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Como lidar com a melhor brabeza já vista em minha vida?

Nenhum amigo nunca teve a permissão de me bater até que eu ficasse caído no chão, sentindo dores em diversas partes do corpo, como alguém que acabou de apanhar – justa punição por ter contrariado a vontade de um soberano abastado. Mas ele também nunca teve. Ele me tomou o direito de ser o mesmo ao admitir levar socos ao fazer algo que estivesse ao contrário do seu agrado: assistir a gêneros de filmes que NUNCA entrariam porta adentro da minha sala, não fosse pela sua insistência sistemática (lê-se: me obrigar a enfiar goela abaixo títulos abomináveis); ser chantageado (emocional e moralmente) ao ponto de me ver obrigado a ceder e ter que realizar pequenos mimos de um adolescente tirado a gente grande, como fazer seu dever de casa inúmeras vezes, acompanha-lo até a sua casa nas madrugadas geladas de céu limpo do Nordeste e escrever textos que levariam sua autoria em vez da minha.

Ele me conquistou por não carregar consigo o tédio das pessoas do nosso tempo. Nem ser o clichê de jovens da sua idade. Ele é um adolescente, mas age como se já fosse um adulto dono do seu próprio nariz. Eu, sinceramente, não sei dizer se é isso o que mais me encanta nele. Mas por esse motivo, é que eu decidi chamá-lo de Gurizão. Ele ainda tinha 15 anos (ou 14?) quando levei o primeiro soco por tê-lo tirado do sério. Confesso que não esperava levar um golpe e não reagir, por mais que viesse de um amigo como ele. Sem perceber, ele já fazia parte da minha rotina, quando ainda morávamos em Jussiape, região da Chapada Diamantina, na Bahia. O adolescente havia também conquistado a minha confiança, tanto é que ele ainda é a única pessoa a levar para longe de mim a minha Nikon. Aprendi na mesma época a ser ultrajado com as ofensas mais impróprias e, em vez de rebater, abraçar como resposta às pedradas verborrágicas.

Como todo adolescente, ele tinha pressa em envelhecer. Ao contrário dele, eu vinha na contramão e sempre dizia que era um insulto do tempo ele ficar mais velho as minhas vistas. Gostaria que ele permanecesse sempre como o meu gurizão. Dizia que não era justo comigo e com tudo que eu sentia – uma espécie de sentimento fraterno que beirava o medo de não mais viver aqueles momentos servidos de chocolate e confissões de dois irmãos unidos pelo destino. Ah, é bom dizer também que sua injúria e cólera pairavam a minha sombra por, às vezes, me negar a contar tudo (e em detalhes) o que já havia se passado comigo. Mesmo eu tendo dito a ele que as nossas histórias nem sempre apenas nos pertence. É bem provável que este tenha sido o motivo principal para eu ser proibido de tocá-lo por algumas horas seguidas do mesmo dia. O que me fazia aproximar dele, quase o tocando, a poucos centímetros, e dizer: eu não te toquei. E eu preciso te dizer uma coisa: isso tem nome e se chama BRA-BE-ZA! Aquilo o deixava irado de uma forma indescritível, e era como se eu o desafiasse para a próxima guerra mundial em um tom jocoso. O seu estado blasé me encantava a um ponto que me fazia sorrir ao levar uma sequência de golpes vindos dele. Foi a partir daí que eu notei o quanto ele já era mais do que um simples amigo com muitas coisas em comum. Ele havia se tornado o meu irmão mais novo, o meu caçula.

Eu o amo de verdade!
Eu nunca sei me expressar o que sinto de verdade quando o assunto são pessoas, mas acredito que ele saiba, no fundo, o quanto eu o amo. É um amor que não dá para explicar. É vontade de querer que ele seja sempre feliz, é ter cuidado, e vontade de proteger (como uma força invisível que o acompanha em todos os momentos), inclusive nas escolhas e caminhos que ele decide seguir. De puxar a orelha quando necessário e festejar sempre que novas conquistas vierem. No fim, o que dá apenas para dizer com convicção é que eu o quero para sempre. Tanto é que o destino também pensa assim, mesmo escrevendo certo por linhas tortas. Não foi por nada que ele se mudou para São Paulo e eu para Florianópolis – cidade a qual ele já desejou morar e considerou nos primeiros dias uma traição imperdoável eu ter me mudado justamente para lá. Depois de tantas reviravoltas na vida, eu caí na mesma cidade que ele. Hoje, dá para dizer que em São Paulo há amor. Mesmo com todos os desencontros promovido por uma megalópole, é possível sempre se deparar bem de perto com certa brabeza: basta provocar.