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Tipologia discursiva: lúdica, polêmica e autoritária


Adam estabeleceu sete possíveis tipologias construídas sobre importantes aportes teóricos dos estudos da linguagem:

1. As tipologias discursivas e situacionais – da AD francesa, cujo papel preponderante reside nas formações discursivas.

2. As tipologias baseadas nos gêneros de discurso – fundamentadas nos gêneros discursivos literários e sociais de base interacional.

3. As tipologias baseadas nos objetivos da enunciação – classificadas em cima das funções da linguagem (Buhler, Jakobson) ou dos atos de fala (Austin, Searle).

4. As tipologias de base enunciativa – deduzidas da relação discurso-relato (Benveniste, Bakhtin).

5. As tipologias de base temática – instauradas em critérios semânticos: textos ficcionais e não ficcionais.

6. As tipologias de base textual – baseadas em critérios pragmáticos e proposicionais, buscam a globalidade dos textos em sua instância de ocorrência.

7. As tipologias de base sequencial – discriminam em princípio não tipos, mas protótipos de sequências coerentes.

Sobre as tipologias e suas relações com entre os discursos, Orlandi aponta os diferentes critérios que constituem as tipologias na análise do discurso. Essas tipologias compreendem categorizações distintas que é interessante explicitar de início para evitar confusões futuras e para uma melhor compreensão da proposta.

Entenda que, em geral, tomamos por tipo diferentes tratamentos do discurso (jornalístico, político, religioso, etc.) que ainda se dividem em variáveis (como terapêutico, didático, etc.), em disciplinas (histórico, sociológico, etc.), em estilos (barroco, renascentista, etc.), em gêneros (narrativa, descrição, etc.) entre muitos outros.

Para simplificar, tomemos uma forma rápida de reconhecimento dessas categorizações principais relativas à distinção e designação das tipologias discursivas. Considere-se:

1 Tipos: lúdico, polêmico, autoritário;

2 Gêneros: carta, outdoor, depoimento policial, classificados, e-mail, telefonema, telegrama, pronunciamento parlamentar, receita culinária, sinopse de filme, cordel, história em quadrinho, propaganda, editorial, ensaio científico etc.;

3 Domínios discursivos: jurídico, político, religioso, sindical, midiático, feminista, sexista, pornográfico, cinematográfico, artístico, literário, humorístico, senso comum etc.

Conforme Orlandi “a noção de tipo é necessária como princípio de classificação para o estudo do uso da linguagem, ou seja, do discurso”. Para se trabalhar a variação no campo do discurso, a noção de tipo é um aparato metodológico de classificação no trato da análise dos textos.

Essa classificação tipológica relaciona-se aos objetivos da análise que estiver sendo feita em função do recorte (discursivo) de linguagem que seja o objeto da análise. Portanto, a sua aplicação é relativa a estas condições, podendo ter maior ou menor generalidade. Conforme Orlandi, ao analisar o discurso pedagógico, estabeleci uma tipologia que não derivava de critérios presos diretamente à noção de instituição, ou seja, a normas institucionais, como é definido o discurso religioso em relação ao jornalístico, jurídico etc. Também não me interessava uma distinção cujo critério fosse as diferenças entre os domínios de conhecimento como os que existem entre discurso científico, discurso literário, discurso teórico etc.

Interessava-me características que já estivessem pressupostas no interior de cada um desses tipos. Por outro lado, ainda que possuindo certo grau de generalidade, não me atraía a distinção de tipos como dissertação, descrição, narração, conquanto partissem de características formais, estruturais etc.

Além do nível de generalidade da tipologia que eu procurava, interessava-me sua dimensão histórica e seu funcionamento social, enquanto capaz de absorver o conceito de interação. Para o trabalho do analista, essa tipologia pode ser útil, mas o mais importante, o que interessa, são as propriedades internas ao seu processo discursivo, condições de produção, remissão a formações discursivas e modo de funcionamento.

Nesse sentido, para a autora, a tipologia discursiva poderá dar conta da relação linguagem contexto, pensando o contexto em seu sentido imediato (situação de interlocução) e no sentido amplo (determinação sócio-histórico-ideológica). Portanto, essa tipologia trata a linguagem a partir de suas condições de produção.

