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Os esquecimentos no discurso e o assujeitamento


O esquecimento é estruturante na produção discursiva, segundo Pêcheux. Há dois tipos de esquecimento no processo enunciativo-discursivo:

Esquecimento ideológico:
Inconsciente – temos a ilusão de ser a origem do que dizemos, quando o que fazemos é retomar sentidos preexistentes (ex. a memória sobre eleições, ditadura, medo etc.).

Esquecimento enunciativo:
Formulação parafrástica ao longo do dizer – ilusão referencial – esquecimento semiconsciente. O sujeito esquece os outros sentidos possíveis. Ao falarmos, fazemos isso de uma forma e não de outra.

Exemplos:
“Vote sem medo”
“Vote com coragem”.

O assujeitamento
Refere-se ao processo de interpelação (chamamento, convocação) dos indivíduos por certa ideologia, em uma relação de identidade com um conjunto de valores de uma prática discursiva ideologicamente determinada pelas condições de produção sociais que envolvem tais indivíduos.

Tais condições são necessárias para que o indivíduo torne-se sujeito do seu discurso ao submeter-se, livremente, às condições de produção impostas pela ordem superior estabelecida em certa prática discursiva, instituída por um aparelho ideológico do estado ao qual esteja vinculada, embora, para esse funcionamento se efetivar, estes indivíduos assujeitados precisam ter a ilusão de autonomia, segundo Orlandi.

Conforme teorizou Althusser, os indivíduos vivem na ideologia, não havendo, portanto, uma separação entre a existência da ideologia e a interpelação do sujeito por ela, o que ocorre é um movimento de dupla constituição: se o sujeito só se constitui por meio do assujeitamento é pelo sujeito que a ideologia torna-se possível, já que, ao entendê-la como prática significante, concebe-se a ideologia como a relação entre sujeito, língua e história na produção dos sentidos.

Sujeito
O indivíduo é convocado como sujeito pela ideologia para que se produza o dizer. Desse ponto de vista, somos sempre já sujeitos e por isso esquecemos o processo de assujeitamento-subordinação que parece realizar-se sob a forma da autonomia, da liberdade, mas na verdade está atravessado pela determinação e domesticação do dizer. Conforme sintetiza Ferreira, o sujeito é resultado da relação com a linguagem e a história, o sujeito do discurso não é totalmente livre, nem totalmente determinado por mecanismos exteriores.

O sujeito é constituído a partir da relação com o outro, nunca sendo fonte única do sentido, tampouco elemento em que se origina o discurso. Ele estabelece uma relação ativa no interior de uma dada FD; assim, como é determinado, ele também a afeta e a determina em sua prática discursiva.

Assim, a incompletude é uma propriedade do sujeito, e a afirmação de sua identidade resultará da constante necessidade de completude, afirma Ferreira. Devemos lembrar que o sujeito discursivo é pensado como “posição”, e não como pessoa física, teoriza Orlandi. Nesse sentido, é que os sujeitos são intercambiáveis. O mesmo indivíduo pode ser assujeitado e produzir sentidos diferentes por meio de diferentes posições subjetivas: padre, pedófilo, partidário político da esquerda neoliberal, torcedor do Corinthians, telespectador, consumidor, paciente etc.

Não se trata de examinar um corpus como se tivesse sido produzido por um determinado sujeito, mas de considerar sua enunciação como o correlato de certa posição sócio-histórica na qual os enunciadores se revelam substituíveis. Assim, nem os textos tomados em sua singularidade, nem os corpora tipologicamente pouco marcados (socialmente historicamente e ideologicamente) dizem respeito verdadeiramente à AD, ressalta Maingueneau.

Ainda sobre o conceito de sujeito, Orlandi acrescenta que o sujeito não se apropria da linguagem num movimento individual. A forma dessa apropriação é social, histórica e ideológica. Nela está refletido o modo como o sujeito é assujeitado, ou seja, sua interpelação pela ideologia. O sujeito também está reproduzido nela, acreditando ser fonte exclusiva de seu discurso quando, na realidade, retoma sentidos preexistentes.

No funcionamento enunciativo, ao invés de falar, ele é falado pela ideologia no discurso. A isso chamamos “ilusão discursiva do sujeito” [...] A seleção que o sujeito faz entre o que diz e o que não diz também é significativa: ao longo do dizer vão-se formando famílias parafrásticas que significam, diz Orlandi.

A autoria, pois, é uma função do sujeito. O autor é o princípio de agrupamento do discurso como unidade e origem. O autor está para o texto como o sujeito está para o discurso. Ao redor do conceito de sujeito orbitam ainda noções como forma-sujeito, posição-sujeito, autor e leitor, que devemos rapidamente revisar agora, a partir do que sintetiza Ferreira:

Forma-sujeito
“É a forma pela qual o sujeito do discurso se identifica com a formação discursiva que o constitui. Essa identificação baseia-se no fato de que os elementos do interdiscurso, ao serem retomados pelo sujeito do discurso, acabam por determiná-lo. Também chamado de sujeito do saber, sujeito universal ou sujeito histórico de uma determinada formação discursiva, a forma-sujeito é responsável pela ilusão de unidade do sujeito”.

Posição-sujeito
“Resultado da relação que se estabelece entre o sujeito do discurso e a forma-sujeito de uma dada formação discursiva. Uma posição-sujeito não é uma realidade física, mas um objeto imaginário, representando no processo discursivo os lugares ocupados pelos sujeitos na estrutura de uma formação social. Desse modo, não há um sujeito único, mas diversas posições-sujeito, as quais estão relacionadas com determinadas formações discursivas e ideológicas”.

Autor
“Uma das posições assumidas pelo sujeito no discurso, sendo ela a mais afetada pela exterioridade (condições sócio-históricas e ideológicas) e pelas exigências de coerência, não contradição e responsabilidade. Ao se converter em autor, o sujeito da enunciação sofre um apagamento no discurso, dividindo-se em diversas posições-sujeito; ou seja, o autor é que assume a função social de organizar e assinar uma determinada produção escrita, dando-lhe a aparência de unicidade (efeito ideológico elementar). Foucault fala em princípio de autoria, uma vez que se trata de considerar o autor não como um indivíduo inserido num determinado contexto histórico-social (sujeito em si), mas como uma das funções enunciativas que este sujeito assume enquanto produtor de linguagem”.

Leitor
“Uma das posições que o sujeito assume no discurso. Todo sujeito move-se em um discurso guiado pela relação que construiu com os textos lidos em sua história de leitor, ou seja, constituindo-se dentro de uma memória social de leitura. Assim, ao ser colocado diante de um discurso, o sujeito leitor está sendo impelido a interpretá-lo, e esse movimento de leitura estará necessariamente vinculado às condições sócio-histórico-ideológicas que o envolvem e que determinam tanto o leitor e sua formação quanto a leitura a ser feita por este sujeito”.