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Esperança em tempos de guerra – uma história contada por uma sobrevivente

Will Assunção

Foto: Will Assunção/JUP
Marie Genovieve, uma sobrevivente da Segunda Guerra Mundial Foto: Will Assunção/JUP  

DIANTE DA MORTE
A jovem Genevieve Marie Françoise Setier, de apenas dez anos, corria assustada junto a sua família para o porão de sua casa ao ouvir os trilhos entrarem em atrito com as rodas do trem carregado de nazistas na estação que ficava próxima onde morava. Da janela da sala ela podia ver os alemães invadirem a pequena comunidade de Annonay, na região do Ródano-Alpes, no leste da França. Tomada pela curiosidade, Genevieve conseguiu ver algumas pessoas se abraçando. No entanto o que, na verdade, ela via eram judeus se despedindo de parentes e amigos para irem direto para algum campo de extermínio na Alemanha.

Naquele momento, alguns franceses que presenciaram a cena, tomados por algum sentimento, armaram um plano para impedir que o trem levassem seus vizinhos fadados ao sofrimento, à crueldade e à morte. O chefe da estação, um mecânico e o pai da jovem francesa fizeram o trem mudar de caminho, relembra Genovieve. Instantes antes da partida do trem, alguns deles armaram uma emboscada para os nazistas. O comandante daquela operação que levaria os judeus para um campo de concentração nazista foi morto, e o restante dos soldados alemães se viram em desvantagem. Diante da situação os homens de Hitler não poderiam fazer muita coisa. Assim que os judeus perceberam que estavam salvos “foi aquela alegria”, recorda a sobrevivente, trazendo os relatos da história mais sombria da humanidade diretamente do passado.

MEMÓRIAS DE UMA GUERRA
Outra cena que Genovieve não consegue tirar das lembranças dos tempos de guerra são os bombardeios sofridos pela França. Em meio aos ataques aéreos dos nazistas, ela viu alguns de seus vizinhos serem raptados por soldados do exército de Hitler. A francesa que sobreviveu aos conflitos conta que certa vez os bombardeios aéreos começaram e todos estavam jantando, quando, de repente, ouviram à mesa um barulho ensurdecedor. Sua mãe, seu pai e seu irmão correram, cada um, para um quina da casa, pois, caso a bomba atingisse a área onde ficava a sua residência todos eles poderiam ter a chance de sobreviver.

Outra vez, uma bomba chegou a explodir a cerca de 5 km da comunidade onde ela morava e todas as janelas tiveram os vidros estilhaçados a centenas de metros por conta da explosão, descreveu. Pouco tempo de a guerra ter começado ela teve que interromper os seus estudos quando um jipe explodiu no caminho que percorria até chegar à escola. “Todos nós queríamos ver o que havia acontecido, mas tivemos que interromper os estudos”, contou. Logo depois, com pouco mais de dez anos, Genovieve teve que morar um ano no campo com o seu avô, enquanto os conflitos assolavam diversos países da Europa.

A Segunda Guerra Mundial esconde histórias particulares de pessoas comuns que viveram o maior conflito da humanidade. A francesa Genovieve Marie Sertier, com 80 anos hoje, sobreviveu aos ataques sofridos pelo seu país e conta como foi ver o exército francês ter que enfrentar 3,3 milhões do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), enquanto os Aliados (A União Soviética, os Estados Unidos e o Império Britânico, como as principais forças) dispunham naquele momento de 2,8 milhões em tropas.

A GUERRA EXPLODIU
É bem provável que a Segunda Guerra tenha começado em Gdansk, no dia 1º de setembro de 1939, quando um navio alemão atacou um forte polonês. Para a francesa, a principal sensação sentida nos primeiros momentos da guerra foi o medo avassalador, um pavor inominável. Já o seu fim foi descrito através de uma simples palavra: alívio. 

“Naquela época tudo o que você comprava era azul, branco e vermelho, as cores da bandeira da França”, conta sorrindo. O imperador japonês decretou rendimento no dia 15 de agosto de 1945, após os EUA lançarem uma ogiva nuclear sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki no dia 6 de agosto daquele mesmo ano sob o governo de Harry S. Truman.

