Header Ads

LightBlog

Que diabos é larfiagem?

Foto: Reprodução

Nos anos de 1950, um grupo de 15 meninos, de 8 a 12 anos, em sua maioria formada por negros, inventou uma maneira própria de se comunicar em Herval, município do Rio Grande do Sul, com menos de 7 mil habitantes: a larfiagem – que, traduzindo o português, significa fala. Na larfiagem, a inversão de sílabas é muito comum, assim como a inserção de uma letra “coringa” para dar liga às palavras. As letras “coringas” mais utilizadas são R, I e E.

Em uma reportagem da revista Superintessante, de 2018, explica que em termos técnicos, a larfiagem não é um idioma, mas um argot. O professor Gilvan Muller de Oliveira, do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), detalha: “Um argot, como larfiagem, é um código inventado localmente, de maneira oral e que não é transmitido de uma geração para a outra. Geralmente é usado para esconder o que os falantes pretendem comunicar. Há relatos de construção de argot no antigo presídio do Carandiru e em campos de concentração na Segunda Guerra Mundial”.

A larfiagem segue três pilares da gramática portuguesa: morfologia, fonologia e sintaxe. No caso da morfologia, os verbos seguem um radical, variando de uma pessoa para a outra. Do mesmo modo, entonação e pronúncia são convencionais. A estrutura das palavras nas frases (sintaxe), com sujeito seguido de verbo e predicado, também se mantém. A diferença entre a larfiagem e o português é outro pilar: o vocabulário.  Ou seja, as palavras são diferentes, mas a estrutura é a mesma.

A larfiagem só poderia ser considerada uma língua se tivesse características e estruturas próprias nesses quatro pilares. Além disso, um idioma precisa de um número de falantes considerável ou de aceitação política para ser reconhecido como tal. Com o resgate da larfiagem e a criação de dicionário com vocabulário da língua, ela passou a ser enquadrada também como um criptoleto: um argot com elementos escritos, não apenas orais.

FILME



Agora, mais de 60 anos depois da criação da língua de Herval, a história foi resgatada no filme “Larfiagem”, da catarinense Gabi Bresola. Nascida em Herval d'Oeste, a diretora voltou para a cidade depois de vencer o Prêmio Catarinense de Cinema e conseguir recursos pra gravar o curta, que agora vai fazer parte de mostras e festivais.

“Não tem como falar da história de Herval e não falar da estação. E não dá pra falar da estação e não lembrar da larfiagem, está tudo ligado”, conta a diretora. “A ideia de fazer o filme, que iniciou com a ideia de fazer um livro foi mesmo um resgate, pra gente se conhecer, pra gente saber de onde a gente vem, como esses lugares de Herval foram e são tão incríveis”.

VOCABULÁRIO BÁSICO
Alguns vocábulos da larfiagem:
Zarquia – casa
Lurbiaco – buraco
Minércio – cinema
Rômbia – mulher bonita