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Bicho-homem, os 30 vêm aí: será que ainda há espaço para uma crise existencialista balzaquiana?

Foto: JUP

Aos 29 anos, prestes a completar 30, eu tive a coragem de assumir a maturidade inerente a uma idade simbólica, repleta de significados, que todo homem em busca do equilíbrio está sujeito a encarar, mesmo com todos os medos masculinos arraigados à insegurança, dúvidas e angústias; além de uma fome incessante de viver intensamente, herança de uma recente juventude que ficou para trás.

É bem possível que a crise dos 30 se instale em quem ainda não esteja preparado para conceber uma nova etapa da vida, com uma chance cintilante de ineditismo de uma releitura mais tenra e madura de tudo o que já foi vivido. Ou, em uma hipótese mais austera, em quem se deflagra, neste instante da jornada pela própria existência, com o afloramento da vulnerabilidade à ideia de que a juventude ficou perdida no passado. Um sentimento traduzido com maestria nos versos de Hier Encore, canção do músico francês Charles Aznavour.

Eu optei por considerar o envelhecimento um processo natural próprio do ser humano. Fiz as pazes com o meu corpo ao lidar com tranquilidade com todas as mudanças irreversíveis. Aceitei minha magreza estrutural como fator característico do meu porte físico, embora meu peso esteja dentro do índice ideal. Permiti, de uma vez, que os pelos tomassem o meu corpo, apontando em minha barba densa fios mais espessos. O peito, as pernas e as axilas foram contornados levemente por camadas de pelos quase intocados pela máquina. E talvez a partir de agora apareçam aos poucos fios brancos, pois já brotam alguns dourados entre os mais escuros.

Não há lacuna em mim para o medo da famigerada crise dos 30, tão temida pelos homens que chegam a essa idade. Eu estou em paz com o mundo e comigo mesmo. Não alimento a fantasia de que não haja mais tempo para finalizar o que ficou inacabado ou de não ter feito diferente. Sem grande rigor, acredito que este possa ser um instante primordial na minha vida. Na verdade, na vida de milhares de millennials, que, assim como eu, podem se arriscar com o que ainda não foi possível, como realizar sonhos ou quaisquer ambições traçadas muito antes.

Foto: JUP

É inevitável não se deparar com cobranças e questionamentos impostos por uma sociedade que estabelece etapas a serem cumpridas dentro de um determinado prazo na cronologia da nossa vida. Ao chegar aos 30, eu devo, seguindo o pensamento vigente, ter frequentado a universidade e possuir pelo menos um certificado de uma pós-graduação e, conseguintemente, me tornado um profissional estabilizado – o que pressupõe independência financeira-, assim como abandonar o conforto da casa dos pais e planejar uma nova família, falar pelo menos três idiomas, conhecer meia dúzia de países e ter ao menos uma tatuagem. Nessa ordem. O que implica atender a um padrão ideal de vida para garantir a felicidade. O conceito, comprimido e adverso, de sucesso define o status felicidade como um simulacro.

Já encontrou o amor da sua vida? Essa pergunta talvez consagre a tentativa incólume dos mais próximos em arriscarem a começar um diálogo com a intenção de reiterar os longos capítulos perdidos da minha vida depois de um bom tempo sem sentir na pele como eu estou. Eu até entendo que o verdadeiro propósito deles seja o de saber se eu acredito ter encontrado alguém com quem pretendo passar os próximos anos da minha vida. Contudo, eu não vou entrar no mérito e discutir quais os requisitos para uma pessoa ostentar o título de amor da nossa vida.

Quem pertence à Geração Y sabe o quanto somos idiossincráticos, entretanto, a principal e mais marcante particularidade desse grupo, o qual sou representante emérito, é a condição de solitário. Desde muito cedo os desencontros promovidos pelo destino me obrigaram a desenvolver as habilidades de autopreservação de um lobo dos Alpes. A falta de verdadeiras companhias, o azedume intratável na tentativa de consertar todos os destroços pode ser facilmente entendido na letra da canção “Além do que se vê”, do grupo messiânico Los Hermanos, ao versar que “sei que a tua solidão me dói e que é difícil ser feliz...”.

Em contrapartida, a despeito desse sentimento, a minha geração, que está prestes a formar uma legião de balzaquianos, venera a solidão de uma forma peculiar. Eu faço parte do “Bloco do Eu Sozinho” [nome do segundo álbum dos Los Hermanos]. Muitas vezes, eu sinto a necessidade de ficar a sós, para adiante me sentir bem comigo mesmo. Em suma, existe a intenção de quietude em mim, em me renovar, de encontrar a minha própria paz.

Foto: JUP

É um tempo de perceber que até as nossas próprias dores de estimação perdem um pouco o protagonismo nos nossos dias. Algumas vibrações perdem a intensidade, enquanto outras recém-descobertas retocam a vida com um colorido alegre. Chegou o tempo de voltar a olhar as estrelas no céu e de se empolgar com pequenos gestos de quem a gente ama. Nada é para sempre. Mas o que se destaca neste novo tempo é a capacidade de descobrir quem nos tornamos e, a partir de então, definir o que passam a ser nossas prioridades.

Não há como escapar de algumas perguntas que o tempo nos fará. No que acreditamos? O que queremos? O que importa? Quem sempre esteve ao nosso lado? Quem eu quero ao meu lado? É possível fugir de ser quem somos? É bem provável que a essa altura, assim como eu, todos os que estão prestes a se tornar um balzaquiano já devem ter as respostas para todas elas. Às vezes, só nos falta coragem para manifestá-las. E a coragem tende a ser uma engrenagem esquiva na vida de quem já passou pela rebeldia da juventude e já não acha tão empolgante se arriscar como antes.

Por fim, não há como nos definir já que estamos em uma fase intermediária. Não somos mais tão jovens, mas também não chegamos à maturidade da vida. Mas o melhor de tudo é que temos à disposição a consciência de que este é talvez o melhor momento para traçarmos, nós mesmos, o nosso destino.