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Conceitos que permeiam a construção dos sentidos na AD


Conforme sustentam as teorias da AD, a noção de transparência da linguagem é uma ilusão e está ligada à tradição linguística que priorizava a informação na linguagem, como já foi dito. Para a AD, o sentido e a verdade não estão relacionados à informação, mas a um processo material de construção determinado sócio-histórico-ideológico.

O texto traz em si a materialidade do processo de significação e da constituição do sentido e do sujeito. Por essa razão, a análise do discurso não acredita em sentido literal, não há um sentido central, só margens, afirma Orlandi.

Sentido – transparência ou opacidade
A noção de transparência da linguagem é uma ilusão e está ligada à tradição linguística, que priorizava a informação, como já foi mencionado. Para a AD, o sentido e a verdade não estão relacionados à informação, mas a um processo material de construção determinado sócio-histórico-ideológicamente por meio das práticas discursivas. O texto traz em si a materialidade do processo de significação e da constituição do sentido e do sujeito.

Sentido – paráfrase e polissemia
No processo de constituição dos sentidos na linguagem, a partir dos quais se distinguem criatividade e produtividade; a relação entre a paráfrase (reprodução variada do mesmo) e a polissemia (o diferente, a criatividade, o deslocamento, o movimento dos sentidos), como já dito, é constitutiva da produção de sentidos.

A paráfrase convive em tensão constante com o outro processo: a polissemia. A polissemia desloca o “mesmo” e aponta para a ruptura, para a “criatividade” [...], conflito entre o produto, o institucionalizado, e o que tem de se instituir [...] a tensão constante com o que poderia ser, reforça Orlandi.

Sentido e incompletude
A incompletude – movimento, deslocamento e ruptura – é uma condição para a linguagem fazer sentido. “A linguagem não é transparente e os sentidos não são conteúdos”, diz Orlandi. É importante você perceber que no processo de produção textual há um apagamento necessário, pois os sentidos não só retornam, mas se projetam em (re)significações. “Pela natureza incompleta do sujeito, dos sentidos, da linguagem (do simbólico), ainda que todo sentido se filie a uma rede de constituição, ele pode ser um deslocamento nessa rede”, reafirma Orlandi.

Assim, conforme a autora, o discurso é incompleto assim como são incompletos os sujeitos e os sentidos. Os sentidos devem ser encarados como percursos simbólicos e históricos, não acabados porque estão sempre à deriva de se deslocarem, de se movimentarem, de se ressignificarem. A incompletude é um indício da abertura do simbólico, dos deslocamentos do sentido e do sujeito, da falha, do possível.

Vale lembrar que esse todo em que o texto se constitui é de natureza incompleta. Indo mais além, podemos afirmar que a condição de existência da linguagem é a incompletude... Outro aspecto a se considerar sem relação à incompletude é que, uma vez que se constitui na interação, o sentido do texto não se aloja em cada um dos interlocutores separadamente, mas está no espaço discursivo criado pelos (nos) dois interlocutores, afirma Orlandi.

Saiba que no movimento de renovação e mobilização de sentidos, a AD abandona a posição que privilegia a hipótese de um sentido central, mais importante hierarquicamente (sentido literal) em detrimento de outros (efeitos de sentido). Assim, todos os sentidos são em princípio, sentidos possíveis.

Em certos casos, há de fato “dominância” de um sentido, sem que obrigatoriamente se perca a relação com outros sentidos possíveis. Veja que, na música, é possível recuperar alguns provérbios populares que, em si, já não dizem respeito literalmente àquilo que enunciam, pois, em diferentes situações, os sentidos dessas fórmulas podem variar e muito, e, na música, por sua vez, estariam também tendo o sentido “fonte” subvertido, rompido, ressignificado.

Vejamos alguns:

Os provérbios também podem exemplificar que, no discurso, sentido e sujeito se constituem mutuamente, a ponto de, quando se troca o sujeito de um enunciado, é possível que o seu sentido também seja mudado. Por exemplo: no provérbio, “é dando que se recebe”, o sentido será totalmente alterado a depender de quem seja o sujeito ao qual o enunciado venha a se relacionar:

1. “É dando que se recebe” – dito por uma prostituta (o sentido direciona-se na linha da exploração sexual).

2. “É dando que se recebe” – dito por um político (o sentido direciona-se na linha da troca ilícita de favores políticos como “mensalão”, propina, nepotismo).

3. “É dando que se recebe” – dito por um padre (o sentido direciona-se na linha da caridade, do amor ao mais pobre e da expectativa pelo reconhecimento).

No processo do acontecimento enunciativo-discursivo, os sentidos se recolocam, deslocam, alteram, movimentam a cada momento de forma múltipla e fragmentária.

Conforme Pêcheux, as condições de produção são constitutivas do sentido, a variação é inerente ao próprio conceito de sentido. Portanto, se o contexto é constitutivo do sentido, as variações relativas às condições de produção são relevantes para a significação.

O sentido de uma palavra, expressão, proposição não existe em si mesmo, só pode ser constituído em referência às condições de produção de um determinado enunciado, uma vez que muda de acordo com a formação ideológica de quem o (re)produz, bem como de quem o interpreta. O sentido nunca é dado, ele não existe como produto acabado, resultado de uma possível transparência da língua, mas está sempre em curso, é movente e se produz dentro de uma determinação histórico-social, daí a necessidade de se falar em efeitos de sentido, revela Ferreira.

