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Lula, o antagonista da imprensa brasileira

Will Assunção


UM QUESTIONAMENTO
Em tempos em que o ódio e o desrespeito à condição humana ganham o tatame do debate, um amigo veio até mim, mui respeitosamente, questionar o motivo que me levou a apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo com o nome dele envolvido em escândalos. Eu sabia que aquele questionamento era sincero e livre de intenções raivosas. Portanto, eu podia me expressar desafogadamente, sem temer por reações hostis.

Originalmente, a resposta ao meu amigo foi publicada em uma rede social, mas logo vi que meu discurso, chamado por ele de elaborado, poderia se transformar em uma crônica sobre o desespero do povo brasileiro. E, cá, está o meu veredito de cidadão-eleitor. Antes de despejar tudo o que eu penso sobre a atual conjuntura política brasileira, fiz questão de dizer que a pergunta dele foi a mais inteligente que eu ouvi até o momento sobre meu posicionamento político.

POBRE DEMOCRACIA
“A democracia não é tudo o que dizem”. Eu sempre soube que usaria essa frase do presidente Frank Underwood, personagem central da série americana House of Cards, a favorita dos ex-presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama, em algum dos meus textos. Não, não é tudo o que dizem, mas, de todos os regimes políticos, a democracia tende a ser o mais justo que inventamos até agora. E é por isso que a frase do presidente Underwood faz sentido. Em países como o Brasil, a democracia, como sistema de governo, parece não funcionar direito porque o país possui uma população que não tem acesso à educação. E tem sido essa a intenção de muitos políticos Congresso afora. 

Como consequência, a população também não entende os mecanismos que fazem funcionar a engrenagem do sistema democrático. Outra questão que surge neste emaranhado de ideias é que, nestes tempos, legalidade tem muito mais a ver com poder do que com justiça. As sentenças e decisões vindas do Judiciário refletem sempre a figura de quem está no poder. Um bom exemplo de como o nosso Judiciário é questionável é Rafael Braga, catador de lixo, negro e favelado, condenado a 11 anos e 3 meses de reclusão por simplesmente portar um produto de limpeza. Enquanto, manchetes na imprensa, não raramente, ilustram inúmeros políticos e empresários- homens do poder- serem soltos após sentenças com bases em brechas na lei.

ENFIM, LULA!
Enfim, Lula. É pertinente dizer que eu não optaria por Lula se houvesse opções. A democracia é um sistema que nos obriga a fazer escolhas que muitas vezes nos contraria. E qualquer um deve admitir que isso é sofrível sob quaisquer circunstâncias. Desde a era Dilma, sempre fui oposição ao PT por considerar o governo da ex-presidente incompetente e vir acompanhado de ranhuras de corrupção. Mas, de lá para cá, logo no início do processo do impeachment, eu me deparei com outra realidade do cenário político brasileiro, desta vez, temeroso pelo retrocesso e ataques ao próprio povo brasileiro; vi a face dos grandes partidos, e entendi um pouco mais como funciona o sistema político que rege o país. 

Presenciei golpe atrás de golpe contra o Estado democrático de direito e, consequentemente, contra a nação; todos eles orquestrados por políticos de partidos como o PSDB e PMDB, com total apoio da grande mídia. Em seguida, de forma sistemática, percebi que apenas alguns políticos de partidos como o PT eram tratados com uma espécie de severidade seletiva e parcial, tanto pelo Judiciário, quanto pela imprensa, que, honrando a sua trajetória pela história, se instrumentalizou para atender a interesses próprios e corporativistas.

MAS, LOGO LULA?
É percebido claramente que o pau que bate em Lula não bate em Temer ou Aécio. Há sempre por parte do Judiciário e da grande mídia um tratamento parcial com alguns dos envolvidos. E eles sempre tendem a ser do PT. Isso foi escancarado. É vergonhoso para a nação o vácuo que a Justiça deixa. Se houver provas e meios, que condem Lula. No entanto o que vimos é um espetáculo midiático com o elenco para apenas uma personagem: Lula. Revoltou-me. Faz qualquer um chutar o pau da barraca. E assim o fiz. Desde então, me questionei com o medo natural de que qualquer brasileiro que teria na hora da escolha de um presidente: qual deles poderia fazer de fato um Brasil melhor? Olhei para o passado, vi o presente e pensei no futuro. Não há escolhas. Fiquei triste. Jamais votaria em alguém que segue fielmente os preceitos do PMDB, muito menos do PSDB. Nomes como Bolsonaro me causam asco. Sobrou Lula.

