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Em ritual na Quaresma, mulheres livram almas de irem para o inferno

Will Assunção



Presenciar o ritual da Encomendação das Almas numa encruzilhada, em Jussiape, em uma noite de lua cheia por esses tempos é quase tão improvável quanto não se arrepiar ao ouvir o som de um dos cantos lamentosos das mulheres salvadoras de almas. O céu encoberto por algumas nuvens acinzentadas tomam a cidade durante a Semana Santa, que parece ter se apossado do clima durante a Quaresma. 

Assim como as mulheres das almas, muitos homens e jovens embarcam em um estado de devoção em um período considerado santo, e durante esse tempo, crenças e culturas se misturam firmando um sincretismo religioso existente em diversos municípios da região da Chapada Diamantina, na Bahia.

Depois de a população ganhar o dia debaixo de um sol abrasante e suportar um calor que pode facilmente alcançar os 34ºC em pleno outono, chega de forma repentina a serenidade da noite numa cidadezinha que abriga menos de 7 mil habitante e parece ter perdido a coragem de crescer ou ter vida própria. A cada ano, na Quaresma, o ritual, envolto de mistérios, de salvar almas perdidas no além desaparece aos poucos em Jussiape. 

Adentrar neste universo místico para escrever uma reportagem para a Jussi Up Press, e contar a você leitor sobre um ritual que livra almas de irem para o inferno através de súplicas e ladainhas comandadas por mulheres vestidas de longos véus brancos foi um imenso desafio e requereu, entre tantas outras coisas, paciência e persistência para conhecer a história dessas mulheres, muitas delas histórias tristes. Acompanhá-las, por exemplo, no meio do breu, à noite, em cerimônias que, por anos, tradicionalmente, formam uma tradição secular.

O ritual para salvar almas penadas que vagam perdidas encruzilhadas afora, tem início muito antes da Semana Santa, ela começa no período da Quaresma, e corre o sério risco de desaparecer em Jussiape. Há mais de cinco anos, a Encomendação das Almas deixou de ser realizada como vinha sendo feita há anos por famílias inteiras, pois o vandalismo, indicado como principal causa da extinção da prática, impediu o cortejo notívago de sair às ruas nas madrugadas santas. “Os moleques não deixavam (...) rumavam pedra, rumando água, rumando terra, e até acendiam bombas e jogavam na gente”, disse uma rezadeira. “Ainda pequenas, nossos pais eram quem rezavam as almas e nós, todo ano, acompanhávamos”, disse uma delas sobre como aprendeu a rezar as Almas. “Nós rezávamos na segunda-feira santa; terça-feira santa; quarta-feira santa; quinta-feira santa; sexta-feira santa e comemorávamos o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa”, responderam em um coral de uníssono enquanto o som de uma matraca- instrumento sagrado utilizado no ritual para acordar as almas- ressoava entre pequenas casas perdidas no alento da civilização.

No ano de 2012, houve uma iniciativa por parte do diretor do Museu de Antiguidades de Jussiape, Onildo Luz Silva; da professora Soraia Assunção e de minha parte, como fotógrafo- na época eu realizei uma exposição com fotografias do ritual- para resgatar a rica tradição que ainda permanece viva no imaginário de toda a população de Jussiape. 

No entanto as próprias mulheres das Almas se deixaram desmotivar e, em 2013, suas vozes agudas deixaram de serem ouvidas nas madrugadas da Semana Santa. Pelos anos seguintes o que pôde ser ouvido foram reclamações de que o tempo andava cruel com todas elas e só trouxera com ele os males da velhice. Uma das componentes mais antigas do seleto grupo das Senhoras das Almas se converteu ao protestantismo e, desde então, foi impedida pelo pastor da sua igreja de participar dos ritos. 

Em 2015, muitos que já viram de perto as Senhoras das Almas, ou ouviram suas vozes atravessarem a cidade, relatam o quão era emocionante esta parte do ano.

As vielas e encruzilhadas de Jussiape já foram palco de uma belíssima tradição, conhecidas por um trinômio de recomendação-encomendação-devoção. O ritual em Jussiape era comandado por mulheres e consiste em reunir à noite em pontos considerados oportunos, como encruzilhadas e pés de morros, com o desígnio de rezarem para as almas que se perderam pelo caminho ao desencarnarem, explica uma das rezadeiras que segue a tradição por mais de 60 anos durante o percurso do ritual, acompanhada por um repórter da Jussi Up Press. Essas mulheres acreditam que muitas almas necessitam de orações, pois não encontraram paz onde estão e precisam trilhar o caminho da luz.

Em muitos anos, durante a Semana Santa, na Quaresma, as encruzilhadas eram tomadas pelas Senhoras das Almas e seus cantos lamentosos podiam ser ouvidos por toda a cidade, sem nenhum exagero. A sincretização do catolicismo, trazido pelos europeus no século 18, e do Candomblé, religião brasileira de matriz africana, constitui uma das mais antigas demonstrações da fé em Jussiape. 

