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Sem relatório oficial sobre o 24 de Novembro, desfecho das investigações reacende discussões

O prefeito de Jussiape Gilberto Freitas Foto: Will Assunção/JUP

Depois de três anos do atentado, caracterizado por uma série de ataques que deixou quatro pessoas mortas, e outras três feridas, após o atirador Claudionor Galvão de Oliveira alvejar, no dia 24 de novembro de 2012, três pessoas do grupo político liderado por Procópio Alencar, além de dois policiais militares, nenhum relatório oficial foi apresentado pelas autoridades à população.

Durante a última sessão de 2012 da Câmara de Vereadores de Jussiape, o prefeito de Jussiape, Gilberto Freitas (PSC), disse que as investigações sobre o atentado deveriam ser encerradas dentro do prazo de 20 dias.

Ainda segundo o Gilberto, as investigações contaram com apoio da Polícia Federal e de mais três delegados, além de ser acompanhada diretamente pelo secretário de Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa. “Ele garantiu a mim, a família de Procópio e de Ordelange uma resposta. Nós, de Jussiape, precisamos saber o que aconteceu de verdade”, concluiu, na época, o prefeito.

ANÁLISE
Will Assunção, editor-chefe da Jussi Up Press, analisou o cenário em Jussiape pós-tragédia no especial produzido pela agência em 2015. Sua análise é fruto de uma pesquisa que se transformou em um artigo de conclusão de curso de pós-graduação na área de Comunicação na Bahia.

Considerado um marco, o acontecimento dá início a uma nova era ao município, regida por uma nova palavra de ordem: paz. Jussiape vive, então, um tempo caracterizado, principalmente, pela promoção da paz entre os concidadãos. O discurso das autoridades e políticos municipais, em especial o do prefeito empossado na época, foi baseado pela decisão de tratamento de igualdade e respeito aos opositores.

Apesar de as investigações da tragédia do dia 24 de novembro, até então, não ter produzido nenhum relatório oficial apresentado pelas autoridades de segurança pública, ao que tudo indica, o atirador tinha um único objetivo definido: atingir os principais líderes partidários responsáveis pela campanha política – de Procópio Alencar – e ações específicas durante o pleito pela Prefeitura Municipal de Jussiape.

“É necessário tratar os fatos com profundidade e evitar leviandade sobre os acontecimentos que marcaram a história da política do município. Não deve ser descartada a importância de analisar de forma detalhada os pontos marcantes da tragédia que levaram à repercussão na mídia nacional e internacional”, defende Will Assunção.

O evento de 24 de novembro rendeu destaque no portal da agência internacional de notícias EFE, uma nota no mais reconhecido telejornal brasileiro, Jornal Nacional, além de duas matérias em versão on-line em importantes veículos nacionais, a Revista Carta Capital e o Jornal Folha de São Paulo. Após os ataques, o município ganhou notoriedade de diversos veículos de comunicação por um período que se estendeu devido à presença maciça da imprensa no local da tragédia.

A questão é tão complexa que nem mesmo a polícia concluiu o relatório oficial, onde deveria expor os diversos motivos da chacina e quais os fatores que levaram o assassino a agir de tal forma. Uma reportagem da Folha de São Paulo, publicada no dia 26 de novembro de 2012, exibia Claudionor Galvão de Oliveira como um vingador.

Já pela revista Carta Capital, o responsável pelas ações é apresentado como vítima algoz, ícone de um grupo de correligionários, que sofreu retaliações após o período das eleições municipais que elegeu Procópio Alencar como o novo gestor municipal. Sem mesmo saber os reais e diversos fatores que levaram a tragédia, boa parte da imprensa abarcou este mote, sintetizando o que foi exposto por parte da mídia brasileira.

“O grande questionamento, portanto, envolve a mídia nacional e como os grandes veículos nacionais de comunicação narraram o ocorrido na construção dos fatos, e na reconstrução de uma realidade, além dos pontos que levaram a repercutir em todo o país”, pontua Assunção.

“Os fatos no cenário se tornam conflituosos, uma vez que, o autor dos ataques, para determinada parcela da população, foi um criminoso doentio, para a outra, uma vítima algoz de um sistema opressor, ou seja, é notável que existam perspectivas diferentes a serem analisadas”, destaca Will.

A (RE)CONSTRUÇÃO DA TRAGÉDIA
Para poder entender a tragédia, que ocorreu no município baiano de Jussiape, a 536 km da capital Salvador, com população estimada em 7.741 habitantes, e com registro de 7.279 eleitores, localizado na Chapada Diamantina (BA), é necessário conhecer alguns eventos que antecederam o fato que deixou quatro pessoas mortas e outras três feridas.

No dia 26 de julho do ano de 2010, Vagner Neves Freitas (PTB), prefeito eleito na chapa que tinha Procópio Alencar como seu vice foi cassado pela Câmara dos Vereadores por quebra de decoro parlamentar. O vice do gestor cassado, que não mais integrava o mesmo grupo político, assumiria a gestão municipal após sessão que afastaria definitivamente Vagner Freitas do seu mandato como prefeito.

Na época, ele respondia a três processos em São Paulo por formação de quadrilha, roubo de cargas, cárcere privado e tráfico de drogas. Em um desses processos, na 6ª Câmara de Direito Criminal do TJ paulista, foi condenado a 12 anos de prisão, cumpriu quatro anos de pena no Carandiru e ficou em liberdade condicional.

No dia da posse de Procópio Alencar como novo gestor da prefeitura municipal de Jussiape, ele próprio falou em entrevista ao jornal A Tarde que temia pela própria vida. “Eu temo que algo possa me acontecer, porque Vagner Neves é muito violento e estava dizendo que não ia entregar o cargo”, afirmou.

