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A AD francesa e os estudos enunciativo-discursivos



Sobre a enunciação, pragmática, argumentação e discurso, Orlandi afirma que esses campos do conhecimento se cruzam constantemente no texto, e se referem à parte exterior, contudo há uma distinção entre os fatos e os métodos e teorias. O que há em comum entre esses campos do conhecimento ocorre em relação aos fatos, pois todos eles consideram a linguagem como objeto de estudo. Já as diferenças recaem sobre como concebem o sujeito e como definem o exterior, o que acaba por marcar as diferenças teóricas nos processos de análise. Essas diferenças estão marcadas na concepção do sujeito:

- na AD o sujeito é linguístico-histórico (constituído pelo esquecimento e pela ideologia);

- na enunciação, o sujeito tem origem em si (um EU em relação a um TU), ora a partir do subjetivismo individualista (psíquico), ora do objetivismo abstrato (categorias gramaticais);

- na pragmática, o sujeito se constitui no exterior da linguagem, mas o exterior é o fora e não o interdiscurso, como o é na AD. A linguagem é ação promovida por sujeitos;

- na argumentação o sujeito é psicossocial.

Para Eni Orlandi, a diferença está na própria língua, na qual o sujeito se constitui de falhas e a ideologia se constitui tanto de sujeitos como da produção dos sentidos. É com base nas teorias da formação discursiva, formação imaginária e formação ideológica que se pretende encontrar no acontecimento enunciativo-discursivo (do texto) essa relação de língua, sujeito e ideologia na produção de sentidos, e essa produção de sentidos se fazendo em contato com o já dito e com o que ainda se tem a dizer.

É desse ponto de vista que se deve tomar a noção de discurso, um conceito que não tem uma única definição, mas que devemos entender como a parte mais abstrata de análise, uma vez que o texto é a materialidade dele. Portanto, o discurso encontra-se na instância da enunciação, ou seja, no processo e não no produto da comunicação humana.

Nessa perspectiva, o discurso pressupõe sujeitos inscritos em estratégias de interlocução, em posições sociais ou em circunstâncias históricas. Assim, analisar o discurso não é como fazer análise de um texto do ponto de vista gramatical, ou lexical, ou mesmo semântico. É preciso ir além disso: é necessário verificar, em primeiro lugar, a cena enunciativa.

A linguagem é concebida como forma de ação, em que os sujeitos interagem por meio do texto, mas se manifestam de acordo com o lugar do qual falam. Esse lugar não é físico, geográfico, mas um espaço de enunciação em que o sujeito se constitui de acordo com as regras determinadas por ele. Essa forma de analisar a linguagem está abrigada nas teorias pragmáticas, que consideram a língua em seu uso efetivo.

Essa visão da língua tem origem nas reflexões de Benveniste, as quais defendem que o sujeito da enunciação verbaliza ações, como prometer, permitir, batizar, interrogar, informar etc. E esses atos estão relacionados a um modo de dizer que se constitui pelo espaço enunciativo, ou seja, o eu fala para um tu, de um lugar e em um determinado tempo, elementos que definem uma cena enunciativa:

Eu Tu
Aqui
Agora

O lugar, como já fora dito, não é físico, é uma prática social. É como se fôssemos personagens representando papéis em determinados cenários. Essa encenação ou “cenografia” determina as condições e produção do discurso e está relacionada a uma prática. Por exemplo, uma mesma pessoa pode falar do lugar de pai, ou de médico, ou de cliente, ou de eleitor etc., de acordo com cada prática social do mesmo indivíduo.



Assim, o sujeito não é a pessoa, o homem no mundo, mas ele se constitui conforme a prática discursiva em que se circunscreve. Para tanto, partimos da noção de formação discursiva, de Foucault, para quem o sujeito, ao mesmo tempo em que se constitui em seu discurso, é assujeitado pela instituição social que representa. O eu dirige-se ao tu de acordo com a convenção social do discurso, quer dizer, ele fala conforme as condições de produção que cerceiam a prática discursiva.

