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Nietzsche desvenda a queda de Pedro e a ascensão de Yuri na minha vida

Foto: Will Assunção/JUP

No exato instante em que eu pude me assistir, de uma posição diacrônica, ser trocado sem o menor embaraço por uma presença que julguei, em primeira instância, ser temporária, frívola e sem maior significado, posto tudo o que já tínhamos vivido, criou-se em mim coragem, como um impulso, de questionar o sentido de todas as escolhas já feitas até então; bem como as estruturas das relações entre as pessoas que me cercavam, que sustentavam o que eu acreditava, ou seja, as minhas próprias verdades.

Quando eu finalmente decidi interpelar as posições em que as personagens do meu jogo ocupavam no tabuleiro, me dei conta de que teria que assumir o papel de filósofo da suspeita. Através de uma atitude involuntária, Pedro me fez (re)pensar as minhas crenças e convicções; inclusive, os sentimentos que eu mantinha por ele, e, de alguma forma, também os que eu acreditava, ainda que em um constructo, no plano da sofreguidão, que ele vinculava a mim.

Cabe a terceiros entender que a minha relação primária com Pedro atingia certo platonismo sustentado constantemente pelo signo do Ouroboros. Eu o venerava. E por venerá-lo, tratava-o como figura reinante de um pedestal particular. Atendia-lhe de modo a satisfazer todas as suas vontades. Por infinitas vezes, ele foi o meu amo. Ele refletia tudo aquilo que eu desejava em alguém de carne e osso. A personagem perpetuada como amigo íntimo e confidente, surfista de pele dourada, atleta, meu protegido, que sempre legou o suor e os seus pés a mim, além das pintas nas costas, que com traços da minha imaginação formavam uma constelação de desejos, sempre habitou o plano das minhas ideias, já que eu o desenhava do modo como o idealizava, mas não como ele realmente foi e é.

Um dos equívocos que evidenciou a minha condição de humano foi ter apelado ao plano ideal. Ao assumir ingenuamente uma postura plantonista, eu criei uma falsa imagem de Pedro. E ao tentar tornar esse simulacro uma verdade palpável, eu me debruço sobre um sofrimento incontornável. Eu me deparo com a incapacidade de ser feliz, já que eu o idealizei de uma forma que jamais será possível se tornar realidade. Eu recusei neste ponto o amor-fati.

Como humanos, nós seguimos uma tendência inevitável, que consiste em se envolver com pessoas, outros humanos assim como nós, e isso exige no mínimo um esforço descomunal vindo de nós mesmos para encararmos implacáveis e irremediáveis tormentos avassaladores internos que dificilmente digerimos sem algum trauma.

O episódio considerado por mim como o badalo infeliz da desilusão revelou que eu estava destinado ao eterno retorno do mesmo. O que significa que o que eu vivo aqui e agora já ocorreu um número infinito de vezes e voltará a ocorrer um número infinito de vezes, já que nós temos neste momento uma repetição infinita de estados. A imagem do Ouroboros em minha mente me atormentava, porque eu sempre me via no mesmo percurso prostrado diante de Pedro.

Por vezes, eu não quis ouvir (ou saber) a verdade, porque não desejei que as minhas próprias ilusões fossem destruídas. Ao menor aceno de que alguma sucessão de acontecimentos pudesse brotar e, a partir de então, questionar a verdadeira essência de Pedro, eu tentava a todo custo controlar os fatos e o tempo em que estávamos destinados a viver. O que me torturou de maneira penosa por um longo tempo.

Ao me atrever ir adiante e de alguma forma me arriscar em querer as respostas para algumas perguntas que passaram a me atormentar, a minha coragem de professar o óbvio fez com que eu me tornasse alguém mais distante e solitário. E penso que apenas Nietsche consegue me explicar: “Às vezes, enxergo tão profundamente a vida que de repente olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo”. E foi ao tentar entender a condição humana e suas complexas relações interpessoais que acabei refém da solidão.

Estou fadado a conviver com a minha própria existência de maneira intensa e intratável, diferente de quem lê a vida a partir de uma rasa superfície filosófica. Meus dramas possuem uma profundidade abissal, o que significa que tenho que lidar com as dores da existência, resultantes de incertezas e angústias pesarosas. É incerta e agoniante, por exemplo, a percepção categórica de que Pedro apenas nutria por mim a gana por vantagens que o levaria a ter uma vida mais confortável e conveniente, e não simplesmente porque ele também via em mim uma figura fraterna e amiga, que o atraia por eu ter um conjunto de características que o cativava como indivíduo.

Se pararmos e prestarmos atenção, nós poderemos notar que as coisas costumam vir juntas de certa maneira, nós é que temos o hábito de separar em bem e mal, sim e não, verdadeiro e falso, certo e errado, prazeroso e desprazeroso, sagrado e profano. E foi ao perceber essa sobreposição da realidade que eu tive que me propor o esmero de pôr um fim à leitura da vida através do dualismo moral.