O discurso é dispersão entre as várias formações discursivas: não tem início nem fim, pois todo dizer relaciona-se a um já dito e é instável do ponto de vista de que está sempre à deriva de ser ressignificado, deslocado, interpretado. Não há autores no discurso, e sim posições-sujeito determinadas pelas formações discursivas nas quais os indivíduos podem se inscrever, seja pela continuidade, seja pelo confronto ou ruptura de seus valores ideológicos.

Em outras palavras, o autor está para o texto, assim como o sujeito está para o discurso. Conforme Orlandi, a noção de texto, tratada como unidade de análise de discurso, precisa que se ultrapasse o nível da informação, do mesmo modo como impõe a necessidade de se ir muito além do nível segmental, superficial ou linear de análise. O texto é muito mais do que um aglomerado de frases e nunca poderá ser fechado em si mesmo, pois os seus sentidos ficam abertos à deriva da significação, em busca de possibilidades interpretativas.

Em relação à unidade do texto, um conceito importante deve ser destacado, o de interpretação. A análise do discurso entende a interpretação como um gesto de leitura de um fato, presente em toda manifestação da linguagem, através do qual a significação é produzida. A interpretação é uma injunção; diante de qualquer objeto simbólico somos obrigados a interpretar, temos a necessidade de atribuir sentido. Por um efeito ideológico, a interpretação se apaga no momento mesmo de sua realização, dando-nos a ilusão de que é transparente, de que o sentido já existia como tal.

Essa transparência é uma ilusão, na medida em que o fato de o sentido ser um e não outro é definido pelas condições de produção em que se dá o movimento interpretativo. Tanto o cerne do gesto de interpretação quanto sua eficácia ideológica se devem à relação dos fatos e do sujeito com a significação, uma vez que os fatos reclamam sentido e o sujeito tem necessidade de atribuí-lo. A interpretação não é mero gesto de decodificação, de apreensão de sentidos; interpretar é expor-se à opacidade do texto, é explicitar o modo como um objeto simbólico produz sentidos, explica Orlandi.

A interpretação sempre pode ser outra, mas o movimento interpretativo não é um movimento caótico, não regido. As condições de produção e a própria possibilidade de abertura impõem determinações, limites a esse movimento, o que significa dizer que a interpretação pode ser múltipla, mas não qualquer uma, pontua Ferreira.

Como você pode notar, essas textualidades se relacionam discursivamente, tanto do ponto de vista das formações discursivas como das posições-sujeito que nelas se inscrevem e também no que tange a sua materialidade linguístico-discursiva. Nelas é flagrante a sua heterogeneidade constitutiva:

1. Quanto à natureza dos diferentes materiais simbólicos, temos linguagem, verbal escrita e oral, considerando a natureza intersemiótica da música, cuja realização tanto se dá pelo visual como pelo auditivo, e da mesma forma a natureza intersemiótica das piadas e dos provérbios.

2. Quanto à natureza dos gêneros discursivo-textuais, temos três materialidades linguístico-discursivas: uma piada, uma música e um conjunto de provérbios que envolvem organizações escrita, oral, narrativa, argumentativo-autoritária, opinativa e poética.

3. Quanto às posições do sujeito, temos a mulher dona de casa, feminista, inteligente, vítima de agressão doméstica, freira, puta, rainha do tanque, indignada no palanque, feiticeira-corcunda, brasileira-bunda, gostosa, porra-louca, mulher-macho etc.

4. Quanto à natureza das formações discursivas, temos as formações humorística, social, religiosa, artística, política, feminista, machista, estética, familiar, sexista etc.

Sobre estas distinções, é importante destacar:

- É a unidade de análise do discurso que, enquanto tal, é uma superfície linguística fechada em si mesma (tem começo, meio e fim).

- É um objeto empírico, inacabado, um complexo de significação.

- Institui-se como lugar do jogo de sentidos, do trabalho da linguagem, do funcionamento da discursividade.

- O relevante, no âmbito discursivo, onde o texto é tomado como discurso, é ver como ele organiza a relação da língua com a história na produção de sentidos e do sujeito em sua relação com o contexto histórico-social.

- O texto tomado em discurso é dispersão de sujeitos por comportar diversas posições-sujeito que o atravessam e que correspondem a diferentes formações discursivas. Daí tomar-se como essencial a característica da sua heterogeneidade nos vários níveis possíveis.

- A completude do dizer é um efeito da relação do autor com o texto, deste com o discurso e da inserção do discurso em uma formação discursiva determinada. Esse movimento é que produz a impressão de unidade e transparência do dizer.

Sobre a heterogeneidade discursiva (termo utilizado na análise do discurso, notadamente pela autora Authie-Revuz), você viu que todo discurso é atravessado por outros discursos ou pelo discurso do outro. Há dois tipos de heterogeneidade discursiva:

1. a heterogeneidade constitutiva do discurso – que esgota a possibilidade de captar linguisticamente a presença do outro no um;

2. a heterogeneidade mostrada no discurso (que indica a presença do outro no discurso do locutor). A heterogeneidade mostrada divide-se ainda em duas outras modalidades:

a) a marcada (mostrada) é da ordem da enunciação e visível na materialidade linguística;  

b) a não marcada (constitutiva) é da ordem do discurso e não provida de visibilidade.