LU-LA-LÁ
Se você me perguntar se eu acredito na inocência de Lula. Eu direi que não. Mas, finalmente, há provas contra ele? A resposta segue negativa. E é por isso que eu recorro novamente aos números da roubalheira. O ranking da corrupção passa longe de pertencer ao PT. Mas, as primeiras colocações ficam com partidos como o PSDB e PMDB. Sim, eles aparecem no topo da lista de partidos mais corruptos do Brasil. Mais uma vez eu pergunto: você consegue entender em que contexto vivemos atualmente? A acusação sobre Lula ser dono de um tríplex, reformado com dinheiro de propina da OAS, se transformou em uma novela com capítulos dramatizados pela tevê Globo e, especialmente, pelo seu telejornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional. Nomes como o do atual presidente Michel Temer, citado pelo menos 43 vezes na Lava jato, com 4% de aprovação e 8 ministros delatados por corrupção, e do senador Aécio Neves, político de destaque com maior número de pedidos de investigação e citado inúmeras vezes por delatores,
sempre ficam isentos do roteiro dramatúrgico de William Bonner.  

Após a imprensa internacional especializada estampar que 1 ano do governo Temer deixa um legado de retrocessos no âmbito social e perda de confiança no sistema político; assim como as reformas promovidas até agora beneficiariam apenas a própria classe política e ricos, vi que a única saída possível é apostar em Lula de forma CATÁRTICA, porque ele, apesar de ruim, significou para o Brasil o impensável. Basta olhar os números do seu governo. Os grandes partidos no Brasil são tão ruins, mas tão ruins que eu me vi, por descrédito e anseio pela retomada do país à economia, a ter Lula como minha última opção. Lula não é o ideal, mas arrisco dizer que é o que o país precisa neste momento.

É FESTA???
Mais parece que a cada ação positiva voltada para Lula eu festejo, não é mesmo? Imparcialidade é um mito. Há sempre um olhar de alguém diante de algo. Um recorte, um ângulo, fruto de determinados fatos, em um contexto social etc. O que acontece é que o governo de Temer e a sua base aliada vêm fazendo tamanhas atrocidades contra o povo brasileiro e, justamente, nesse beco sem saída eu me deparo com o ex-presidente Lula. E veja só, nós estamos, aparentemente, almejando posições equivalentes. Consegue novamente imaginar o contexto? 

E para obter conquistas de direitos individuais e coletivos, no plano econômico e na própria política, já que ela é indispensável para construir um país mais livre e justo, é preciso muitas vezes de estratégias que significam fazer escolhas difíceis. Meu lado, como cidadão, é o mesmo que está a população brasileira, que vem a cada dia perdendo batalhas para um governo que atende aos interesses de uma elite formada pelo empresariado. Como qualquer embate que envolva uma elite conservadora que nunca admitiu as conquistas adquiridas ao longo da história pelo povo, há, sempre, que existir um antagonista, e esta personagem escolhida pela mídia é justamente o maior nome que a esquerda possui atualmente. Surge, então, mais uma vez Lula.

A TRAMA DA GLOBO
Com duração de mais de 5h, o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba, foi acachapante. Recortes da audiência do ex-presidente foram divulgados ainda ontem, quinta-feira, 11, e nele o líder petista ilustrou quase que didaticamente como o seu julgamento pertence muito mais à imprensa do que à Justiça. Ele explicitou, por exemplo, como é perseguido por uma figura do Judiciário que se tornou herói da extrema direita brasileira e é reportado como celebridade hollywoodiana em revistas como a Veja, em que os leitores tratam-no como príncipe da elite verde-amarela.

No depoimento considerado histórico pela imprensa, Lula reclama ao juiz a ausência de provas contra ele e explicita a trama criada pela Globo com a ajuda do magistrado. O que ficou evidenciado na batalha dos Titãs é que a própria Lava Jato avalia que Lula venceu o embate também no tribunal. Até porque na ocupação das ruas, ele já havia vencido. “Talvez o senhor tenha entrado nessa sem perceber, mas seu julgamento está, sim, ligado à imprensa e aos vazamentos. Entrou nessa quando grampeou a conversa da presidente e vazou. Conversas na minha casa [...] e vazou. [...] quando mandou um batalhão me buscar em casa, [...] sem me convidar antes, e a imprensa sabia. Tem coisas nesse processo que a imprensa fica sabendo primeiro que os meus advogados. Como pode isso? E, prepare-se, porque estes que me atacam, se perceberem que não há mesmo provas contra mim e que eu não serei preso, irão atacar o senhor com muito mais força”, disse Lula.