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Eu tenho visto o futuro, e talvez ele não funcione

Foto: Will Assunção/JUP

Eu tenho visto o futuro, e talvez ele não funcione. O futuro é (ou era) um grande buraco negro a ser preenchido e eu só posso (ou poderia) conhecê-lo quando caísse nele. Foi neste exato momento em que eu fui fisgado pela atemporalidade. Parte dele (futuro) foi construída por mim. A outra me forço a acreditar que fora arquitetada por um propósito ainda inexplicável.

Acabava de desligar o monitor do meu computador e fechar os olhos respirando lentamente. Eu só conseguia ouvir minhas próprias vozes. Era um dia ensolarado, como os dias anteriores àquele. Estou deitado na grama, meus olhos estão fechados para melhor saborear a sensação de calor no rosto. Eu podia sentir a atemporalidade tomando conta do meu corpo [...]. Vários pontos de luz independentes surgiram em minha mente me permitindo esquecer um pouco da realidade deixada por poucos minutos de lado. Por mais impossível que pareça, no espaço é possível criar um cantinho só seu, um infinito particular.

Tento esquecer onde estou. O futuro sempre me pareceu atraente até eu conhecê-lo. Essa era sem dúvida a pior parte: não ter como fugir da realidade de ser quem você é. Depois da sensação apocalíptica, ela fica a pairar temporariamente apagada por algum tipo de reação que seu corpo sente obrigado a produzir. Eu estive no futuro. Não conheci um dia qualquer daquela realidade que quisesse sair da cama pela manhã. Acordar e abrir os olhos, me deparar com uma realidade jamais imaginada era a convocação para me enterrar ainda mais debaixo de uma existência sem sentido. A inexpressividade, única marca possível, traz o nada como resposta. As pessoas andam, viajam e morrem. Muitas delas sem se darem conta do verdadeiro motivo porque estão aqui, neste pedaço do cosmo.

Se você fica deprimido além de certo ponto, começa a conceber o fim de tudo como um novo começo, pode se preparar para uma vida nova, cintilante de ineditismo, ainda intocada. Era incapaz de sair do futuro, aprisionado a debates interiores. Eu recusava a viver minha realidade. Eu inventava, desenhava, planejava minuciosamente o ocorrido [o que ainda estava por vir], levando em consideração alguns fatores, porém desprezando todo o resto.

Numa tarde de quinta-feira, arrumei minhas malas. Enfiei nela alguns livros, meu material que incluía canetas nanquins, caderno de anotações, máquina fotográfica, além de algumas camisas de algodão e meu casaco que me proporcionava um conforto no inverno da Chapada Diamantina. Viajei para muito longe. Nenhuma foto ou algo que me lembrasse de quem eu era. Não era necessário, pois havia algumas lembranças soltas em minha mente, que me fazia ter a certeza de que estava vivo, e estavam predestinadas a ficarem cravadas eternamente em mim.

Eu padecia de ser, intratável e desoladamente, quem eu era. Eu não conseguia imaginar que um dia voltasse a participar desse mundo. Só quando comecei a entender as leis do universo eu pude perceber que é possível voltar ao presente sem grandes feridas, sem frustrações avassaladoras. A recaída era a pior parte. Nesse momento você tem a certeza de que futuro, presente e passado são as mesmas coisas. Eu voltava a travar batalhas interiores com a mesma fúria. E nem sempre era eu o vencedor dessa luta intermitente.

A única certeza de que eu tinha era a de que nada nunca seria como antes. As pessoas de algum modo não se comportam como no passado, que foi tido como presente até alguns instantes (será isso apenas uma ilusão, uma impressão?). Elas construíram seu futuro, (e posso chamá-lo de presente) através de escolhas feitas. Optaram por um caminho arriscado, mas que naquele instante pôde ter sido o caminho mais conveniente. Eu nunca viverei de conveniências, e talvez esta seja a minha escolha, o alicerce de meu futuro, mesmo que incerto. Uma vida acomodada sempre me pareceu o mais sutil de todos os suicídios.

Neste momento, não me orgulho em ser humano. Reunir mistérios da vida em uma existência tem sido o que eu tenho feito. Chega a certo ponto que não tem mais graça viver de mistérios. As emoções se transformam em tortura, seus vícios são impossíveis de se manterem. Viver nunca foi confiável.

O que mais me deixa perplexo é que a vida pode mudar repentinamente. Seu destino pode ser reconstruído em um piscar de olhos. O universo não é inexorável, pelo contrário, ele é a energia e matéria – será que posso dizer isso? – mais moldável que existe. Pessoas não são sonhos, mas elas sempre se tornam ou tomam o lugar do que seriam sonhos. Eu tenho fissura por gente, sou a antítese da misantropia. Vicio-me no cheiro. Gosto da textura e do sabor que elas me proporcionam.

As convicções e os valores adotados por alguém podem ditar a sua vida; a minha é guiada por muitos deles. Meus desejos já não contam muito por hora, mas eles deverão retornar. Assim deve seguir, segundo as leis naturais. Considero-me alguém respeitável. Talvez Nietzsche se orgulhasse em me conhecer. Não Schopenhauer, ele seria demais para mim. Freud há muito foi vencido. Filosofias a todo tempo se erguem e ficam mais fortes. O ponto de partida para esse ponto de observação (talvez pessimista, talvez otimista; olha a tal perspectiva) sou eu. Casa, amigos, trabalho, família, tudo isso passa a fazer muito ou mesmo nenhum sentido em sua vida. O primeiro passo depois desse pensamento pode ser chamado de futuro, e ele será decisivo.

O que é a vida? Reunir afetos e experiências em sua existência? Tentar viver da melhor forma no tempo que nos foi dado? É difícil dizer o que é algo que não se conhece. Eu posso perceber a mudança, consigo sentir que o novo chegou. Este é o sinal mais claro de que o futuro, passado e presente são uma única coisa. O Universo nada explica, apenas acontece. Descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo, desfazê-lo. A verdade é que ele sempre estará nos esperando no futuro. Esse texto talvez nunca leve ninguém a algum lugar. Estas impressões podem ser apenas um ponto de partida de uma visão particular e idiossincrática de um ser.

O que importa é que eu senti, eu tenho visto o futuro, e talvez ele não funcione.