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10 mentiras que ganharam pernas compridas em Jussiape

Will Assunção
Foto: Reprodução
De uns tempos para cá, mentiras com pintas de verdade têm ganhado espaço entre fatos importantes que fazem parte do cotidiano de quem mora em Jussiape. Não é que mentiras nunca tivessem existido antes. Pelo contrário, elas sempre conquistaram o seu lugar de destaque no território que já foi considerado a capital do gado, mas muito antes foi explorado por bandeirantes, em meados do século 18. 

Aposto que você já ouviu falar, por exemplo, de uma suposta linha de ouro da espessura de um braço que corta o centro da cidade e vai até o garimpo de Pedro da Silva, na Serra do Santo Antônio. Nas terras que, segundo Lindolpho Rocha (1862-1911), pertenciam antes aos índios Maracás e Patchós, as cascatas sempre arranjaram um jeito de ganhar pernas compridas e sobreviverem ao tempo. Ou, você acredita mesmo que o significado real da palavra Jussiape significa lugar onde todo pássaro bebe água?

Atualmente, com uma frequência e facilidade assustadoras, lorotas são espalhadas mundo afora com a ajuda da internet através de um simples clique. Você já deve ter recebido de algum amigo ou parente via WhatsApp ou Facebook uma notícia sensacionalista e claramente falsa, mas que a pessoa do outro lado acreditava cegamente. 

Talvez, você já tenha, até, compartilhado também. Muitas vezes, a notícia inventada é utilizada como contrargumento em debates sobre um determinado tema que se tornou polêmico. Segundo um levantamento feito pelo site BuzzFeed, o número de mentiras compartilhadas na rede tende a ser maior que o de notícias verdadeiras. Você consegue pensar no estrago? Pois é, descubra o que há por trás das cascatas mais intrigantes que percorreram as bocas em Jussiape desde então.

1 HÁ UMA LINHA DE OURO QUE CRUZA JUSSIAPE
A lenda diz que uma linha de ouro da espessura de um braço adulto cruza o centro da cidade, atravessando o Rio das Contas e tendo o seu fim em um ponto desconhecido na Serra do Santo Antônio, já na fronteira entre Jussiape e Rio de Contas. Uma segunda versão diz que a tal linha vai até a beta de Pedro da Silva, na base da Serra. 

Esta é provavelmente a mentira mais velha que conseguiu sobreviver ao tempo. É bem provável que o boato surgiu logo após a decadência da exploração do ouro em Jussiape, lá pelo século 19. Com a especulação do surgimento de novos minérios pela região, já que como Jussiape, Rio de Contas também havia sofrido com o declínio do ouro e diamante, exploradores encontraram no boato uma esperança de um recomeço no lugar onde arrobas do minério precioso já haviam sido extraídas.

No entanto a única verdade nesta história é que a Serra do Santo Antônio possuiu de fato um minério. Uma quantia considerável do ouro encontrado lá era transportada em lombos de animais pela Estrada real até a casa de fundição mais próxima e paga à Coroa Portuguesa. Inclusive, passagens como a do pagamento do O Quinto, imposto que o rei de Portugal recebia pela extração do ouro, além de outras curiosas narrativas sobre a época áurea do minério na região podem ser encontradas em documentos no acervo do Museu de Antiguidades de Jussiape.

2 PALAVRA DE ORIGEM TUPI, JUSSIAPE SIGNIFICA LUGAR ONDE TODO PÁSSARO BEBE ÁGUA!
Assim como eu, você deve ter aprendido nos primeiros anos da escola que o nome da cidade significa lugar onde todo o pássaro bebe água. Então, sinto em dizer, mas a história não é bem essa. Segundo Iacina (1907), livro de Lindolpho Rocha, é possível que o vocábulo Jussiape tenha sido mudado ao de sua origem. Como ele é apresentado, ignora-se o que realmente significa, defende o autor. 

No tupi, uma hipótese vaga, diria que esse nome viria de iuçuape, com o significado de "rio de toda caça", pois, até então, exprimia uma verdade, já que no século 19 e início do 20, quando o autor viveu, a maior parte do rio era praticamente intocada. No entanto é importante dizer que, o que existe é uma interpretação do autor, baseada no tupi. Ou seja, apesar de ninguém saber ao certo o real significado do nome Jussiape, o que se tem hoje é uma tradução feita pelo próprio autor. Trocando em miúdos Jussiape significa “rio de toda caça” ou “onde bebe toda a caça”.

