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Quem quer ser herdeira de Mira Bêra?


A priori, é importante dizer que esta história só fará sentido se você conhecer um pouco das memórias perdidas de um pedaço de chão, chamado de Jussiape por índios bravios, em um tempo em que nada existia por essas terras, e que logo foram descobertas, ocasionalmente por bandeirantes, ao subir essas bandas à procura de minérios preciosos no início do século dezoito. Neste recanto enrugado, incrustrado em uma região que permeia o sertão baiano, há quem já tenha ouvido de bocas velhas e amargas o sabatinado ditado herdeira de Mira Bêra, cuja força pungente não ousa a medir o desprezo por mulheres que já reinaram há muito tempo na antiga capital do gado. O motivo de pouco se saber (e ouvir) sobre a figura fulcral do ditado, que se tornou tabu ao desafiar Deus e o Diabo no reino da Cana-de-açúcar, foi o preço do esquecimento, pago pelo espírito de um vulto carmim.

Escrever sobre o que suponho ser o desfecho da passagem mais dramática de uma lendária rameira que não temia nem mesmo certo coronel de Jussiape, afamado pelos caprichos do poder, é tarefa árdua até mesmo para um cronista corajoso. O pouco que se tem notícia, é que a mulher-dama passou anos a fio desafiando a autoridade de um respeitado intendente, ainda nos primeiros anos do século vinte. Sem pretensão, fundou um exíguo império de putas e gozou de pequenos privilégios nos últimos dias da sua vida, até ser expulsa da povoação por ter sustentado os sortilégios de ser uma mulher dona do próprio nariz.

Imagino que ser puta no começo do século passado não tenha sido coisa fácil, como supunha muita gente à época, ainda mais na imensidão destas terras, onde o sol queima mais uns que outros. Na verdade, ser puta não é lá muito fácil em qualquer época ou canto deste mundaréu de meu Deus, assim penso. Para Mira Bêra, ser puta, era mais do que uma simples vocação ou talento, mas fora a única oportunidade que o destino lhe arranjara. Para ela, depois de muitas idas e vindas pelas vielas do tempo, assumir uma das mais antigas das profissões se tornou um dom. Ao lidar com maestria, nos melhores anos da sua vida, ao cumprir o ofício que exigia o seu corpo, Mira Bêra tivera certeza que havia nascido para ser puta. Embora em sua mente pairasse a certeza de carma, era para ela o destino uma espécie de castigo vindo de outras vidas. Havia se tornado um fardo tão pesado, que podia ser comparado, inversamente, com o peso de uma coroa de diamantes ostentada na cabeça de uma jovem rainha, o que fazia Mira Bêra perceber, então, que já crescera puta e se tornara uma gran-puta desde muito cedo.

Maria de Mira Bêra, nome de batismo que a própria sina encarregara em lhe dar de presente nos preâmbulos da vida, então com 39 anos, recém-chegada a Jussiape, ganhou os olhares de homens que cobiçavam seu corpo: havia de monte aqueles que, mesmo com um olhar de soslaio, admirava secretamente sua vitalidade no torso, desejava secretamente o derrière de suas pernas e se surpreendia com a força descomunal para uma simples mulher de estrada.

Intimamente, muitos ficavam perturbados com pensamentos pecaminosos de tê-la nua, mesmo que por uma única vez, em seus lençóis. Sua pele encardida, castigada pelo sol, herança de pais mestiços, como julgavam outras mulheres da sociedade, não a deixava menos atraente. Pelo contrário, seus cabelos volumosos e encaracolados, distribuídos em madeixas de uma maciez angelical, presos a uma fita de seda vermelha, ao tocar seus ombros nus, conferia-lhe certo charme. O carmim era uma tonalidade sempre presente nos seus vestidos de renda decotados, ousados demais para uma marafona desfilar em pleno Jussiape do início do século vinte.