Para a AD (análise do discurso de linha francesa), o discurso é um campo de regularidades, no qual várias posições de subjetividade podem manifestar-se, e o sujeito constitui-se nesse campo. Com o intuito de ilustrar, pensemos em um jogo de futebol e nas regras que há nele. Cada jogador, em sua posição, deve respeitar as regras, senão sofrerá a sanção dada pelo árbitro.

É assim que podemos verificar, por exemplo, que um mesmo fato pode ser noticiado de maneiras diferentes. Se procurarmos textos em jornais de um mesmo dia de publicação, observaremos que cada jornal tem um discurso diferente, e o jornalista elabora seu texto de acordo com essa formação discursiva, que é uma espécie de “contrato” entre os indivíduos pertencentes a uma mesma prática.

Devemos lembrar, ainda, que todo discurso é investido de ideologia, isto é, todo discurso é investido de valores sociais de determinados grupos. Conforme Bakhtin, todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (...). O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico.

A cena enunciativa consiste no sujeito que se encontra em uma comunidade discursiva, que, por sua vez, tem uma formação discursiva; e esse sujeito constitui-se em seu espaço e assume a voz da ideologia do grupo que representa.

O enunciado, segundo Bakhtin, funde-se entre a materialidade do signo, a comunidade e a extensão de sentido. O discurso é a estratégia de como dizer o que se pretende, daí seu caráter ideológico.

É necessário, ainda, analisar as múltiplas vozes que se encontram cruzadas no interior de um discurso, tendo em vista que o sujeito assume o “papel” de representar o “que se quer dizer” por meio do “como se diz”, o que significa que o locutor expressa-se pela voz de enunciador(es) em uma alteridade, em que o outro está na voz do eu.

Desse modo, há o que Bakhtin denomina “horizonte ideológico”, que permeia e orienta a construção do discurso, e há, ainda, um diálogo entre textos, que pressupõe um contexto histórico-social no qual se situam os sujeitos produtores e receptores da mensagem produzida e formalizada em língua.

Por exemplo, a formação discursiva do enunciador de uma charge pressupõe uma avaliação implícita no texto produzido em dado contexto. É um texto opinativo, em que se encontra normalmente um tema do cotidiano, sobre o qual há um julgamento implícito na organização textual. Para tanto, há investimento ideológico da linguagem utilizada, permitindo usualmente o entrecruzar de diferentes formações discursivas que por estarem em embate, oposição, assimetria ideológica, produzem os sentidos do humor, sátira, ironia e até non sense: vejam-se as charges que comumente contrastam formações discursivas como política/corrupção; religião/sexualidade/fanatismo-religioso; feminismo/machismo; fama/anonimato-artístico; profissionalismo e oportunismo etc. Os estudos do texto e do discurso entendem que o discurso é uma prática social que está em interdiscursividade com outros campos discursivos e que o texto é um tecido de vozes e de intertextos.

À medida que o “eu” enuncia, dirige-se ao tu, há interação. O enunciador fala de um lugar determinado, instaurado pela prática social discursiva, dentro da qual assume um determinado papel. As condições de interação “eu/tu” é, como qualquer uso da linguagem, expressão de ideologia(s). Os gêneros do discurso determinam essas condições de produção do texto para a manifestação do(s) discurso(s).

O sujeito enunciador representa uma heterogeneidade de vozes no interior do texto, e esta pode ser tanto “manifesta” (explícita) quanto “constitutiva” (implícita), compreendendo-se a primeira como a que é citada, isto é, traz marcas explícitas de outro(s) enunciador(es), ao passo que a segunda é interdiscursiva e/ou intertextual, isto é, relaciona-se às ideias e não à expressão linguística de outro(s) texto(s)/discurso(s).

A “heterogeneidade manifesta” apresenta-se nas manifestações explícitas, que podem ser recuperadas a partir de várias fontes de enunciação. Entre essas manifestações está a intertextualidade, definida por Maingueneau como o tipo de citação que uma formação discursiva determina como legítima, por meio de sua própria prática social. Assim, uma formação discursiva é entendida como “o que se pode e deve dizer” em um determinado tipo de discurso.