3 LULINHA É O DONO DA FRIBOI
A Friboi pertence à JBS, uma empresa de capital aberto. Isso significa que qualquer um pode comprar ações dela na Bolsa, inclusive você. Quem chega mais perto de ser “dono” da Friboi são seus sócios majoritários – e o filho do ex-presidente Lula, apesar do mito frequentemente compartilhado na internet, não está entre eles. A maioria das ações da JBS pertence à família Batista, fundadora do frigorífico. A empresa já foi acusada de ter outros sócios ocultos, como Íris Rezende, ex-governador de Goiás. 

A fictícia associação entre Lulinha (Fábio Luis Lula da Silva, o mais velho dos cinco filhos de Lula) e a Friboi começou a se propagar durante a gestão do ex-presidente, quando a empresa recebeu R$ 8 bilhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento e Social): parte em empréstimos, parte em compra de ações da empresa; o que bastou para que a falsa notícia repercutisse nos quatro cantos do Brasil. Em Jussiape, a lorota foi tema de bate-boca em rede social e até usada sistematicamente pelos seus usuários de direita como contrargumento em debates sobre a reeleição de Lula.

4 BOLSONARO FOI ELEITO O POLÍTICO MAIS HONESTO DO BRASIL E DO MUNDO
A Fundação Transparência Política Internacional teria perguntado a pessoas de vários países quem é o político mais honesto que elas conhecem. 68% dos votos dos brasileiros seriam de Bolsonaro. Em segundo lugar viria Obama, com 52% dos votos dos americanos. A lógica da suposta pesquisa já é esdrúxula (equivale a dizer que Pelé é o melhor jogador da história porque teve mais votos, entre brasileiros, do que Maradona entre argentinos), mas é tudo invenção: a tal ONG não existe, muito menos a pesquisa. 

Em Jussiape, a falsa notícia foi compartilhada entre gente que defende o nome do militar da reserva para a Presidência, em 2018. Além de ser utilizada como escopo de discursos de quem apoia a postura conservadora do deputado. E isso não foi tudo. Em 2016, um perfil no Facebook, que simpatiza com as causas do deputado do Partido Social Cristão (muitas delas excluem as minorias), compartilhou a cascata na própria timeline, fazendo com que seus seguidores tornassem a compartilhar e a reagir com curtidas. Sem se der conta, muita gente compartilhou um link que não trazia nenhum texto, apenas redirecionava para uma página em branco.

5 CALÇAMENTO DO CENTRO DE JUSSIAPE É LEGADO DA MÃO DE OBRA ESCRAVA
Sabe aquelas pedras de diversos formatos, incluindo o desenho de vários sóis, que formam o calçamento da Praça Rodrigo Alves Teixeira, no centro da cidade? Pois é, tem gente que acredita que todas elas foram colocadas lá por escravos, ainda no século 19. No entanto o calçamento da praça data do ano de 1939, quando Jussiape ainda era uma vila e pertencia a Barra da Estiva. O restante do pavimento continuou a ganhar a praça nas décadas seguintes, relembra Amilton Assunção, 89, um dos moradores mais velhos da Praça Rodrigo Alves Teixeira.

Mas, se você é daqueles que precisam ver para crer, basta agendar uma visita ao Museu de Antiguidades, quando ele for reaberto, e conferir o acervo fotográfico da primeira metade do século 20: por lá, você irá se deparar com a icônica foto da Feira do Gado, que comumente é confundida com a Fazenda do Gado. Entre as fotos históricas disponíveis no acervo, é possível atentar para as procissões católicas, datadas dessa mesma época, que também eram realizadas sobre chão de terra. 

Se você ainda tiver disposição para tirar a poeira dos álbuns dos seus pais e avós, poderá conferir pelas fotos da década de 1960 que o centro da cidade ainda era formado por pequenas elevações de areia. Inclusive, havia um pequeno parque por lá, onde as crianças tinham que revezar entre os poucos brinquedos disponíveis.

6 A IGREJA CATÓLICA PROIBIU A PASSAGEM DE CORPOS DE MAÇONS PELA CAPELA ANTES DE SEGUIREM PARA O CEMITÉRIO
Isso poderia soar como verdadeiro se nós vivêssemos no século 18, quando a Igreja Católica se opôs radicalmente à maçonaria, devido aos princípios libertários e humanistas maçônicos. Se formos precisar em datas, vamos até 1738, ano em que surgiu o primeiro documento católico condenando a maçonaria, uma bula do Papa Clemente 12, denominada In Eminenti Apostolatus Specula. Mas, nesse período a Igreja Matriz Nossa Senhora da Saúde, localizada no centro de Jussiape, nem sequer havia começado a ser erguida. A sua construção teria início em m mais de cem anos depois, remontando a segunda metade do século 19, entre os anos de 1850 e 1963.