MINHA HISTÓRIA
Esta é a história de uma jovem francesa que se viu no maior conflito de todos os tempos. Segundo Genovieve que hoje é uma simpática senhora que vive em Jussiape e se dedica a missão de ajudar os mais pobres, Hitler nunca foi visto como um gênio do mal pelos europeus, especialmente pelos franceses, mas um símbolo do mal que levou a Europa e toda Alemanha ao caos. A imagem de célebre, de estrategista, que Adolf Hitler cultivou, além de gênio político-militar, chegando a ser comparado inúmeras vezes com Napoleão, se deu pelos primeiros sucessos em batalhas, ocasionados meramente pela sorte. O Führer, na verdade, era extremamente vaidoso e gostava de investir e se arriscar, se exibindo para metade do mundo, literalmente.

Nesta história, a luta dos judeus ganha força, e o mito de que eles eram passivos na maior guerra vivida pelo mundo é desmentida. Outro fato é que: os soviéticos decidiram a guerra, boa parte do mérito seria deles, uma vez que em campo mataram 10 vezes mais alemães que americanos e britânicos juntos. E, ao total, as perdas de vidas humanas somam-se mais de 70 milhões, entre eles negros, homossexuais, judeus, deficientes físicos e soldados, ao invés de 40 milhões como nos sempre foi passado.

BOMBARDEIOS
Depois de invadir a Polônia, a Alemanha dá o primeiro passo para o início da Segunda Guerra, parte do território do país invadido havia ficado com a antiga União Soviética. No ano de 1940, países como Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França haviam perdido entraves políticos e territoriais. Enquanto outros países do continente como Portugal, Espanha, Suíça e Suécia não haviam se rendido às investidas, embora houvessem se mantido neutros naquele momento.

Em seguida, foi a vez de Londres ser bombardeada por aviões nazistas. Neste momento da guerra, diversos países da Europa, incluindo a França, passaram por racionamento de energia, comida e outros mantimentos. Genovieve conta que teve que poupar comida e apenas tinha direito a ¼ de leite do que dispunha antes dos entraves. 

A capital da Inglaterra do Rei Jorge VI e da Rainha Elizabeth, mãe de Elizabeth II, estava prestes a se ver rendida. No entanto a resistência pelo primeiro-ministro Winston Churchill quando apresentou a população um discurso ufanista, unido ao fato da realeza britânica ter recusado asilo político oferecido pelo EUA, ajudou a manter a confiança da população. “Morrerei com meu povo”, disse Elizabeth Bowes-Lyon durante os grandes ataques sofridos pela Inglaterra.

Os alemães mantinham uma certeza categórica de vitória naquele instante da guerra e na tentativa de se firmar como nova potência do planeta, e ajudar os seus aliados japoneses, declarou guerra aos EUA. Arrogante, Hitler dispensava quaisquer conselhos oferecidos pelos seus estrategistas militares e passou a seguir seus próprios instintos. Ocupar Stalingrado era o próximo objetivo, passo importante na guerra para ele naquele momento. No entanto havia outra opção, ocupar territórios do Oriente Médio, garantindo acesso a reservas de petróleo e posicionando seu exército em um local próximo à URSS.

Em 6 de junho de 1944, os Aliados desembarcaram no norte da França, na Normandia, onde aconteceu o Dia D. Naquele dia, os Aliados tomaram a Normandia, o assalto foi realizado em duas etapas: uma aterragem aéreo contando com 24 mil britânicos, estadunidenses, canadenses e franceses aerotransportados pouco depois da meia-noite e um desembarque anfíbio da infantaria aliada e divisões blindadas na costa da França. A operação foi a maior invasão anfíbia de todos os tempos, com o desembarque de mais de 160 mil homens.

O papel dos soviéticos na batalha é pouco conhecido, o exército vermelho derrotou e matou muitos alemães. Foram 4 milhões de baixas nazistas no leste europeu, contra 400 mil no oeste. Nas próximas batalhas que seguiam envolvendo a antiga URSS, a própria população do país serviu de exército improvisado, formado por camponeses, operários, crianças e mulheres. Enquanto não havia um exército estruturado para contra-atacar os nazistas, os comunistas não tiveram escrúpulos de usar toda a população disponível como soldados. Somente a Ucrânia perdeu 30% de sua população, enquanto a Alemanha, derrotada, não perdeu mais do que 10%.