O mesmo autor diferencia a intertextualidade da interdiscursividade. A primeira é situada pelos intertextos, enquanto a segunda situa-se na relação interdiscursos. É preciso, ainda, relacionar essa intertextualidade e/ou interdiscursividade à noção de polifonia. Para tanto, deve-se retomar a teoria de Ducrot, que postulou a necessidade de se diferenciar locutor de enunciador, devido às múltiplas vozes existentes em um discurso.

Ducrot formula a sua teoria polifônica tendo em vista o conceito de polifonia de Bakhtin, que o autor transpõe para o nível linguístico, na perspectiva da semântica da enunciação, e mostra que em A polifonia é, portanto, a incorporação das vozes de outros enunciadores, isto é, do(s) interlocutor(es), terceiro(s), a opinião pública em geral ou o senso comum. Tal incorporação é feita no próprio discurso, de modo a se apresentar como o coro de vozes que se manifesta em cada discurso, na medida em que o pensamento do outro é constitutivo do eu. Logo, a produção de sentidos está condicionada pela alteridade.

É assim que a polifonia pode estar relacionada tanto à intertextualidade implícita quanto à explícita. A refuta é uma forma de negação, diferenciada por Brandão em formal e semântica. Quanto à primeira, trata-se de uma forma explícita de negação, ao passo que a segunda se faz de forma implícita.

Ela acrescenta, ainda, a noção postulada por Ducrot, que diferencia negação polêmica da descritiva: a primeira, como a que marca sempre uma atitude de oposição em relação a um enunciado positivo, sendo, dessa forma, de uma modalidade de julgamento; já a segunda corresponde a uma descrição de um estado de coisas, em que não há julgamento.



Reveja agora os principais aspectos dos estudos enunciativos trabalhados:

Mikhail Bakhtin
- Subjetivismo individualista X objetivismo abstrato:

A consciência subjetiva do locutor não se utiliza da língua como de um sistema de formas normativas. Tal sistema é uma mera abstração, produzida com dificuldade por procedimentos cognitivos bem determinados. O sistema linguístico é o produto de uma reflexão sobre a língua, reflexão que não procede da consciência do locutor nativo e que não serve aos propósitos imediatos da comunicação. Na realidade, o locutor serve-se da língua para suas necessidades enunciativas concretas (para o locutor, a construção da língua está orientada no sentido da enunciação da fala).

- Legou-nos uma importante trilha de reflexões a respeito da polifonia e da enunciação, defendendo o dialogismo constitutivo da linguagem e a natureza social da enunciação;

- A enunciação é o produto da interação dos indivíduos socialmente organizados e, ainda que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor;

- O termo “diálogo” deve ser entendido num sentido amplo, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas como toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja;

- Existe uma variedade de gêneros mais difundidos na vida cotidiana, tão cristalizados (padronizadas) que a expressão individual do locutor praticamente só pode manifestar-se apenas na escolha do gênero;

- As palavras não são de ninguém, estão a serviço de qualquer locutor e de qualquer juízo de valor, e podem mesmo ser totalmente diferentes, até mesmo contrárias;

- Em relação às fórmulas estereotipadas da vida corrente, os sistemas ideológicos constituídos da moral social, da ciência, da arte e da religião cristalizam-se a partir da ideologia do cotidiano, exercem por sua vez sobre esta uma forte influência e dão assim normalmente o tom a essa ideologia;

- Os esquemas linguísticos dos discursos direto, indireto e indireto livre, juntamente com suas modificações e suas variantes são encontrados na língua e servem como transmissores das enunciações de outrem;

- Conceitos importantes que contribuem com os estudos enunciativo-discursivos: a variação linguística, funcional, discursiva; a reversibilidade discursiva (e intersubjetiva); a construção dos interlocutores no diálogo; o jogo de imagens; os simulacros e as avaliações entre eles; a questão da competência dos sujeitos da comunicação.