No instante em que eu entendi que a vida é uma luta interna entre os nossos próprios impulsos dentro de nós mesmos e sem objetivos, eu percebi que paixão e razão mantêm as mesmas forças nesse combate intermitente. Às vezes em total desequilíbrio, o que pouco importa, já que nós não temos controle deles. E é talvez por isso que é difícil dizer se posso considerar Pedro como a minha Lou Salomé; pois em nós apenas pairou a sombra do ideal.

O que atesta ser mais incrível diante desse processo de descobertas é que, a partir de então, eu aceito a ideia de amor-fati aplicada a Pedro. Neste momento pouco me importa o que Pedro é ou como a vida o trouxe. Eu simplesmente o amo por ele ser o que é. Se Pedro é honesto comigo e com a relação a qual mantemos ou se ele simplesmente vê em minha amizade um laço conveniente, pouco importa. Mas eu o quero comigo, porque ele me faz feliz. Assim como eu devo amar o que eu vivo agora – o meu presente -, eu aceito e o amo do jeito que ele verdadeiramente é.

O que mais me impressiona é que ele sempre se lembra de coisas ditas por mim, em um passado remoto, que eu jamais imaginei que ele guardasse como uma frágil lembrança. E é por isso que volto a afirmar a importância da necessidade de expurgarmos o maniqueísmo como guia moral. Mesmo que Pedro mantenha um lado podre, haverá sempre nele a sustentação de sentimentos nobres.

Foto: Will Assunção/JUP

Pode ser apenas uma impressão minha, mas eu diria que fui honesto comigo mesmo ao reconhecer os meus impulsos e não, empregando um esforço em vão, tê-los renegado. Eu abandonei o platonismo que inebriava a minha relação com Pedro e a trouxe para uma nova perspectiva empregada ao amor-fati. É que diferente de mim, algumas pessoas precisam realmente de venenos para manter intactas algumas verdades.

Ao se deslocar do altar, Pedro perde de vista o posto de soberano e Yuri surge como o equilíbrio perfeito. Diferente de Pedro, Yuri se apresenta como personagem mais verdadeira e honesta. No entanto, não podemos deixar despercebido que ao renegar a nossa própria natureza, muitas vezes perdemos a perspectiva o nosso lado animal. Mas parece que Pedro nunca fez questão de esconder esse lado. Pedro, quando quis, sempre foi sincero ao dizer brincando que não se importava. Contudo, o que ficou por um tempo escondido foi a hipocrisia e o cinismo que habitava o elo que nos fazia íntimos.

Nietzsche me atinge em cheio ao me desferir um golpe visceral quando revela que o que na verdade eu sinto por Pedro vai muito além de amor ou amizade – impulsos demasiadamente humanos. Esse interesse “genuíno”, o amor, o carinho, a preocupação e, inclusive, o ciúme por Pedro nada mais é do que egoísmo, cinismo, orgulho e vaidade. Para Nietzsche, eu amo o desejo, e não o desejado. Logo o meu apego diz respeito somente às sensações que permeiam o elo que existe entre mim e Pedro, não a pessoa de Pedro.

“Todas as nossas ações são autodirigidas, todo serviço é um autosserviço, todo amor é amor-próprio […]”. Se nos permitirmos pensar naqueles em quem amamos e cavarmos mais profundamente, possivelmente descobriremos que não os amamos da forma que supomos: amamos, sim, as sensações que tal sentimento produz em nós. Amamos o desejo, não o desejado.

Se eu, como protagonista da minha própria vida, procuro sempre oferecer o meu melhor a Pedro, ofertado através do amor, da minha amizade, do meu tempo dedicado a ele, eu estou sendo hipócrita e egoísta. Pois bem, para entender temos que inverter a polaridade da perspectiva. O meu altruísmo nada mais é do que egoísmo. Se eu me coloco numa posição em que procuro sempre me dedicar a Pedro, inclusive, oferecendo meus cuidados a ele, é, sobretudo porque eu mantenho algum interesse como, por exemplo, em ser amado ou ser reconhecido como melhor amigo. Em uma hipótese mais ampla, em satisfazer alguma fantasia do meu próprio inconsciente.

O amor, ou melhor, o meu amor por Pedro, antes de qualquer coisa, é o desejo de posse manifestado, segundo Nietzsche. É um impulso egoísta. É o querer me apropriar do outro, de dominar o próximo. E eu me revisto da hipocrisia como manto protetor. Pois quando eu expresso o meu intenso amor por Pedro, eu na verdade quero tê-lo aos meus pés, sob o meu domínio. Não há ação altruísta, não há ação desinteressada.

Ao passo em que Pedro deixa de se caracterizar como uma figura, que passa a ser frágil e obtusa, de algoz, não apenas ele, como eu, ganhamos traços humanos. Nietzsche consegue naturalizar o ser humano. O filósofo, então, devolve a natureza do homem como ela realmente é.