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À Juíza do Feicebuque que roga contra os pobres


Perambulando cá, por entre esse renque sem juízo nem moral, que só dizia encontrar na terra do Feicebuque, entre uma cerca viva de quiabento e outra, Embroda ouviu uma juíza, fia de certo coroné da política do sertão, bradar contra quem não tem rapadura no saco nem para roer com farinha. A sujeita era contra um negócio de governo dar dinheiro a pobre preguiçoso, que não gosta de trabalhar, remoía inquieta em seus pensamentos a mulher que deseja impor o fim do mundo ao ter escutado tamanha asneira. Vê se pode, fia? – desabafava – Mas quá!, aqui governo nenhum nunca deu nada de graça, nem dinheiro, nem vespeiro, a ninguém. Logo aqui, neste canto do mundo, onde gente sofrida peleja pra viver. Ora, Embroda podia ficar de onde estivesse, fumando o seu cigarro de palha e vendo as nuvens brincarem de dar formas às coisas no céu. Mas não. Era pior que diabo pirracento. Enraivou-se para tomar coragem e partiu com suas próprias palavras, como quem soubesse desde muito cedo que a fábrica da miséria tem endereço certo.

Cuspiu no chão, olhou pro vento, e esperou seu tiro secar com o sol. Então, como uma matraca em noite de quaresma, disparou contra a juíza, maior autoridade do Tribunal do Feicebuque. Disse a ela, aos desaforos, que quem fica atrás do bolso do terno do poder e defende meritocracia durante o dia, mas bate continência a cargos do governo à noite, é quem nunca ouviu Tom Zé em noite santa do sertão e assim sendo, minha fia, tu não merece perdão. Como quem recebe a pomba gira em noite de lua cheia numa encruzilhada escura, Embroda, ao se retirar, vomitava de nojo; ora por desfrutar de uma inteligência filosófica herdada do passado que a fazia se sentir superior à magistrada feicebuquiana, ora por se deparar com tamanha hipocrisia e ignorância em pessoa.

Já no fim do dia, a mulher do fim do mundo, registrou em sua mente o que chamou de ressentimento cristão, ao resgatar com lucidez a filosofia de Nietzsche. É aquele sentimento de ódio, fia, que certa gente de bem tem guardado dentro de si; que por vergonha ou pela moral imposta, impede por ora de concretizar seu ódio contra o próximo. Sendo assim, disfarçado de boas intenções, roga contra quem almeja se igualar. Afinal, nestes tempos, eu me distingo de tu pelo simples fato de eu ser maior em poder de consumo, de estar sob o signo do poder. Mas, fia, não se desanime, não. Que o novo há de chegar!