A história da Encomendação das Almas está ligada à descoberta do território que margeia o Rio das Contas e ao movimento expansionista há três séculos no sertão baiano a procura de minério de ouro e diamante. No território onde só existiam índios passou, então, a ser povoado por europeus e negros africanos escravizados que trouxeram em sua bagagem o que havia de mais precioso, a fé. Neste contexto, Jussiape se torna um território fértil para o nascimento de uma manifestação religiosa sincrética, envolvendo etnias de diferentes origens continentais.

Partindo da primeira encruzilhada, no início da cidade, até o último ponto, na frente da Igreja Matriz Nossa Senhora da Saúde, são várias as paragens. Segue-se pelo caminho do cemitério, por uma via que fica no pé do morro do Cruzeiro até a porta da Igreja Matriz, no centro da cidade, construída por mão de obra escrava na segunda metade do século 19. 

Só há o silêncio, latidos, uivos e a noite como companhia às mulheres salvadoras de almas. Numa dobra da rua, enfim se avista gente, meia dúzia de quatro ou cinco se aglomeram para assistir ao cortejo passar cantando os benditos aos mortos. Em sua maior parte são curiosos atentos e com medo de algum espírito perturbado. 

Uma das mulheres recomenda severamente para que ninguém olhe para trás. As almas não gostam que elas sejam vistas se libertando, elas podem aparecer neste mundo a caminho do outro, alerta. Durante o percurso para a penúltima encruzilhada, um choro calado pôde ser ouvido vindo de várias delas, enquanto um canto lúgubre se misturava, em meio ao cortejo, com vozes chorosas. Uma mulher se aproximou e disse que a tristeza ainda estava muito presente entre todas elas. O motivo era que a dona de uma das vozes mais expressivas daquela ordem havia partido para a eternidade e que todas estavam naquele momento expressando saudade e tristeza.

A prática religiosa que quase não se vê mais em Jussiape é também celebrada por homens e até crianças, trajados de branco, rosários nas mãos e uma matraca feita de madeira utilizada para despertar as almas adormecidas que ficaram presas neste mundo. O lado masculino da ordem também sai rumo às almas amofinadas com a missão altruísta de encaminhá-las à luz. 

As estimativas variam, mas supõe-se que, até o início da década de 1990, em Jussiape, mais de 10 famílias faziam parte desta manifestação. O grupo das Senhoras das Almas atualmente somam-se em cerca de apenas 10 pessoas, entre homens e mulheres. O risco de a manifestação desaparecer é grande, pois os cantos e a fé pertencem às senhoras com idades avançadas que, em sua maioria, já não possuem interesse em passar o ofício às próximas gerações.

Lutar por um patrimônio cultural imaterial talvez seja mais difícil do que salvaguardar um patrimônio cultural material. Só a título de exemplo, o prédio da Igreja Matriz Nossa Senhora da Saúde, datada do início da segunda metade do século 18, na Praça Rodrigo Alves Teixeira, no centro da cidade, possui a imponente notoriedade de quem passa por alí. 

Enquanto algumas manifestações culturais, como a Encomendação das Almas, nem sempre são notadas, ou consideradas patrimônio imaterial. Daí surge a dificuldade de preservá-las. A Unesco define como Patrimônio Cultural Imaterial "as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural". 

O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

No entanto o ritual da Encomendação das Almas sofre sérios riscos de extinção, e uma das principais causas é o vandalismo. Mas, também há falta de conscientização por parte da comunidade local. O período em que mulheres com as cabeças cobertas por um manto branco, acompanhadas por homens, entoando um canto lamentoso percorrem os lados mais sombrios da cidade, à meia noite, através de súplicas a Maria, oferecendo conforto aos que já partiram teve seus dias contados.

Os cânticos contam passagens que, a primeira vista, podem deixar qualquer um que não conheça o ritual assustado. Neles estão contidos alusões à cultura judaico-cristã, repleta de sofrimento e redenção. A ordem das mulheres que rezam almas não funda igreja nem faz pregações. Elas apenas se reúnem periodicamente para salvar aqueles que partiram e não encontraram paz. Seus membros são todos cristãos, embora influenciados por crenças de matrizes africanas. 

As desbravadoras das trevas, que buscam resgatar almas perdidas, enfrentaram algo muito mais perigoso do que qualquer existência vinda do além. Elas tiveram que se defrontar com o preconceito que encontraram na própria comunidade. Líderes religiosos protestantes condenam a prática transcendental, classificando a manifestação como “prática alusiva ao demônio”. Alguns vizinhos protestantes, de vertentes mais extremistas, também expressam preconceito e até discriminaram a prática, conta uma das mais antigas Senhoras das Almas. A ordem diz que nunca se deixou intimidar pelo preconceito, uma vez que, aprendido o misterioso ofício com seus antepassados, acredita ser destinada a salvar seus irmãos que partiram deste mundo para muito longe.