa, espaço e tempo. Isso ocorre por meio de um procedimento chamado debreagem. Ele trata da “expulsão fora da instância da enunciação da pessoa, do espaço e do tempo do enunciado”, segundo pontua Fiorin.

Apresenta e discute também outro mecanismo, a embreagem, que é o “efeito de retorno à enunciação, produzido pela neutralização das categorias de pessoa-espaço-tempo, assim como pela denegação da instância do enunciado”, pontua Fiorin.


A linguagem, entretanto, não é objetiva e nem linear. O sujeitos ao falarem, atualizam-na, empregando diferentes formas e criando variados efeitos de sentido. Esse eixo intradiscursivo não foge a essa regra; e por sua carga de subjetividade determinada pela ligação à enunciação possibilita um intenso trabalho de trocas, as quais Fiorin chama de embreagem.

Fiorin, citando Greimas e Courtés, afirma que a embreagem “desreferencializa o enunciado que ela afeta” porque nela, o termo usado no enunciado não é o que corresponde convencionalmente à pessoa da enunciação. O autor explica isso por meio do exemplo “quando se usa uma terceira pessoa no lugar de uma segunda, é como se o interlocutor não falasse com o interlocutário, mas com outros sobre ele. Dessa forma desreferencializa-se a instância do tu”.

Segundo Fiorin, “com o conceito de embreagem, podemos explicar as instabilidades nas categorias de pessoa, de tempo e de espaço”. No caso da categoria de pessoa, a embreagem permite utilizar qualquer pessoa no lugar de outra, criando efeitos de objetividade e subjetividade.

No caso da categoria de espaço, troca-se o espaço do enunciador pelo do enunciatário e vice-versa, criando efeito de aproximação e distanciamento. Em relação à categoria de tempo, o enunciador pode efetuar trocas com os tempos verbais criando efeitos de presentificação, anterioridade e posterioridade. 

Para compreender o processo da debreagem, parte-se do seguinte princípio: a pessoa, o tempo e o espaço da enunciação referem-se a um eu, um aqui e um agora, que podem ser recuperados no enunciado.

A debreagem tem como princípio no enunciado estabelecer o EU, o AQUI e o AGORA (ego, hic e nunc). Quando encontramos no texto essas marcas, chamamos, então, de instância da enunciação, temos um texto enunciativo, em que ocorreu uma debreagem enunciativa.

Quando são ausentes essas marcas (eu, aqui e o agora), existindo outras que são um não-eu (ele), um não-aqui (alhures) e um não-agora (então), tem-se um texto enuncivo, a partir de uma debreagem enunciva.

Fiorin ressalta que, “com as debreagens enunciativas e enuncivas criamos a ilusão de que as pessoas, os espaços e os tempos inscritos na linguagem são decalques das pessoas, dos tempos e dos espaços do mundo”.

RECAPITULANDO
No discurso, encontramos três categorias enunciativas que são:
– pessoa, espaço e tempo – ego, hic e nunc.
EU - AQUI - AGORA – debreagem enunciativa
ELE - ALHURES - ENTÃO – debreagem enunciva

Debreagem enunciativa: quando encontramos no texto um EU, AQUI e AGORA.

Debreagem enunciva: quando encontramos ELE, ALHURES e ENTÃO.

De qualquer forma, por meio da debreagem, são acessados três procedimentos básicos pelos quais, segundo Greimas e Courtés, a enunciação ocorre:

a actorialização, a espacialização e a temporalização,
actancial - espacial - temporal

a) debreagem actancial:
A debreagem actancial refere-se à projeção, no enunciado, dos actantes da enunciação eu (que fala) e tu (para quem se fala);

Ou seja a debreagem actancial ocorre quando encontramos um eu (que fala) um tu (para quem se fala) tem-se uma debreagem actancial enunciativa. Quando oculto, encontraremos o enunciado, o ele (que não fala/sobre quem se fala) sendo então uma debreagem actancial enunciva.

Exmplo:
(1) Tenho fome.

o actante da enunciação eu é debreado enunciativamente, mesmo que de forma implícita (sem a utilização do pronome), sendo recuperado pela desinência número-pessoal do verbo ter, conjugado na primeira pessoa do singular.

(2) Pedro tem fome.

oculta-se o actante da enunciação, sendo debreado enuncivamente o actante do enunciado, um ele, figurativizado com o nome Pedro. Nesse caso, a configuração discursiva segue a normas de regência, com o verbo ter conjugado em terceira pessoa do singular.

b) debreagem espacial
Na debreagem espacial encontramos a instalação dos espaços da enunciação no enunciado. Será considerada uma debreagem espacial enunciativa quando encontrarmos um aqui como espaço em que se insere o actante da enunciação.

Quando o espaço não é o aqui encontramos então o alhures, onde se produz o enunciado, caracteriza uma debreagem espacial enunciva.

Exemplo:
(3) A conferência será nesta sala.

Em (3), o espaço é debreado pelo emprego do demonstrativo nesta, que remete a um aqui, onde acontece a enunciação.

(4) O presidente está em sua sala.

Em (4), ao contrário, o espaço não é determinado, podendo ser qualquer lugar, qualquer outro espaço em que não está presente o enunciador.

Contudo, cabe lembrar, como o faz Fiorin, que todo espaço que mantenha relação com o aqui é enunciativo: por exemplo, o lá mantém relação de distanciamento do espaço da enunciação, mas permite a recuperação desse espaço (se eu digo lá, é porque estou aqui).

b) debreagem temporal
Por fim, a debreagem temporal, define a disposição das coordenadas temporais no enunciado; são enunciativos os tempos ordenados em relação ao agora da enunciação.

Mesmo que o tu não seja explicitado no enunciado, sua presença é recuperada em virtude da relação complementar eu/tu: a enunciação de eu pressupõe a enunciação de tu (um dirige seu discurso ao outro).

(5) Agora, eu sei como agir.

Em (5), tem-se uma debreagem temporal enunciativa, pois o tempo determinado é o da enunciação, o agora, explícito no enunciado, e corroborado pelo verbo saber conjugado no presente do indicativo.

(6) Naquela época, eu menti.
Já em (6), a debreagem temporal é enunciva, pois naquela época indetermina o tempo do enunciado, que é diferente do da enunciação.

(7) Falei com ela ontem.

(8) Amanhã, teremos uma reunião.

Finalmente, em (7) e (8), embora falei e teremos denotem, respectivamente, ideias de passado e futuro, constituem tempos ordenados em relação ao agora da enunciação e, portanto, caracterizam debreagens temporais enunciativas.