Header Ads

LightBlog

Conceitos-chave da AD: categorias teóricas e de análise; o intradiscurso e o interdiscurso


A AD procura entender como a linguagem faz sentido, constituindo os sentidos e os sujeitos, materializando as ideologias que os determinam, marcadas no discurso de modo a evidenciar sua capacidade de significar e significar-se sócio-histórico-ideologicamente.

A AD não trabalha a língua enquanto sistema abstrato, mas com a linguagem em funcionamento. Ela mantém uma diferença quanto ao estudo da linguagem e de seu conceito, opondo a visão formal, funcional e histórica de linguagem.

A AD critica o tratamento dado à linguagem pela prática da ciência social e da linguística moderna, e vai além delas refletindo sobre a maneira como a linguagem está materializada na ideologia e como se manifesta na língua. A AD trabalha a relação entre língua, discurso e ideologia, como diz Pêcheux, não há discurso sem ideologia, somente assim, a língua faz sentido.

A AD, diferentemente da análise do conteúdo, considera que a linguagem não é transparente, não procura encontrar o sentido (único, referencial e verdadeiro), o que ela busca é o texto e seu significado. Ela vê o texto como material simbólico próprio e significativo e o concebe em sua discursividade e historicidade.

Como já vimos, nos anos 60 a AD se constitui entre três domínios que são ao mesmo tempo uma ruptura com o século 20: a linguística, o marxismo e a psicanálise. Cada uma deles tem sua especificidade e, por outro lado, a AD pressupõe o legado do materialismo histórico e dessa forma é linguístico-histórica.

Reunindo a estrutura e o acontecimento, a forma material da linguagem é vista como significante em um sujeito afetado pela história. Aí está a contribuição da psicanálise, com o deslocamento da noção de homem para de sujeito, pois nele se constitui a relação com o simbólico na história. Isso redunda em dizer que o sujeito discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia, pois a palavra dita em nosso cotidiano já vem carregada de significado. Desse modo, a AD se faz herança dos três conhecimentos psicanálise, marxismo e linguística, a AD trabalha com essas três áreas e rompe com passado tendo um novo objeto de estudo, o discurso.

A partir daqui, iremos enumerar as principais categorias teóricas e de análise da AD.

O discurso
O funcionamento do discurso difere do esquema elementar de comunicação: emissor, receptor e código, pois para AD o discurso não é apenas a transmissão de informação, a língua não é apenas um código em que um fala e outro decodifica apenas uma mensagem através de um canal de comunicação.

No acontecimento discursivo esta prática se realiza num processo de significação que relaciona sujeitos e sentidos na língua através da história.

Dessa maneira, percebe-se que a linguagem tem relação com os sujeitos e os sentidos e estes (sujeitos e sentidos) são afetados pela história. Esse processo de identificação do sujeito, de argumentação, de subjetividade faz com que a linguagem em relação aos sujeitos e seus sentidos possa ter efeitos variados, pois no discurso se produzem sentidos e sujeitos.

Orlandi diz que o discurso tem regularidades que se correlacionam ao social e ao histórico, ao sistema e à regularização, ao subjetivo e ao objetivo e por fim ao processo e a produtos. A AD faz um recorte teórico entre língua e discurso; elas são um complemento da outra. Para Pêcheux a fronteira entre língua e discurso é posta com valor sistemático em cada prática discursiva (pois a língua tem uma ordem estrutural derivada de um sistema-código), porém, sistematicidades não existem efetivamente na linguagem, já que a relação entre língua e discurso é de recobrimento, pois não há separação entre eles. O que na verdade se impõem são as regularidades instituídas, destituídas e restituídas da ordem da língua para o discurso e do discurso para a língua.

Todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta para um outro, faz uma ligação (intertextual ou interdiscursiva), através desse cruzamento vai construindo sentido, ideologia e, já com um objeto analisado, abre espaço para novas possibilidades, uma vez que a análise não se esgota em uma descrição e ainda pode ser diferente nas diferentes formas de análise.

Sobre a diferença entre textualidade e discursividade, Orlandi adverte que é denominado textualidade tudo aquilo que compreendemos e que faz sentido (desde um texto, um livro até uma única letra). A textualidade ocorre em sua diversidade de gêneros e tipos, resultando disso a interpretação, pois em nossa sociedade, ao nos deparamos com letras e símbolos todo tempo, somos expostos continuamente ao(s) gesto(s) de interpretação, determinados sócio-histórico-ideologicamente e materializados no discurso.

A textualidade e a discursividade caminham juntas, é através do texto que se chega mais além, no discurso. Para a compreensão de como um texto funciona, seu sentido e o que tem por traz dele são necessárias tanto a textualidade quanto a discursividade: juntas produzem um todo significativo e no procedimento da análise devemos remeter os textos aos discursos aos quais estão filiados (formação discursiva, ideologia). O texto representa a linguagem, a interpretação, produz sentidos e direciona o funcionamento da discursividade.

Em resumo, o objetivo da AD é apreender a linguagem entendida como discurso, materializando o contato entre o linguístico e o não linguístico. “O discurso é a materialidade específica da língua, e a língua é a materialidade específica do discurso”. A partir da crítica feita à dicotomia saussuriana língua e fala, o conceito de discurso firma-se na associação de regularidades linguísticas às suas condições de produção, tornando o falante sujeito assujeitado.