Emile Benveniste



- Na enunciação, a subjetividade da linguagem se funde na ação do próprio ato de linguagem, sendo este individual, mas que convoca o “outro/tu” para dentro da enunciação;

- A enunciação coloca em funcionamento a língua por um ato individual de utilização, por parte de um locutor que mobiliza a língua por sua conta: é o ato mesmo de produzir um enunciado;

- A enunciação se caracteriza pela realização vocal da língua, supõe a conversão individual da língua em discurso (a semantização da língua) e apresenta caracteres formais próprios a partir da manifestação individual que ela atualiza;

- A mobilização e apropriação da língua são, para o locutor, a obrigatoriedade de referir pelo discurso e para o outro: “a referência é parte integrante da enunciação”;

- A emergência dos índices de pessoa (EU/TU) só se produz por meio da enunciação, ou seja, o presente é propriamente a origem do tempo;

- A enunciação cria entidades na rede de indivíduos em relação ao “aqui-agora do locutor;

- Três aspectos importantes:

a) realização vocal da língua, na qual os sons emitidos procedem de atos individuais com relação à produção nativa e sofrem interferência pela diversidade das situações, nas quais a enunciação é produzida;

b) semantização da língua, que conduz à teoria do signo e a análise da significância;

c) os caracteres formais da enunciação, a apropriação da língua pelo locutor através da correferenciação e no consenso pragmático;

- A relação discursiva da enunciação dá-se com os receptores reais ou imaginários, individuais ou coletivos, baseando-se no quadro figurativo da enunciação.



Oswald Ducrot
- Desenvolve mais sistematicamente a teoria polifônica da enunciação, sendo este passo significativo no sentido de romper com a unicidade do sujeito falante;

- Conduz uma reflexão crítica sobre a postura tradicional de algumas linhas teóricas da linguística que concebem a linguagem como monológica e o sujeito como unicentrado;

- Sua teoria polifônica da linguagem desconstrói o postulado teórico acerca do sujeito unicentrado;

- Estabelece a distinção entre os conceitos de frase (objeto teórico) e enunciado (fato empírico observável no mundo). A descrição do conceito de enunciação tem três acepções: enunciação (atividade), enunciação (produto), enunciação (acontecimento). É com a última concepção (mais completa) que o autor se coaduna em sua teoria;

- Sobre os conceitos de sentido e significado, o sentido diz respeito à enunciação e o significado diz respeito à frase. Na enunciação, o sentido tem natureza instrucional a partir das “variáveis argumentativas”;

- A concepção polifônica do sentido mostra como o enunciado assinala, em sua enunciação, a sobreposição de diferentes vozes. Tal qual uma cena de teatro em que se configuram diferentes personagens que dialogam entre si, há uma apresentação de diferentes vozes, de vários pontos de vista, e o locutor tem como função provocar seu aparecimento e mostrá-los dentro do enunciado: a esses diferentes pontos de vista o autor vai chamar de enunciadores;

- Aponta quatro diferentes funções enunciativas para melhor identificar a multiplicidade de vozes presentes na enunciação:

— o sujeito empírico – SE: que é o autor efetivo, agente da reprodução de discursos já escutados ou lidos. O ser empírico que preenche o lugar de sujeito;

— o locutor – L: que é o responsável presumido pelo enunciado a quem se atribui a responsabilidade pelo mesmo, responsável, inclusive pelo ato praticado e não pelo conteúdo proposicional.

(marcas em primeira pessoa);

— o locutor – LP: que é o locutor-enquanto-pessoa-no-mundo, aquele que serve de suporte para determinadas predicações;

— os enunciadores – E1, E2,...: que são os vários pontos de vista que podem ser percebidos em um mesmo enunciado.

- Apagada a mediação do sujeito empírico na enunciação, as figuras enunciativas (SE, L, E1, E2...) dão lugar à multiplicidade de sujeitos.

Eduardo Guimarães
- Distancia-se da visão de Benveniste que concebe a enunciação como uma atividade do locutor em produzir um enunciado e que considera o sujeito da enunciação como uno, único e onipotente em relação ao seu próprio dizer e à língua da qual esse sujeito se apropria para dizer algo;

- Mantém que no enunciado há a representação de diferentes papéis do locutor. “as personagens se constroem na medida em que se representa uma diante da outra”, aponta Guimarães;

- Explicita que a dupla falante/ouvinte apenas caracteriza os agentes físico-fisiológicos de falar e ouvir, de modo que não dizem respeito ao linguístico e, portanto, não se incluem como objeto da semântica;

- As figuras/personagens da enunciação linguisticamente consideradas são: locutor/alocutário e enunciador/destinatário.