Quando os americanos jogaram a segunda bomba atômica sobre o Japão, em Nagasaki, o império do Sol Nascente que desafiou os EUA também manteve seu próprio holocausto e matou mais de 6 milhões de pessoas em países ocupados como a China, Indonésia Filipinas, segundo pesquisas realizadas pela Universidade do Havaí.

VINDA PARA O BRASIL
A atuação do Brasil na Segunda Guerra Mundial no norte da Itália ganhou destaque mesmo assumindo papel secundário. Os pracinhas brasileiros lutaram bravamente em condições estratégicas e climáticas desfavoráveis. O Brasil apenas entrou na guerra porque os EUA, além de oferecer apoio financeiro e técnico para a construção de uma siderúrgica, apontavam para a possibilidade de o Brasil ter destaque na futura Organização das Nações Unidas (ONU), Getúlio Vargas logo se viu numa situação que enchia seus olhos e vislumbrava um futuro promissor. 

Mas, em agosto de 1942, submarinos alemães afundaram 6 navios brasileiros, matando 607 pessoas. Até o final da guerra, 31 embarcações teriam sido abatidas. O Brasil declarou guerra e foi o único país latino-americano a enviar tropas para o front.

A Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcou em Nápoles, na Itália e logo se uniu ao Exército dos EUA, que combatia os nazistas naquele momento. Quase toda a guerra travada pelos brasileiros na Itália foi realizada em montanhas. Os soldados não conheciam direito seus armamentos e os oficiais precisaram aprender um jeito de traçar suas estratégias de ataque. Outro problema era a temperatura nas montanhas, os pracinhas não tinham roupas para suportar um inverno rigoroso de -20 °C, e tiveram de pedir roupas emprestadas ao Exército dos EUA que, aliás, também cuidava da saúde dos pracinhas.

Mas Genovieve só viria para o Brasil depois de todos os países envolvidos terem declarado o fim da guerra. Tomada por uma nova consciência de vida, ela agora trazia uma filosofia na bagagem, herança da maior guerra que o mundo já enfrentara. Sua família agora se organizava para continuar a seguir a vida, e prontos para outra guerra. “A gente tem que aprender a viver. Saber viver bem, porque se começar outra guerra você tem que saber...”, ouvira de seu pai antes de partir para o Brasil. “Meu pai, que já viveu a Primeira Guerra Mundial, me disse isso uma vez”, afirmou em seguida.

Pouco tempo depois, Genovieve se uniu a um grupo de jovens humanitários, viajou pela Europa indo até a capital da Itália, Roma, onde já estaria preparada para se dedicar a uma nova vida: servir a Deus. Lá conheceu muita gente que influenciaria a sua vida. “Aprendi bastante coisa importante como o amor e a vida”, diz a humanitária. 

Em suas andanças pelo sul da França, onde passou algum tempo acampada, teve a oportunidade de conhecer a irmã de Antoine de Saint-Exupéry, autor do romance clássico de grande teor poético e filosófico, O Pequeno Príncipe. “A conheci (a irmã do escritor) perto da casa dele no sul da França. Ele escreveu um livro, O Pequeno Príncipe”, relata a irmã Genovieve.

Em seguida, se inscreveu em um programa missionário que a traria ao Brasil e realizaria seu maior desejo: ter contato com índios brasileiros. Sua experiência tão sonhada foi concretizada depois de partir para o Brasil em um navio e chegar ao Mato Grosso, trazida por um avião das Forças Aéreas Brasileiras (FAB), onde conviveu um tempo com índios da tribo Tapirapé. 

“Para mim, foi realmente um encantamento, eles possuem os mesmos defeitos que a gente porque eles são humanos. Mas são de uma humanidade...”, afirma. Genovieve não pensa em retornar ao seu país de origem, apesar de ter visitado nos últimos dois anos seus amigos e parentes na França. Mas se vê apaixonada pelo Brasil. “Você não imagina como o Brasil cativa a gente!”, diz com um olhar emocionado. No fim da entrevista ela me aconselhou a não estranhar os franceses, pois “eles são um pouco frios, não são como os brasileiros”.

Revista Superinteressante
Memorial da Segunda Guerra