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Conceição guarda história de povoação perdida no tempo

Cruz, que supostamente pertenceu a um templo cristão, é mantida na Conceição Foto: Will Assunção/JUP Veja a seleção de fotos da Conceição

O município de Jussiape, na região da Chapada Diamantina (BA), esconde diversos sítios históricos em suas entranhas em meio à natureza. Em uma mesma área que compreende o povoado do Engenho, a Conceição, uma antiga povoação datada do século 18 e 19, que deixou de existir no início do século 20, guarda memórias que se misturam a lendas envolvendo bandeirantes e escravos em busca de riquezas minerais por essas terras. Uma expedição em janeiro de 2018 foi em busca de evidências que comprovassem que realmente houve marcas de distintas etnias nessa região.


A expedição à Conceição rumou em direção a uma localização remota — e mística — de Jussiape, onde não foi só confirmado o rumor da existência de uma antiga povoação, mas de sua extinção por um motivo ainda não descoberto. Uma povoação tão nova para a história do município que ainda há moradores vivos com avós que habitaram essa mesma região. Apesar da dificuldade de encontrar algum morador vivo que se lembre das últimas construções, é possível se deparar com resquícios do que um dia foi casas, cemitério e um templo cristão.

O que poderia ter sido a Conceição?
Essa pergunta intriga estudiosos não apenas do município, como curiosos e entusiastas que se interessam pelo assunto. Por muito tempo, ela foi apenas um rumor: uma povoação perdida, localizada dentro de uma mata fechada, em uma área rural de Jussiape, na Chapada Diamantina, região turística do estado da Bahia. A Conceição vinha sendo estudada nos últimos vinte anos por pessoas que se dedicaram à história de Jussiape, autoridades do município e pelos próprios moradores.

O mais provável é que o local tenha se formado por ocasião das atividades dos primeiros bandeirantes que chegaram a essa região em busca de minérios preciosos, e com eles um grande número de escravos teriam sido trazidos para realizar trabalhos braçais. Essa teoria sustenta a explicação da maciça presença de negros na região. Outro ponto que chama a atenção é uma lenda que surgiu e logo ganhou força, a qual diz que uma riqueza considerável teria sido enterrada junto aos bandeirantes em túmulos que resistem ao tempo em meio à mata fechada.

Cruz, que pertenceu a uma escrava, integra acervo do Museu de Antiguidades de Jussiape Foto: Will Assunção/JUP Veja a seleção de fotos da Conceição

A exploração à povoação perdida no tempo exige calça e calçados fechados para proteger de insetos e animais que provocam um temor maior: répteis peçonhentos muito comuns neste local. O aviso sobre a presença de cobras venenosas foi emitido por um dos guias que nos conduziu a uma trilha que leva até o local onde fica localizado o sítio arqueológico. Apesar de não ser de difícil acesso, o percurso exige preparo físico. Assim como diversas matas do município, ela é um território que oferece alguns riscos a exploradores, especialmente para aqueles que não sabem o que estão procurando.


Umas das maiores referências sobre a povoação perdida da Conceição veio do Museu de Antiguidade do Senhor Onildo Luz Silva, em Jussiape, que salvaguarda, em seu acervo, relatos dos últimos e mais notáveis moradores da Conceição. No entanto é fácil de encontrar outras alegações incríveis de antigos habitantes como moradores locais da comunidade do Engenho.

Um riacho e sua nascente, que permeiam os tortuosos caminhos da Conceição, reforçam a hipóteses sobre a vinda de bandeirantes sertanistas em busca de mineração, pois é provável que o local logo tivesse se transformado em uma paragem, onde negros escravos e bandeirantes europeus se misturavam em busca de ouro. Segundo um geólogo, que integrou a expedição, a constatação da existência de quartzo, com características próprias, nos morros que formam o relevo da região, pode indicar a presença do mineral precioso.

Casa abandonada é vista na trilha que leva até à Conceição Foto: Will Assunção/JUP Veja a seleção de fotos da Conceição

A Jussi Up Press enviou o fotógrafo Will Assunção na expedição que trouxe uma série de fotos e textos sobre os achados. Aparentemente, o número de construções sinaliza que a povoação resistiu ao tempo em diversos pontos até meados do século 20, contrariando uma antiga hipótese de que a povoação teria chegado ao fim nos primeiros anos do século 20.


Um antigo morador nascido no Engenho, em uma casa que fica no início da trilha que leva até à Conceição, construída em 1945, data que marca o fim da Segunda Grande Guerra Mundial, relatou que seu pai havia encontrado três cachimbos numa mata fechada, no coração da povoação que ali existiu. Uma chave – provavelmente da antiga capela – e uma cruz, pertencente a uma escrava que viveu em Jussiape, ambos os objetos encontrados na Conceição, atualmente integra o acervo do Museu de Antiguidades de Jussiape.

Conforme constatado, a maior dificuldade agora é proteger o local de ações humanas. Uma vez que o sítio esteja protegido, começará o processo de catalogar e estudar as ruínas.