Observe que em função da tipologia discursiva estar pautada na variação inerente à linguagem e as suas condições de produção, nessa mesma linha, ela está vinculada também a outros dois níveis de variação: a de sujeitos (reversibilidade e interação) e a de sentidos (polissemia). Conforme Orlandi, um tipo de discurso resulta do funcionamento discursivo [domínio], sendo este último definido como atividade estruturante de um discurso determinado, para um interlocutor determinado, com finalidades específicas.

Observando-se sempre que esse determinado não se refere nem ao número, nem à pessoa física, ou à situação objetiva dos interlocutores como pode ser descrita pela sociologia. Trata-se das formações imaginárias, de representações, ou seja, da posição dos sujeitos no discurso. [...] Vemos isso através do meio social que nos rodeia. Pressupomos certa esfera social típica e estabilizada para a qual se orienta a criatividade ideológica [polissemia] de nossa própria época e grupo social. [...] Consideramos, além disso, que a atividade de dizer é tipificante: todo falante quando diz algo a alguém estabelece uma configuração para seu discurso [que se define na própria interação]. [...] Porém, enquanto resultados, enquanto produtos, os tipos são cristalizações de funcionamentos discursivos [domínios] distintos. Há, pois, relação entre a atividade e produto do dizer e assim os tipos passam a fazer parte das condições de produção do discurso.

Feitos estes esclarecimentos, Orlandi apresenta a distinção tipológica que servirá de base à AD: discurso lúdico, discurso polêmico e discurso autoritário. Conforme a autora, os critérios para o estabelecimento desta tipologia derivam de características já enfatizadas acima: a interação (reversibilidade) e a polissemia.

A interação leva em conta a maneira como os interlocutores se consideram, através das relações imaginárias entre eles (relações de força e de antecipação). Nesse sentido, entra de forma importante. O critério da reversibilidade que determina a dinâmica da interação no interior do discurso: “segundo o grau de reversibilidade, haverá uma maior ou menor troca de papéis entre locutor e ouvinte, no discurso”, enfatiza Orlandi.

A polissemia tem a ver com a relação dos interlocutores com o objeto de discurso (o assunto, o tema, a informação). “O objeto de discurso é mantido como tal e os interlocutores se expõem a ele; ou está encoberto pelo dizer e o falante o domina; ou se constitui na disputa entre os interlocutores que o procuram dominar.” (ORLANDI, 2006a, p. 154). Desse funcionamento deriva a polissemia. Pode haver uma maior ou menor carga de polissemia a depender dessa forma de funcionamento e por isso temos os tipos de discurso organizados em função desses dois critérios (interação e polissemia).

Em outras palavras, Orlandi estabelece um critério para distinguir diferentes modos organizacionais de funcionamento tipológico do discurso:

Discurso autoritário
A polissemia é contida, o locutor apaga sua relação com o interlocutor. A troca de papéis tende a ser zero, o objeto do discurso está oculto pelo dizer, centralizando um locutor exclusivo. “O exagero é a ordem no sentido militar, isto é, o assujeitamento ao comando”;

Discurso polêmico
A polissemia é controlada, a relação de disputa pelos sentidos é tensa entre os interlocutores. A troca de papéis entre os interlocutores acontece sob certas condições direcionadas pelos interlocutores. “O exagero é a injúria”;

Discurso lúdico
A polissemia está aberta, os interlocutores se expõem aos efeitos dessa presença, não regulando sua relação com os sentidos. A troca de papéis é plena entre os interlocutores: “O exagero é o non sense”.

É essencial lembrar que estes critérios citados não devem ser tidos como juízos de valor, é apenas uma descrição do funcionamento discursivo, em relação às suas determinações históricas, sociais e ideológicas.

Como já foi falado, essas tipologias não são o mais importante na análise do discurso, elas são internas ao funcionamento do próprio discurso, e também não se tem dentro do discurso uma tipologia pura, e sim misturas. Elas servem mais para reconhecer os traços formais que caracterizam o discurso.