De lá para cá, muita coisa aconteceu, incluindo a mudança das relações da Igreja Católica com o mundo, e até mesmo com a maçonaria. A própria Igreja desmistificou o caso após o boato correr solto pela cidade de que o corpo de um maçom teria sido impedido de ser velado no interior da Matriz. Um pároco se prontificou a esclarecer o caso e explicou que nenhum corpo- incluindo o de um fiel católico- poderia ser velado no interior da igreja, pois, existia o risco de doenças infectocontagiosas. Hoje em dia, o caixão não pode nem mesmo ser aberto no momento da missa de corpo presente.

7 AUTOR DOS DISPAROS QUE MATOU 3 PESSOAS EM JUSSIAPE, COLÓ, CARREGAVA UMA LISTA COM OS NOMES DAS VÍTIMAS NO BOLSO
Este é um mito recente que ainda é tabu pela cidade. A falsa notícia que assombrou metade da população de Jussiape começou quando o boato de que a polícia teria encontrado no bolso de Claudionor Galvão de Oliveira, autor dos disparos que matou o prefeito, a primeira-dama e um funcionário da Embasa, em novembro de 2012, uma lista com os nomes das prováveis vítimas, antes de ter o corpo levado para o IML (Instituto Médico Legal) repercutiu com a tragédia que gerou comoção nacional. 

O evento de 24 de novembro é caracterizado, sobretudo, por nutrir uma forte carga emocional, o que atrapalha a compreender os fatos, já que acaba se tornando um terreno fértil para boatos. Haja vista, o crime aconteceu em uma pequena cidade com pouco mais de 7 mil habitantes e, entre as vítimas, estava um líder político e sua esposa, que gozavam de popularidade e carisma pela cidade, e um funcionário público muito conhecido em Jussiape. De acordo com policiais, nenhuma lista foi encontrada com o atirador ao ser abatido na Praça Rodrigo Alves Teixeira, centro da cidade, enquanto andava pelas ruas espalhando o terror.

8 AS PINTURAS DA TAPERA FORAM FEITAS POR ÍNDIOS, APÓS A CHEGADA DOS EUROPEUS
Desde que se tem notícia, as pinturas da Gruta da Tapera, a aproximadamente 10 km da sede, teriam sido feitas por índios que conviveram com os primeiros bandeirantes a pisarem nestas terras. A única dúvida que pairava, até então, era a qual tribo atribuir as pinturas; já que em Iacina, livro de 1907, do autor Lindolpho Rocha, a presença dos Maracás e Pataxós é descrita claramente por essas bandas. 

A verdade é que quatro grupos habitaram essa região: Tupis, Aratus, Maracás e Pataxós. Uma reportagem sobre as pinturas foi publicada na Revista Piauí, que traz uma pesquisa que data a idade dos registros. Segundo a publicação, as pinturas teriam entre 10 mil a 30 mil anos. De lá para cá, pesquisadores e estudiosos exploraram o local e constataram o óbvio: as pinturas são muito mais velhas do que se imaginava. Por associação a outros sítios que existem na Bahia e no Brasil, existem algumas hipóteses que foram levantadas. 

Os grupos que fizeram as pinturas rupestres na região usaram instrumentos como os encontrados no trecho que liga Jussiape a Abaíra. Ou seja, grupos que viveram aqui por volta de 6 a 12 mil anos, afirmou Alvandir Bezerra, um dos arqueólogos responsáveis pela pesquisa. Mas até então é praticamente impossível de saber qual deles pertence a autoria das pinturas.

9 O PRÉDIO DA CÂMARA DE VEREADORES FOI CONSTRUÍDO NO SÉCULO 18
Ou seja, entre os anos de 1701 e 1800. Jussiape é tão velha assim? Não, não é. E quem diz isso são os documentos reunidos no acervo do Museu de Antiguidade do Senhor Onildo Luz Silva. Pois bem, se nós levarmos em conta o primeiro registro que diz respeito ao aparecimento de um povo que não seja o indígena nas terras que hoje compreende Jussiape, provavelmente chegaremos aos anos entre 1722 e 1732, segundo documentos do acervo do Museu. 

Para se ter ideia, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Saúde, uma das edificações mais antigas que se tem notícia em Jussiape, foi erguida na segunda metade do século 19, mais precisamente nos anos entre 1850 e 1963. 

Outro motivo lógico que faz com que a invenção perca força é que a arquitetura do prédio da Câmara dos Vereadores de Jussiape é do final do século 19 e início do século 20. A mítica história surgiu em 2002, após a própria Câmara ostentar uma placa de metal, datando falsamente a sua construção, quando foi entregue após ser reformada. No entanto o equívoco que nunca foi reparado, é fácil de ser notado: basta se atentar à própria história.

