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Em uma rifa com nomes de mulheres, escolhi ‘Julieta’, personagem romantizada do amor perfeito

Pintura a óleo de 1870 de Ford Madox Brown retratando a famosa cena do terraço de Romeu e Julieta.

Em uma rifa com apenas nomes femininos, eu não titubeei e optei por Julieta, uma das personagens shakespearianas mais icônicas, figura central de uma tragédia do século 16, que séculos depois ganharia uma releitura romantizada. É bem provável que o meu consciente tenha me inclinado a escolher por um dos epítetos mais conhecidos do teatro moderno, em um sorteio cujo prêmio nada mais seria do que um utilitário para solteiros. Doce ironia.

Assim como eu, impetuosamente, me deparei com a perda da capacidade de viver o amor lírico, do amor sofredor – sentimento que eu encontro tardiamente na bossa nova no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, a ausência de uma visão romântica do outro, que talvez possa ser explicada pela maturidade ou pelo próprio contexto histórico, nada mais é do que o reflexo da minha incapacidade de romantizar a vida.

Curiosamente, em uma das maiores peças já escritas, o inventor da modernidade, contrariando o imaginário popular, não evoca o romantismo. Muito pelo contrário, na obra de William Shakespeare é possível encontrar uma crítica mordaz à paixão. O estoicismo, doutrina filosófica que defende que determinadas emoções são destrutivas e resultam em erros de julgamento, vai permear o pensamento de Shakespeare, o que, em síntese, leva a crer que o homem saudável é o homem que controla a paixão.

Em Romeu e Julieta, Shakespeare trata de política, de ordem pública, e jamais teve intenção de romantizá-la. No entanto, nós o fizemos depois de sua morte. A peça, inclusive, fala, entre outras coisas, que a paixão é uma má conselheira. Podemos arriscar a dizer que o autor quase que demoniza a paixão, pois fala de forma direta da inconstância do jovem no amor romântico.

A peça que encanta a todos há quase cinco séculos, é fruto do retrato de um homem que ainda não conhecia o amor como ele é hoje. O amor, como nós o conhecemos, nasce no século 18 e 19. Hamlet deixa isso claro ao dizer mostre-me um homem sem paixões, e eu atarei meu coração ao dele. Ou, se preferir, em outra passagem que diz que o coração humano é um jardim, você cultiva o que você quiser nele.

Se nos permitirmos fazer um recorte de Romeu e Julieta, constataremos o quão lustroso é esse amor. Em um único instante, um olha para o outro e, de repente, se apaixonam perdidamente, em um domingo. Ela havia conhecido Romeu há 15 minutos, e já havia se tornado o único amor de sua vida. Na madrugada, eles se declaram um para o outro. Casam no dia seguinte. Têm apenas uma relação sexual e morrem na quinta. De domingo à noite à quinta, o amor mais perfeito da humanidade não completou uma semana e somente teve uma relação sexual. É fácil atingir essa perfeição quando a relação não conta com o pesar dos anos, não completa bodas de ouro.

É possível perceber que a obra do inglês de Stratford foi lida no século 19 como o ideal do amor romântico, porque o amor perfeito era o amor de perdição. É o amor que termina em morte, já que o amor, como sentimento avassalador e, portanto, única maneira de ser perfeito, deve terminar com a morte. Já que não pode haver cotidiano no amor romântico. Não pode haver desgaste da relação, só pode haver paixão, platonismo. A idealização do outro.

O coup de foudre é um fenômeno explicitamente criticado pelo Bard. A falsa sensação de que o amor à primeira vista parece ser algo formidável e transcendente é uma experiência ridicularizada pelo dramaturgo inglês, de modo a classificar o amor romântico como um sentimento incontrolável e altamente perigoso.

Ao contrário do que muitos possam ter como impressão, a única voz agônica que causa certo incômodo em mim, é a que reverbera em minha mente ao constatar que promovi ilusões perdidas em centenas de leitores que ainda mantinham certa bardolatria pelo suposto romantismo shakespeariano.