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O Canyon do Cantagalo por quem já esteve lá

Canyon do Cantagalo Foto: Will Assunção/JUP

Foi ousado de minha parte e por parte de todos aqueles que, de alguma forma, tiveram a ideia de criar uma trilha por cima da formação geológica que cerca um dos mais encantadores Canyons da Chapada Diamantina e da Bahia, o Cantagalo, localizado no povoado da Cruz, em Jussiape, a 24 km da sede do município.

Em 2014, quando fui secretário de Turismo em Jussiape, um investimento, que não foi concluído pela Prefeitura Municipal, de uma trilha, que teria como objetivo oferecer uma travessia segura até o final do canyon, possibilitaria atrair apaixonados por esportes radicais.

Antes da trilha, que atravessa o Cantagalo por cima, era praticamente impossível ter acesso a outros lugares do canyon. Quem se atreveu a chegar até a última cachoeira, se deparou com os grandes paredões rochosos, corredeiras e a força das águas frias que se defrontam com as rochas ao longo do percurso do Rio Água Suja. O local ainda possui penhascos com mais de cem metros, propiciando uma vista deslumbrante do canyon.

A primeira vez que desbravei o Canyon do Cantagalo, em 2010, quando ainda não existia a trilha, eu tive que assumir alguns riscos, e seguir por um caminho mais perigoso entre os imensos paredões que fazem daquele lugar um santuário quase intocável. Na época, eu havia feito uma promessa de que jamais voltaria ao Cantagalo pelo mesmo caminho, correndo risco de morte. Eu, então, havia atravessado na companhia de outros aventureiros, sem nenhum equipamento de proteção, para escrever uma reportagem e fotografar para a Jussi Up. Há quem não acredite nessa narrativa, portanto, eu passei a exibir minha única prova, além da minha palavra e a dos meus companheiros de expedição: uma foto publicada no Instagram anos depois.


Da primeira vez, nós fizemos rapel, escalamos imensas rochas que nos provaram que não passávamos de minúsculas criaturas comparadas ao colossal conjunto geológico que forma a região. Realizar o feito nos exigiu apenas os nossos próprios instintos como proteção, além, é claro, da coragem de atravessar, a nado, violentas correntezas que formam as corredeiras acompanhadas de mais de nove quedas d’água, cada uma mais deslumbrante que outra. Depois de sobreviver a essa aventura, sair de lá me achando um semideus, meio que imortal. Um Indiana Jones à brasileira.

Mas hoje, depois de cerca de 7 anos, a coisa mudou. E bastante. Depois de ser construída uma trilha que contorna os imensos paredões do Cantagalo, percorrer não somente o trecho das corredeiras, como todas as montanhas que antes eram praticamente impossíveis de alcançar, chegar ao seu cume virou tarefa de seres mortais. A trilha criada permite o acesso fácil e menos exaustivo a diversas outras partes do canyon. Até um idoso ou uma criança poderia fazer parte deste percurso.

No atrativo de grandeza inestimável, como eu costumo descrever o território mapeado e, principalmente, o canyon, a possibilidade para prática de esportes radicais como rapel, escalada e rafting fica mais evidente. Quando escrevi essa reportagem, eu conheci Erasmo Silva, o guia local que conhece praticamente toda a área que foi explorada. Erasmo também foi um dos responsáveis pelas misteriosas esculturas colocadas nos imensos paredões, além de instalar toda a encanação que leva água para a comunidade local.

O percurso do Cantagalo é uma verdadeira aventura. Para quem consegue chegar até o final do caminho e desfrutar de todas as belezas existentes ali, é como se tivesse encontrado um tesouro escondido século atrás e esquecido pela humanidade. Lá do alto, ganhei o céu por achar que na terra ainda há lugar para a esperança. Foi essa a sensação que eu tive ao andar pelas grandes formações geológicas que formam toda a região. É uma visão que eu acredito ter sido descrito em algum livro de Tolkien.

Do alto, meu corpo ansiava por um banho gelado entre as cachoeiras formadas ao longo do caminho. O calor na trilha é quase insuportável, principalmente no verão, e o meu corpo já estava exausto. Nada melhor do que cair, sem medo, naquelas águas geladas para repor as energias. Pedi ao nosso guia que descêssemos imediatamente para desfrutarmos um pouco das corredeiras. Não conheci sensação melhor do a que meu corpo sentiu ao ser arremessado naquelas caudalosas e escuras águas. Nunca estive tão sedento por um banho como naquele dia.

A volta, que é composta por mais descida, foi tranquila, apesar da fome e da exaustão, que já darem os primeiros sinais ao meu corpo. Parei um pouco na trilha e fui descansando até chegar ao ponto onde nós nos acampamos. Lá, um churrasco preparado por um time de aventureiros apaixonados pelo Cantagalo, se transformou em uma parada, que fez parte do ritual, para reunir todas as impressões e poder, então, começar a construir a minha história.