Para refletir sem equívoco sobre o objeto da AD – o discurso –, é sempre útil recorrer ao conceito de formação discursiva. Este termo define “o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma alocução, um sermão, um panfleto, uma exposição, um programa, uma aula etc.) a partir de uma posição dada em uma conjuntura determinada”.

O discurso, portanto, é o objeto teórico (histórico-ideológico) da análise do discurso, ele se produz socialmente por meio de sua materialidade específica (a língua). Trata-se de uma prática social, cuja regularidade só pode ser apreendida a partir da análise dos processos de sua produção e não dos seus produtos. O discurso é dispersão de textos, e a possibilidade de entender o discurso como prática deriva da própria concepção de linguagem marcada pelo conceito de social e histórico com a qual a AD trabalha.

As Condições de Produção (CP)
Conforme Orlandi, elas abrangem o sujeito e a situação dentro de um contexto sócio-histórico-ideológico e de uma memória discursiva. Esse contexto tanto pode ser o imediato (o aqui e o agora, compreendendo as circunstâncias da enunciação) como pode ser o contexto mais amplo (mais especificamente o contexto sócio-histórico-ideológico). Mas na prática não se pode separar os dois. As CP são ainda responsáveis pelo estabelecimento das relações de força e poder no interior do discurso, mantendo com a linguagem uma relação necessária e constituindo com ela o sentido do texto.

A Formação Discursiva (FD)
Esse termo foi emprestado de Michel Foucault e se relaciona à determinação e demarcação social, histórica e ideológica dos dizeres, materializando no discurso os efeitos criados pelas ideologias. As FD representam as formações ideológicas no discurso. As posições ideológicas evidenciam suas regularidades no funcionamento discursivo. Mesmo assim, as FD não são estáticas, elas são fluidas, permitindo contradições, rupturas. As FD são a manifestação, no discurso, de uma determinada formação ideológica em uma situação de enunciação específica: funcionam como matrizes de sentidos, regulando o que o sujeito pode e deve dizer, bem como o que não pode e não deve ser dito. Funcionam como lugares de articulação entre língua e discurso.

Uma FD é definida a partir de sua rede interdiscursiva (formações discursivas distintas articuladas em um conjunto), podendo ser estabelecidas tanto em relações de conflito quanto de aliança. Conforme sustenta Foucault, sempre que se puder definir, entre um certo número de enunciados, uma regularidade, se estará diante de uma formação discursiva. Na Análise do Discurso, esse conceito aparece reformulado e associado à noção de ideologia e de formação imaginária.

AD relaciona-se com textos produzidos em determinadas formações discursivas:

a) no quadro de instituições que restringem fortemente a enunciação (jurídica, militar, religiosa, médica etc.);

b) nas quais se cristalizam conflitos históricos, sociais etc. (racismo, homossexualidade, feminismo, liberdade sexual, pecado, sindicalismo trabalhista, prostituição etc.);

c) que delimitam um espaço próprio no exterior de um interdiscurso limitado e demarcado (arte, humor, moda, beleza etc.).

O par interdiscurso e intradiscurso
A interdiscursividade diz respeito à relação de um discurso com outros, ou seja, o entremear de vozes discursivas manifestadas em certo discurso e interferindo no seu sentido. Esses discursos alheios penetram no discurso em estudo, interferindo assim no seu sentido. A interdiscursividade, assim, está relacionada à noção de heterogeneidade discursiva, de formação discursiva e de “pré-construído.

O interdiscurso é a memória discursiva, que possibilita relacionar o dito (intradiscurso) ao já dito, o pré-construído que está na base do que é dito. Por isso, o dizer não é propriedade particular e original, pois está ancorado historicamente na memória enunciativo-discursiva. O interdiscurso abrange o conjunto das formações discursivas e se inscreve no nível da constituição do discurso, no sentido de que trabalha com a ressignificação do sujeito sobre o que já foi dito, (no repetível), determinando os deslocamentos e rupturas promovidos pelo sujeito nos limites de uma formação discursiva: ele determina materialmente o efeito de encadeamento e articulação de tal modo que aparece como o puro “já dito”.

Já o intradiscurso diz respeito ao simulacro material do interdiscurso, na medida em que fornece-impõe a “realidade” ao sujeito, matéria-prima na qual o indivíduo se constitui como sujeito falante em uma determinada formação discursiva que o assujeita. Ao pensarmos o discurso como uma teia a ser tecida, podemos dizer que o intradiscurso é o “fio do discurso” de um sujeito; a rigor, é um efeito do interdiscurso sobre si mesmo, uma vez que incorpora, no eixo sintagmático (linear), a relação de possibilidade de substituição entre elementos (palavras, expressões, proposições), como se esses elementos, assim encadeados entre si, tivessem um sentido evidente, literal. O que está em evidência, no intradiscurso, é a formulação de um discurso a partir da realidade presente.

A título de visualização, observe o esquema abaixo que sintetiza as principais características deste par conceitual tão caro à AD:

2. Intradiscurso (o que se está dizendo no texto)

Formulação no texto – linearidade.

1. Interdiscurso (o já dito – memória discursiva)

Memória – historicidade – exterioridade – inconscientes esquecidos na produção.

Não confundir interdiscurso (rede de formações discursivas dispersas na memória discursiva e acionada por um texto) com intertexto (um texto que referencia outro implícita ou explicitamente).