No princípio, não havia ninguém a seu serviço, era apenas ela e a sua coragem de manter sua honra de puta no Fuça – um emaranhado de casebres tortos, onde a prostituição progredia em uma rua sem reputação, que tivera seus dias em Jussiape. Por aqueles lados, qualquer mulher com o mínimo de distinção era proibida de atravessar. Com certa recorrência, Mira Bêra sonhava em ser rainha da rua do Chamego, mas era um tanto tardio, já que dera espaço para outros sonhos se apossarem de suas ambições. Um ano antes, Mira Bêra havia sofrido muito com a injusta separação imposta pelo seu antigo sócio, que também exercia vagamente o papel de marido. Ela havia sido extorquida, e tudo que um dia havia possuído em vida, perdera. Inclusive, a própria dignidade. Pouco antes, ela decidiu rumar por outros caminhos do sertão e se aventurar à procura de uma nova história. Em suas andanças pelo Circuito do Ouro, havia encontrado um atalho, cravejado nas Lavras Diamantinas, que dava passagem a um caminho que levava aos rincões de Jussiape.

Uma das convicções fabricadas à época era a de que, além de usurpadora, já que se deitava com homens casados, interferindo de forma pecaminosa nos matrimônios, a proxeneta era uma destruidora da moral e dos bons costumes. Era tida como a protagonista de um erotismo diabólico, dona da plateia, o que contribuiu para fazer de Mira Bêra uma personagem pitoresca criada aos olhos e imaginação das damas da sociedade jussiapense. Para a maioria das carolas, ela deveria ser entregue há tempos ao julgo popular, único modo de evitar mais façanhas da cúmplice do Diabo.

Em uma época em que as pessoas reproduziam um comportamento moldado à mentalidade religiosa, um quadro de meio metro chamou a atenção numa das paredes sujas do principal quarto da Casa Grande do Fuça. Nele, um corpo nu, ilustrado a óleo, trazia uma técnica de extraordinária versatilidade oferecida pelo artista, conferindo à tela resultados magníficos. A ilustração de Mira Bêra sem nenhuma peça cobrindo o seu corpo rígido, ganhava status de sagrado entre os homens, como um totem de deuses nativos, perdidos aos olhos da civilização, no quartel general das quengas de Jussiape, e, por ora, impedia qualquer cidadão de subestimar a força que aquela mulher possuía. A arte, que logo ganhou status de blasfêmia, era envolta de mistérios, o que denotava um poder ainda maior à visão daquele corpo nu. Àquela altura, mal sabiam dizer as línguas frequentadoras do recinto que cheirava a conhaque, se quando a prostituta fora retratada, ela acabara de sair da infância e desfrutava dos primeiros anos da juventude, como uma flor que há pouco desabrochou, ou se o quadro houvera sido pintado ontem.

Dizer que Mira Bêra ganhava a vida fácil não é lá muito justo, afinal seus dias poderiam ter elencados todos os adjetivos, menos o de brando. Andar na rua exposta aos olhares de todos os que a subjugavam sem nenhuma piedade e compaixão correndo o risco de levar uma sova de alguma senhora bem casada e de prestigiado nome, punição muito comum a prostitutas daquela época; ser presa sob quaisquer acusações; correr o risco de ter que defender as suas protegidas de algum cliente repugnante ou de qualquer sacripanta que, por ventura, atravessasse o seu caminho; ser, incontáveis vezes, tratada como escória; além de ter que ser obrigada a satisfazer os desejos carnais de naturezas inconfessáveis de grandes figuras da sociedade não poderia, em nenhuma instância, ser descrito como leviano ou à toa.

Com a sorte de uma andarilha notívaga, Mira Bêra teria todas as chances de ter em seu corpo doenças do mundo. Mas nunca fora acometida por esse mal. Também não teve o infortúnio de engravidar e ter que levar uma criança em seu ventre, o que tornaria a sua vida ainda mais dramatizada: jamais desejou transmitir à alguma vida o legado de sua miséria. Embora o que mais provocasse incômodo numa sociedade de base conservadora, com pilares machistas, era o medo de perder, ainda que por algumas noites, seus maridos para as putas, herdeiras direta de Mira Bêra. Além de elas desfrutarem de uma liberdade sexual que só as putas detinham.