Orlandi sustenta que o discurso lúdico é o contraponto entre os outros dois porque em nossa sociedade o lúdico representa o desejável, ou seja, o prazer, o encantamento no uso da linguagem, contrastados fortemente com os usos da linguagem voltados para objetivos imediatos, práticos, hierárquicos etc., como ocorre nos discursos polêmico e autoritário. Assim, não há lugar para o lúdico em nossa sociedade, pois o lúdico é a ruptura, o desvio.

Sobre o valor de verdade da informação veiculado no discurso, ou seja, a sua função referencial,

a) no lúdico, temos a carga informacional com valor menos relevante. Em seu funcionamento polissêmico e interacional interessam mais o seu caráter poético e fático, não a sua referencialidade informacional, pois até o “non sense” é possível.

b) no polêmico, a referencialidade informacional é importante e respeitada: a verdade é disputada pelos sujeitos interlocutores;

c) no autoritário, a relação com a verdade é assimétrica, hierárquica, ou seja, determinada pelo locutor (de cima para baixo): a verdade é imposta.

Conforme Orlandi, “em relação à tensão entre os dois grandes processos – a paráfrase (o mesmo) e a polissemia (o diferente) – que consideramos ser o fundamento da linguagem, diríamos que o discurso lúdico é o polo da polissemia (a multiplicidade de sentidos), o autoritário é o da paráfrase (a permanência do sentido único, ainda que nas diferentes formas) e o polêmico é aquele em que melhor se observa o jogo entre o mesmo e o diferente, entre um e outro sentido, entre paráfrase e polissemia. Dada a tensão, o jogo, entre o processo parafrástico e o polissêmico, que estabelece uma referência para a constituição da tipologia, cada tipo não se define em sua essência, mas como tendência, isto é, o lúdico tende para a polissemia, o autoritário tende para a paráfrase, o polêmico tende para o equilíbrio entre polissemia e paráfrase”.

Entretanto, a autora nos adverte que os tipos de discurso (lúdico, polêmico e autoritário) não existem obrigatoriamente em seu formato homogêneo, puro. Há frequentemente uma mistura de tipos e um jogo de dominâncias entre eles que varia em cada prática discursiva. Para Orlandi, no objeto do discurso há também relações de múltiplas e diferentes naturezas: relações de exclusão, de inclusão, de sustentação mútua, de oposição, migração de elementos de um discurso para o outro etc.

Dessa maneira, é importante analisar o funcionamento discursivo para se reconhecer a dinâmica desses tipos: “às vezes todo o texto é de um tipo, às vezes sequências se alternam em diferentes tipos, outras vezes um tipo é usado em função de outro, outras vezes eles se combinam etc”, descreve Orlandi. Sendo assim, a noção de tipo estável, endurecido categorialmente não funciona para a análise.

Estagná-la metodologicamente significa perder a sua plasticidade, a sua relatividade enquanto matéria de conhecimento. Orlandi busca evidenciar que o trabalho do analista na análise do discurso é procurar as formas materiais discursivas, e não as marcas formais que são pertinentes a uma análise linguística. A análise do discurso se utiliza da linguística numa relação de proximidade, uma vez que ela relaciona em sua análise também aos fatores sociais e históricos, contidos nas ciências sociais.

Para que a análise do discurso aconteça de fato, Pêcheux menciona que a descrição do objeto da linguística, necessária para a interpretação, se dá através do próprio objeto que constitui qual será a materialidade discursiva: é o primeiro passo para a análise. Este processo de interpretação diz respeito à leitura do enunciado que gera a interpretação do outro.

A descrição do enunciado só coloca em jogo as múltiplas possibilidades de interpretação, e estas dependem da relação sócio-histórico-ideológica com o outro. É esse jogo de múltiplas interpretações que se pretende buscar no discurso, através dos textos. Ou seja, como esses seus enunciados podem gerar diferentes significações.

Ainda em relação à tipologia discursiva, Orlandi aponta que considerar a interação como característica fundamental na constituição dos tipos é considera-los essencialmente como modos de ação, como atos de linguagem. Mas não atos em sua natureza pragmática meramente (o ato empírico de ordenar, prometer, pedir, perguntar, dizer). Isto seria por demais reducionista. “O texto equivale a um ato de linguagem na medida em que instaura uma forma de interação”, configurando assim uma prática discursiva.