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Sem incentivo, quadrilhas juninas resistem ao tempo

Will Assunção
Will Assunção é editor-chefe da Jussi Up Press, fotógrafo, turismólogo, especialista em Comunicação e Marketing, tripulante da Aviação Civil e estudante de Letras.

Assim como o carnaval, a Festa Hippie e a Encomendação das Almas, as quadrilhas juninas independentes podem ser a próxima manifestação cultural, em sua forma original, a ser extinta no município. As tradições culturais, especialmente em Jussiape, vêm se arrastando sob um fardo homérico de se manterem firmes ao longo dos anos. 

De acordo com quadrilheiros e responsáveis por grupos que se apresentam nas noites do mês de junho pela cidade, enfeitando as ruas, fortalecendo o turismo, atraindo visitantes e incentivando as tradições culturais do município, as equipes encarregadas pelas danças não recebem nenhum tipo de incentivo do poder público; nenhum recurso é destinado às equipes para garantirem as vestimentas, adereços, pessoal de apoio e local para os ensaios.

SEM INCENTIVO
Ou seja, nenhum centavo vem sendo investido nos últimos anos para que as quadrilhas garantam espaço entre as atrações do São João e faça uma apresentação digna de tradição. Se a coisa toda sai bem feita é por mérito de cada quadrilha. Para ser justo, devo mencionar que, em 2013, a Prefeitura patrocinou as duas principais quadrilhas de Jussiape com vestimentas. No mesmo ano, a Quadrilha dos Invertidos participou de um concurso em Vitória da Conquista, onde representou o município; no entanto de lá para cá, nenhuma outra ação de fomento foi realizada.

CULTURA
Cabe entender que as quadrilhas representam um produto essencial do legado histórico da nossa sociedade, fruto de uma época, representado a partir do patrimônio imaterial. O que significa que a manifestação em questão tem o poder de afirmar quem a gente é, além de explicar muito sobre a nossa história e, também, preservar a nossa identidade. 

Quem nunca assistiu a um casamento caipira na vida? A encenação sobre um noivo que é obrigado a se casar com a filha de um coronel, pressionado pela presença de uma carabina a poucos centímetros da testa, explica muito de um contexto do interior do Brasil nos séculos 19 e 20. 

Deu para entender o quão importantes são as quadrilhas? E, de quebra, se você for mais atento às apresentações vai perceber que cada grupo conta uma história diferente, basta prestar atenção nas roupas, nas imagens que cada equipe ostenta no estandarte (geralmente uma ilustração de Santo Antônio ou São João, personagens bíblicas) durante o enredo da apresentação.

QUEM DÁ MAIS?
Não existe desculpa para não investir nas quadrilhas, ameaçadas pelo establishment que vigora atualmente em boa parte do país, especialmente, no nordeste. O papo de que não há dinheiro para amparar as quadrilhas não cola. Uma vez que recursos anualmente são injetados em atrações caras e, na maior parte, de gêneros musicais que não condizem com a proposta do evento. Afinal, o São João de Jussiape, assim como em boa parte da Chapada Diamantina, é um evento cultural atrelado ao turismo e por isso deve ser pensado como um produto turístico.

IDEIAS!
Mas, então, qual seria a melhor saída? Há diversas maneiras de manterem vivas as tradicionais danças juninas. Uma delas seria a criação de um concurso de quadrilhas durante os festejos juninos. Além de estimular a criatividade entre os quadrilheiros, incentivaria os jovens a manterem contato com a cultural e arte local. Mas, assim como você e eu desejamos ter o nosso trabalho valorizado, a sensação de reconhecimento também permeia os pensamentos de quem dança. 

Troféus e medalhas são premiações simbólicas, indicam o esforço e o talento que cada membro esboçou para conseguir vencer determinada competição. Mas isso só não basta. Estamos tratando de uma tradição que não é mais valorizada e vem perdendo o interesse do público. É inteligente, sobretudo, que a competição tenha início com um fôlego hercúleo. Trocando em miúdos: dinheiro, além de ser bom, desperta interesse em qualquer um. Mas a coisa toda não pode ser feita de todo jeito: uma banca julgadora deve ser composta por gente que entende de verdade de cultura, que possuirá o papel de avaliar, por exemplo, a originalidade e criatividade de cada apresentação.

SALVE, SALVE!
É fácil de entender que manter viva uma tradição não é uma tarefa das mais fáceis, mas é necessário e fundamental para que a cultura se mantenha acesa. Além de entendermos, como povo, quem somos nós dentro de uma sociedade complexa e plural. Pensando desse modo, é que acreditamos que por essas e outras razões a quadrilha junina, como uma das mais importantes manifestações culturais do município, não pode ser deixada em segundo plano.