Mira Bêra fez do próprio corpo um negócio lucrativo. Ela era uma mercadoria cobiçada por todo tipo de homem daquela região que frequentava o Fuça. A mulher de vermelho, como era chamada para evitar a heresia de dizer o seu nome, mostrou, afinal, que aquela forma de vida alternativa era possível às mulheres sem apego a distintas regras sociais. Ganhar consciência desse doce deletério deixava muitas esposas possessas já que por pudor ou hipocrisia não exerciam a plena realização de ser mulher.

Em um daqueles anos incertos da década de 1930, brotavam em Jussiape diversas mulheres à procura de Mira Bêra. Todas elas, as que chegavam, buscavam fazer parte do seu império de putas, impulsionadas pela avidez de servir a Casa Grande do Fuça. Ao integrar à ordem de mulheres que comandavam a famosa casa de prostituição em Jussiape, elas traziam sempre a consciência da sentença de serem condenadas à marginalidade, como todas as putas daquela época eram. Além de serem excomungadas pelo julgo moral, eram destinadas à vala da vida, ao silêncio do esquecimento.

Pouco se sabe sobre o destino de Mira Bêra, assim como o de todas as outras mulheres daquele metiê. Nunca mais houve alguém que tivesse a coragem em proferir qualquer palavra sobre o seu paradeiro, nem mesmo sugerir onde ela teria encontrado o fim de sua vida. O que se tem em memória, mas passa despercebido por precaução ou puro pudor é o fato de a meretriz ter se apaixonado por um jovem da cidade, perdendo a vontade de se deitar com outros homens e pondo em risco as suas habilidades como prostituta.

O maior pecado de Mira Bêra foi ter se entregado ao amor sem ter tido chance de luta. Em um desatino numa manhã qualquer do mês de fevereiro, Mira Bêra ignorou todos os avisos vindos do coronel e saiu à rua desvairada, ainda com os seios à mostra, após seu vestido ficar em frangalhos, resquício de uma violenta surra que havia levado de homens a mando do coronel, em frente à Casa das putas. Com as forças que lhe restara, a prostitua seguiu rumo à praça da Intendência, gritando delirante aos quatro cantos daquele lugarejo e, para desespero e ira do coronel, chamando a atenção de todos na cidade. A mulher, que ainda trazia em seu corpo uma cor rubra, mistura de suor e sangue, marcas de um embate impetuoso, afirmava com veemência ter cometido o pior pecado que uma prostitua do seu tempo poderia ter o sacrilégio de praticar, o de experimentar o sabor da paixão e renunciar a si mesmo.

Mira Bêra se apaixonara por um jovem que acabara de perder para os anos a mocidade. No entanto era um amor puro e febril sem a sorte de durar. Pois bem, sou puta, e gosto do meu ofício. Levo comigo a alcunha que me foi dada. Sou puta, pois sou livre para ser quem sou e pertencer ao homem e me entregar na cama que me convir, havia dito Mira Bêra depois de levar uma bordoada do coronel, que fez da calçada da Intendência uma zona de confronto entre putas e militares em plena quarta-feira de cinzas.

Depois daquele dia, Mira Bêra levara consigo o desprestígio de ser quem era. Saiu da cidade escorraçada pelo homem mais poderoso daquela povoação, ao ter ouvido que para a sua sorte, desejo não vê-la nunca mais em vida. A cólera do coronel pôde ser sentida pela marafona após tê-lo trocado por um meninote belo e atraente, objeto de desejo entre as melindrosas prostitutas da cidade. Uma escolha traiçoeira conferida à má sorte da criadora da mais famosa e esquecida casa de prostituição de Jussiape.

Para Mira Bêra, o direito de ser puta foi dela por excelência, e isso ninguém conseguiu tirar dela. Ser puta para aquela mulher marchante sempre foi lutar contra a violência física, verbal e icônica, sofrida pelas mulheres daquela época que se destinavam à liberdade de escolher o próprio destino. Defensora do aborto, pândega, galhofeira, baderneira de primeira qualidade. O seu ditado, cá, permaneceu: Quá!, minha fia, princesa de bordel é puta!

_tudo nesta publicação é fictício, exceto o que não é!