O locutor aquele que se representa com eu na enunciação, representando-se, internamente ao discurso, como responsável pela enunciação em que ocorre o enunciado. O locutor é uma figura constituída internamente ao discurso e marcada no texto pelas formas do paradigma do EU.

O alocutário é o TU do discurso, representado enquanto correlato do locutor pelo próprio locutor;

- Na representação do locutor podemos distinguir dois papéis, L e Lp. O Locutor-L é aquele que simplesmente se representa como fonte do dizer. O Locutor-Lp é o locutor-enquanto-pessoa-no-mundo.

O locutor-enquanto-pessoa-no-mundo deve ser caracterizado sócio-historicamente e isso já se constitui num deslocamento que o autor faz em relação a Ducrot, para quem o Lp é apenas mais uma figura representativa das funções enunciativas que ele descreve;

- Respectivamente ao locutor L há o alocutário AL e ao locutorenquanto-pessoa-no-mundo há o alocutário-enquanto-pessoa (ALp), reflete Guimarães;

- Há ainda o nível da relação entre enunciador e destinatário para fechar o quadro polifônico da enunciação. O enunciador é a posição do sujeito que estabelece a perspectiva da enunciação. O destinatário é o correlato constituído segundo a perspectiva do enunciador;

- Procura caracterizar uma cena enunciativa no texto que cruza as representações da enunciação (L, Lp, E) e como estas representações relacionam-se com as de alocutário e destinatário representando a alteridade na enunciação;

- As categorias de análise mencionadas são inspiradas, na teoria polifônica da enunciação de Ducrot, mas o autor enfatiza seu afastamento quanto ao apego à posição estruturalista manifestado por Ducrot;

- A enunciação constitui historicamente as regularidades da língua que estão sempre abertas ao efeito do episódio enunciativo.

É possível constatar a importância delas para a AD. Ao analisarmos um discurso, partimos da interpretação que se estabelece mais centralizadamente, mas sem deixar de ver outros lugares de interpretação possíveis, pois todo enunciado, ou toda sequência de enunciados é linguisticamente descritível como uma cadeia de pontos à deriva possíveis, que oferecem lugar à interpretação.

Dentre muitos conceitos, aquele que se caracteriza como um dos mais relevantes e que nos possibilitaria a aproximação com as discussões bakhtinianas sobre polifonia e heterogeneidade na linguagem é o de interdiscursividade – a complexa configuração interdependente de formações discursivas. A prevalência do interdiscurso, no constante jogo do mesmo e do diferente (paráfrase e polissemia), é a grande descoberta da escola francesa, recuperada nas reflexões da filosofia da linguagem marxista russa e desenvolvida num pensamento pós-estruturalista.


Enunciação processo de reformulação de um enunciado através do qual ele é posto em funcionamento, surgindo como uma de suas possíveis formas de atualização. Os processos de enunciação consistem em uma série de determinações sucessivas, pelas quais o enunciado se constitui pouco a pouco e que têm como característica colocar o “dito” e, em consequência, rejeitar o não-dito, segundo Ferreira.

Enunciado unidade constitutiva do discurso que nunca se repete da mesma maneira (ver paráfrase e polissemia), já que a sua função enunciativa muda de acordo com as condições de produção. É a partir dos enunciados, portanto, que podemos identificar as diferentes posições assumidas pelo sujeito no discurso, aponta Ferreira.

A análise do discurso critica ainda algumas tipologias e “regras conversacionais” propostas em outras teorias por tratarem insuficientemente a questão da subjetividade e do sentido na linguagem. Uma posição teórica que aparece nitidamente criticada no texto por seu reducionismo diz respeito às teorias pragmáticas, em relação às regras de discurso a partir das máximas conversacionais: princípio de cooperatividade, quantidade, qualidade, relevância, modo etc.

Para finalizar esta discussão você acompanhou a retomada de alguns conceitos importante que a AD considera em suas análises. É importante mencionar os conceitos: discurso, sujeito, enunciado/enunciação, cena enunciativa, polifonia, interdiscursividade, heterogeneidade, argumentação.