10 VAMPIRO FAZ VÍTIMAS EM JUSSIAPE

Imagem ilustrativa/Editoria de Arte da Jussi Up Press

O ano era 2000 e o Linha Direta, extinto programa da tevê Globo, exibido nas noites de quinta-feira levava ao telespectador de todo o Brasil crimes hediondos e casos arrepiantes. No mesmo ano em que o programa exibiu a história de um “vampiro”, em uma edição especial, surgiram em Jussiape boatos sobre a aparição envolta de mistério de um homem que se alimentava de sangue, possivelmente o mesmo vampiro do programa apresentado pelo jornalista Marcelo Rezende. 

Os relatos diziam que o vampiro havia tentado atacar crianças e idosas em áreas rurais do município, e que uma vítima do vampiro havia sido levada ao hospital da cidade mais próxima, após perder muito sangue. Em uma época em que o WhatsApp e o Facebook estavam longe de fazer parte do cotidiano das pessoas e a imprensa mal cobria os fatos aqui, ficava difícil de checar a veracidade de tudo o que a gente ouvia.

O certo é que o pavor se espalhou pela cidade e o boato ganhou pernas. Cartazes estampados com o retrato falado do vampiro foram espalhados pela cidade e policiais de outras cidades vieram averiguar o caso. Na época, diversas versões surgiram. Uma delas contava que desde criança, o foragido da polícia costumava se alimentar do sangue das galinhas que a sua mãe criava. Outra versão mais sombria dizia que ele havia perdido a mãe ainda criança e que seu pai, que sofria com câncer terminal, o ofereceu ao Diabo em troca de mais alguns anos de vida. Na internet é possível encontrar mais histórias envolvendo o suposto vampiro.

No entanto não há comprovação de que ele teria realmente andado por Jussiape. O que se sabe ao certo é que o acusado de matar 16 pessoas de forma macabra foi identificado pela polícia como Benedito Gomes Rodrigues, de idade incerta, mas possivelmente um idoso com mais de 60 anos, que havia fugido do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha (SP), em 1991. 

O portador de encefalopatia, doença mental causada pela falta de oxigenação no cérebro, bebia o sangue de suas vítimas, segundo a polícia. O vampiro que cruzou o país e ganhou fama de ser um mestre dos disfarces, levando as pessoas a acreditarem que ele poderia desaparecer a aparecer como quem possuísse poderes além da nossa compreensão, utilizava nomes falsos e fez vítimas nos estados de Goiás, Amazonas, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo.

MAS, E AS TRANSFORMAÇÕES DE PESSOAS DA CIDADE EM LOBISOMEM, CONTAM TAMBÉM?
Se vampiro pode, por que lobisomem, não? A história tende a ser a mesma em quase todo o resto do país. E em Jussiape não poderia ser diferente. Por essas bandas, a história é que à meia noite, especialmente durante a Semana Santa, homens que costumavam desrespeitar as tradições católicas durante dias santos se dirigiam a uma encruzilhada e se transformavam em uma fera metade lobo, metade homem. 

Depois de transformado, saía pela noite atacando ferozmente tudo que se movia pela cidade. Antes do amanhecer, a besta procurava a mesma encruzilhada, ou outro lugar, como o fundo de um cemitério para se espojar e voltar a ser homem, não antes de dizer algumas palavras do livro de São Cipriano.

O diz que diz espalhou pela cidade que a maldição poderia ser passada após a morte de um familiar que possuía a aberração. O boato do lobisomem permaneceu por vários anos em Jussiape e até escolheu o seu personagem favorito. Baeca, figura folclórica da cidade, não apenas se transformava, como roubava doces na calada da noite, dizia a lenda. Sintomas como mudança de comportamento, agitação, dilatação da pupila e alteração da cor dos olhos para um amarelo pálido, geralmente apareciam às vésperas da transformação. 

Na década de 1990, todos que acreditavam na maldição do lobisomem diziam que a fera tinha preferência por bebês não batizados. O que, segundo boatos da época, fazia com que as famílias batizassem suas crianças o mais rápido possível. Para frear as maldades do bicho haviam três modos: ou atirar em uma parte do seu corpo com uma bala de prata; ou fogo; ou a água benta.

A verdade é que, assim como livusias, o mito do lobisomem faz parte do nosso folclore. Nunca houve nenhuma prova de que o bicho realmente existiu pelas vielas da cidade. A invenção de que Gilberto Dantas se transformava em uma besta durante a Semana Santa pode ser explicada pelo simples fato dele ter sido uma das pessoas mais populares de Jussiape na época e gozava livremente da irreverência que lhe foi concedida.