Vagner havia sido cassado por seis votos a dois, sob alegação de infração político-administrativa e quebra de decoro por ter subido em uma das janelas do prédio da Câmara e ofender os parlamentares de ladrão. No ano de 2012, Procópio Alencar disputou as eleições municipais com Vânia Dulce Novais (PMDB), sobrinha de Procópio e esposa de Vagner Neves. Tempos depois, Neves ficaria inelegível pela Lei da Ficha Limpa.

O médico-prefeito, como era conhecido no pequeno município, venceu as eleições com 959 votos de frente. Dias depois das eleições, alguns correligionários estenderam as comemorações da vitória política e saíram, sistematicamente, com um carro de som pelas ruas da cidade tocando músicas da campanha eleitoral, numa forma de retaliação.

Claudionor Galvão de Oliveira, 43, também conhecido como Coló, foi um dos que sofreram bullying ao receber ameaças de que seu ponto comercial seria tomado pela nova administração. Foi, então, nesse contexto, que o comerciante, que também é caçador de animais de pequeno porte, decidiu se vingar dos rivais.

Munido de um revólver e uma espingarda, três cinturões e uma capanga (espécie de bolsa de caça), cheia de munição, matou o prefeito eleito, a primeira-dama e um servidor público municipal.

Antes de ser morto por um policial militar, feriu outros dois policiais da Polícia Militar, um deles com um tiro na cabeça e, no mesmo instante, se envolveu em uma troca de tiros que deixou um mototaxista ferido, segundo afirmações de testemunhas à imprensa, por um disparo efetuado por um policial militar.

O prefeito-médico Procópio Alencar Foto: Will Assunção/JUP

A CAÇA PELAS RUAS DA CIDADE
O percurso da tragédia começa na manhã de sábado, 24 de novembro de 2012. A primeira vítima a morrer foi o gerente local da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), Ordelange Pereira, 46. Ele levou um tiro na cabeça enquanto se reunia com amigos em um bar na Rua Direita.

Com roupas de quem iria caçar no mato, Coló seguiu caminhando em direção à casa do prefeito. No percurso, encontrou a primeira-dama Jandira Alencar, 71, atirou uma vez. Caída, e ainda com vida, ela recebeu um segundo tiro. Procópio, 76, o prefeito que também trabalhava como médico no município, foi morto em seguida no seu consultório que ficava ao lado de sua casa.

O atirador fez refém um mototaxista, obrigando-o a levar na casa de dois irmãos apoiadores do prefeito que, por sorte, não estavam em suas residências. Em seguida, Coló foi morto na Praça Rodrigo Alves Teixeira, centro da cidade, por policiais militares. Antes, feriu, com um tiro na cabeça, um desses policiais. Segundo testemunhas, o comerciante sempre afirmou ter a intenção de chocar a cidade com uma tragédia.

Nos dias seguintes, durante os velórios das vítimas, o governador Jaques Wagner esteve em Jussiape onde alocou 25 homens da Polícia Militar. Logo depois, foi anunciado pelo secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, que a cidade ficaria com dez policiais fixos.

MUDANÇA DE POSTURA
Na última sessão de 2012 da Câmara de Vereadores de Jussiape, o prefeito de Jussiape Gilberto Freitas se pronunciou sobre sua futura gestão no município. “Eu peço a todos que tenham paciência. Porque lá para o mês de março a cidade estará me aplaudindo”, disse se referindo as intervenções administrativas realizadas no município.

“Estou preocupado em colocar Jussiape entre as melhores cidades. Mas não em me reeleger. Vejo a cidade como uma grande empresa (...) sou o administrador de Jussiape”, completou o prefeito.

“Vou ser alguém firme na prefeitura, mas vou ter algo de Dr. Procópio: o amor a todos”, disse Gilberto finalizando seu discurso.

O prefeito de Jussiape Gilberto Freitas Foto: Will Assunção/JUP

Contrariando seu discurso do início do mandato, Gilberto viu sua popularidade despencar após não cumprir as metas estabelecidas pelo seu governo. Ainda no início de 2013, Gilberto foi considerado um dos gestores com o maior índice de aprovação no interior do estado, com investimento em Educação, Cultura, Turismo, Saúde e conquistas para o município na esfera estadual e federal.

Já em 2014, sua gestão é apontada como “declinante”, após o prefeito ir de encontro ao seu discurso e ser apontado como um político impopular. Gilberto também teve que lidar com a crítica dos opositores que o acusam de apresentar ações que camuflem o vazio da sua gestão e de possuir um discurso demagógico e populista.

Anteriormente, havia sido questionado por um perfil anônimo em uma rede social de ter aumentado de forma suspeita seu patrimônio material, junto ao de sua sobrinha e secretária de Finanças Vilma Lúcia. Em 2015, foi acusado pela oposição de integrar e liderar esquemas de corrupção que, segundo denuncia dos vereadores José Roberto (PTB) e Jadiel Carvalho (PMDB), teria utilizado para fins particulares recursos, funcionários, equipamentos e maquinários destinados às obras e outros serviços públicos, o que lhe rendeu uma Ação Civil Pública impetrada pelo Ministério Público Estadual.

Recentemente, funcionários contratados pela Prefeitura foram demitidos para conter o aumento de pessoal na folha, após o prefeito ser notificado. Os salários de outros servidores sofrerão uma diminuição que deve chegar até 20%, segundo informações obtidas pela Jussi Up Press.

Com popularidade em baixa e sem nomes de predileção para indicar às eleições de 2016, depois da sobrinha e sucessora Vilma Lúcia ficar em último lugar nas pesquisas de intenção de voto, Gilberto foi obrigado a tomar decisões que contrariam a base do próprio governo, incluindo o corte no orçamento de gastos previstos e rebaixamento do salário de funcionários.